ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Ganhanguane Masseve


O passado é um morto enterrado no túmulo do tempo    

_ Então, os filhos de que são não os são por meras encruzilhadas do destino?

_ Bem o adverti, homem. Mas a moléstia o convenceu da minha ira. Meu bamboleio dançante alvejava o *Mula – o astuto da rua 8 – que morria os olhos em desejos recalcados; morria bicho-papão que o era, dedo-a-dedo, em contornos milimétricos do meu corpo soluçado de prazer. Morria, tocava-me o profundo limiar da alma; sua mão trémula vagava sons emergidos lá do obscuro adocicado do meu íntimo, onde a língua lavra sentidos como o açougue do camponês em mata túngica e aberta. O Mula exalava temperos místicos no elixir da verdade do meu ego sensorial...

_ E morrias em perfeita mortalha do gozo...basta! basta! basta! Minhas mãos à cabeça desesperam uma vida. Sou choro e grito em perpétuo desespero. Sou morte. Onde me aguardam as cinzas de que me valerá a cremação?

_ Não te desesperes, marido!

_ Marido o Mula-da-rua-8.

_ Calma! O passado é um morto enterrado no túmulo do tempo...

_ Um morto que gerou duas criaturinhas e as alimentou num ventre fértil como o seu? Um morto-vivo? Maldição! O facão na noite de euforia não foi um equívoco de ocasião -  copeiro que o era – era para o esfolar vivo do baço à gangrena, passando o gume por aquele titubeio vocálico de sedução grotesca e vulgar.

_ Por isso, meti-me ao meio como o muro da vizinhança para bloquear a inveja que emanava teu semblante de ira. E quando se bramiram ao chão poeirento meu desespero era a presunção da desgraça.

_ E ganhaste a cicatriz de hélice na lombar.

_Porque a ira te domara.

_ Por que deitou-se à terra com dois homens em socadas múltiplas?

_ Por que não pousou o punhal na mão do segurança, em fulcros de esperança, para esmorecer o conflito?

_ Porque o Mula-da-rua-8 era um tipo engenhoso aos punhos, e eu sabia-o. O facão amputava-o o sonho de um Mohammad Aly em golpe fatal sobre um adversário amador. No jogo da musculatura o punho certeiro é o cano, sem a efusão do tiro...

_ Pois, o tiro com que deitei-me por entre dois homens cegos de paixão e ódio?

_ Vaga-me a memória da tua maxilar rompida, vaga-me o busto ensanguentado da blusa de... alças? Colada ao corpo como que em réplica simbiótica...

_ Tem razão, homem, afinal são dezoito anos enterrados no sepulcro do tempo.

_ De quem foi o tiro?

_ Do Mula-da-rua-8.

_ Maldição!

_ Foi o que enfureceu tua raiva felina. E bateram-se as frontes quando os membros entrecruzados no bloqueio abriam profundos sulcos sobre o areal. Recolhi o punhal, semienterrado, cintilante sob a luz embaciada dos candeeiros da rua, cuspida da tua algibeira. Foi quando o empurrão grotesco da multidão me traiu a lucidez: o facão estava preso ao ventre e tatuava-me, incisivamente, em hélice, na teimosia instintiva de o remover...e caiu a escuridão.

_ Era o desmaio. Os sentidos pouparam-te a vida.

_ O que sucedeu ao resto daquela noite? Quem matou o Mula?

_ Não sei. A prisão que me teimou o cárcere em 8 anos de agonia achara quaisquer provas da minha vã inocência.

 

 

Ganhanguane Masseve, Psicólogo, escritor e activista cultural e vive na Matola. Venceu a edição de 2012 do prémio literário do Banco de Moçambique com “As Três Mulheres de Malunga)” (Livaningo 2015); o Prémio Literário as Línguas em Português do Instituto Camões “No Reino do Asfalto (Beira; 2013) e menção honrosa com “Conto(s) Contigo Maputo!’’ (Prémio Literário 10 de Novembro em 2015) E publicou a colectânea de contos ”A Verruga de Martelo”(Kuvaninga;2019).Tem textos publicados no Noticias, Soletras, Literatas, UP-Noticias e outros. Foi Vice-Presidente do Movimento Literário Kuphaluxa, do Centro Cultural Brasil-Moçambique. É docente de Psicologia e Pedagogia e colaborador da IQRA TV.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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Paginação:

Nuno Baptista


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