ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Myrian Naves


Entrevista com o autor: Caio Junqueira Maciel: Um Estranho no Minho    

[Um Estranho no Minho, Caio Junqueira Maciel.
           Editora Viseu.2020.]

 

Um brasileiro, professor de literatura aposentado, acompanha a esposa, que faz pós-doutorado na Universidade do Minho, em Braga, Portugal. Enquanto ela frequenta as aulas, ele flana pela cidade, pesquisa na biblioteca e, principalmente, surrupia conversas dos vizinhos e dos personagens boêmios da cidade. Anota tudo num diário e o que era para ser um registro do cotidiano acaba se transformando numa estranha aventura internacional, intertextual e infernal.

 

Myrian Naves:
Caio, por favor, sua biobibliografia, para introduzir a entrevista.

Caio J. Maciel:
Nasci em Cruzília, em 1952, com o nome de Luiz Carlos, nem em homenagem ao Prestes, mas a uma certa Mére Louise, freira do Sion de Campanha, de quem minha mãe gostava muito da época que estudou lá.

O Caio nasceu em 1980, na publicação do primeiro livro de poemas, Sonetos Dissonantes. A essa altura, já era professor de literatura, pois formei-me em 1974, na Faculdade de Letras da UFMG. Depois ainda escrevi outros livros de poemas, Felizes os convidados (1984), Doismaisdoido é igual ao vento (1997), Era uma voz: Sonetos só pra netos (2005) e Pele de jabuticaba (2019). Publiquei ensaios, contos em antologias, como Jovens contos eróticos, da editora Brasiliense, em 1986; Coletivo 21, ed. Autêntica, em 2011 e Adolescência e Companhia, editora Migulim, 2012.

MyNaves:
Caio, escritores se encantariam em apenas flanar em viagem pelos espaços públicos e fuçar a vida alheia sem fazer disso matéria de ficção?

Caio J. Maciel:
Tudo pode servir de matéria de ficção, mesmo se o escritor estiver vivendo num cubículo, de quarentena, sem sair de casa. E, naturalmente, não é preciso fazer das viagens uma obra de ficção, não precisa nem de escrever, de anotar nada, basta viver e aproveitar o momento. Viajei um pouco por aí afora, e essa permanência em Portugal praticamente me exigiu que fosse escrito algo, e assim o fiz.

MyNaves:
A sequência de suas obras foi um caminho esperado até o Um Estranho no Minho? Houve alguma fratura? O exercício de se espraiar pelos gêneros é um caminho possível, desejável? Ou mesmo impossível, é um bom exercício para o escritor?

Caio J. Maciel:
Escrevi o primeiro livro de soneto pois era o gênero que me apetecia, é uma forma exígua, condensada e não tinha tempo para me espraiar em outros gêneros. Sempre trabalhei demais, dava aulas demais, e quando ia escrever um conto, uma história maior, sentia-me absorvido demais, e não tinha condições físicas nem psicológicas para atender a esse exigente chamado. Por isso a poesia ocupou mais tempo de minha vida. Além disso, gastava outra grande fatia de tempo escrevendo estudos literários, meu ganha-pão, juntamente com as aulas. A crônica também sempre me atraiu, mas não tinha onde publicá-las. Hoje, escrevo o que me dá na veneta e ponho nas redes sociais, tem gente que lê e gosta.

MyNaves:
O ensino formal e teórico é realmente a melhor estratégia para o ensino sobre o que é Literatura?

Caio J. Maciel:
Para o ensino da literatura, a gente tem de ler de tudo. Muita coisa mesmo, de todos os gêneros, sem preconceito. Só teoria não dá, há de mesclar estudos teóricos, ensaios, com a matéria vertente que é o próprio texto literário. E a prática ajuda demais. Cada aula é um aprendizado.

MyNaves:
Do Prefácio, “O livro que anda”, de Francisco de Morais Mendes, os excertos:
 “Roberto Mário Toledo Uchoa, o autor de um diário do período em que morou em Braga, no norte de Portugal.”

“Uchoa é ubíquo. Vive em dois mundos e os vive plenamente.”

“Em comum, ambos têm o gosto pela leitura; no caso de Maciel, o gosto pela releitura.”

Então:
Dados o compromisso com a verdade e o compromisso com a literatura, para escrever um romance de viagem, em forma de diário, em um dado recorte temporal particular _ a micro-história em fricção constante com a macro-história, variações de escala em reflexo dos dois espelhos. Como unificar, refletir isso em um anteparo legível? Deixar-se levar pela imaginação? Dizer “Não analisa, não” e se deixar levar pelo evento? Seria necessário desde o início introjetar uma rota, ter um protagonista _ um outro estruturado para conduzir tudo isso?

Caio J. M:
Sempre gostei do surrealismo, principalmente naquela questão de a gente poder viver em dois mundos. É o que fiz e o Chico assinalou isso bem no prefácio que ele fez pro livro. O ser humano é sempre um estranho, no ninho, no Minho, nos caminhos que faz. Escrevi muita coisa que aconteceu, que poderia ter acontecido, que achei que deveria ter acontecido, que imaginei, e houve um momento em que já não sabia onde estava a fronteira desses reinos...

MyNaves:
A literatura é um exercício que se deve fazer num contexto intimamente re-conhecido, observado pelo autor, para que os dois compromissos, com a verdade, com a literatura, sejam bem realizados?   

Caio J. Maciel:
Nunca havia pensado nisso, até que o espaço foi me conquistando. A gente viver num lugar estranho e tentar conhecê-lo e buscar reconhecê-lo no campo da escrita é uma grande aventura, foi um enorme rito de passagem. Mas o compromisso que assumi não foi exatamente com uma verdade geográfica, histórica, político-social. Assumi um compromisso com a literatura, de elaborar um texto que pudesse agregar vários tipos de vivência, como leitor, re-leitor, cidadão.

MyNaves:
Do Prefácio, “O livro que anda”, de Francisco de Morais Mendes, os excertos:
“Uchoa é ubíquo. Vive em dois mundos e os vive plenamente.“

“De um certo Ortiz, que acompanha o narrador em inesperadas aparições, à Alice de Lewis Carroll, com quem ele conversa na vitrine de uma livraria, a literatura e o cinema fornecem material inesgotável a Uchoa, que realiza com essa matéria suas trocas, digamos, simbólicas com o ambiente ao redor.”

Um quixotesco personagem, a companhia inesperada de um fiel escudeiro, o objeto livro, o evento da publicação, a vitrine e a transparência de sua matéria _ exposição, anteparo e superfície de reflexão, pode dar conta de refletir o escritor/leitor que ali se posta como observador que está dentro e fora da cena?

Caio J. Maciel:
Gostei dessa pergunta, outra viagem. Realmente, o livro foi meu fiel escudeiro. O protagonista do romance, a certa altura, é chamado de O Livro que Anda, pois ele se confundia com o objeto livro, e ele é mistura de Quixote e Sancho, e o caráter picaresco, o humor é muito relevante na narrativa, atenuando as pesadas cargas literárias. Há muitos episódios em que se mesclam autor, personagem, livros alheios, como o episódio ocorrido em Londres, diante de uma livraria especializada em Lewis Carroll. Ali, o narrador pula para dentro do livro da Alice e, por sua vez, vai ocorrer de personagens de Carroll saltarem para fora de seus livros e virem para o encontro do narrador. Na Espanha também ocorreu isso, às margens do Ebro, onde um texto de Cervantes vem marcar a paisagem, ou em outro episódio, às margens do Tormes, em Salamanca, com a presença do Lazarillo.

MyNaves:
 Qual é o papel exercido pelo autor/leitor na sociedade do agora? O leitor como agente da visão paulofreireana da leitura, qual sua importância? A reflexão cada vez mais fragmentada. Ou representada por uma imagem chapada, instantâneos desvinculados da Memória, do registro da Cultura. 

O autor/leitor incorporaria também as facetas dessa sociedade do agora e daí extrairia sua criação? Como manter a leitura de mundo, a micro história pode manter a leitura quando a Memória Social falha?

Caio J. Maciel:
Agente de leitura e de escritura, de feitura de um mundo nascido nas fraturas das letras em disparada nas frases, parágrafos, capítulos, o que nós, que escrevemos, buscamos fazer é tentar ajuntar o que está disperso, dar um pouco de ordem ao caos, mesmo se usamos de recursos caóticos. Não apenas soletrar ti-jo-lo, mas juntá-los não apenas em desenhos lógicos, mas também em construções mágicas e permitir o onírico, o fantástico, tudo isso são fragmentos de paralelepípedos para o calçamento das consciências atormentadas, ugh, acho que falei besteira demais...

MyNaves:
Escutar o livro que surge é um acesso a esse autor que surge ao final, como se fosse a um outro? Acessar locais desconhecidos através e ao longo da construção do discurso e transformar o conteúdo em uma obra legível pelo outro é realmente transformador? Freud, Lacan ou o Nada? Ou o risível? Há ingenuidade em dedicar-se a uma arte como a literatura? 

Caio J. Maciel:
Rimbaud disse: “Je est un autre”, e o Pessoa sempre nos lembra que o poeta é um fingidor. Escrevi e vivi o livro, mas o protagonista se chama Roberto Mário, que é uma homenagem ao Romário, ídolo de meu time, o Vasco da Gama, e que joga também com a questão do gênero, pois é um romance + diário: romário. Trabalhei em cima do desconhecido:  do espaço, das pessoas, da linguagem, pois pesquisei demais um outro português, o minhoto, o que levou a editora a publicar, antes do meu texto, o glossário. Assim como no pórtico do livro há um mapinha de Braga, há essas páginas do glossário. E, ao longo da narrativa, essas palavras ganham vidas, enunciadas pelos personagens. Quanto à questão da ingenuidade, é o tal negócio: de repente, ninguém vai gostar do livro, achar que perdi tempo. Poucas pessoas já leram, só uma que abandonou o livro pela metade, tudo bem, mas confio muito nas pessoas que gostaram, principalmente do editor, que confiou no meu taco. A sorte está lançada.

MyNaves:
Há contradição essencial entre o professor, o autor e o leitor que ele também é, entre o crítico literário e o escritor? Um jogo de estratégias? Sinuca de Bico? Há quem o diga um fingidor, que o poeta é que é.

Caio J. Maciel:
Olha só, falei em taco ali atrás sem ter visto essa sua metáfora da sinuca de bico… Não vejo nenhuma contradição essencial, todos esses pedaços de mim me fazem o que sou. Todas essas facetas estão presentes no livro, que é um porre de literatura, um sarau ambulante de poesia, uma prestação de contas ao desarvorado leitor que sempre fui, ao piadista que às vezes sou, e acho que essa parte é que vai agradar mais aos leitores.

MyNaves:
O hiperfoco, essencial a escritores, criadores, artistas, é uma benção ou um fardo?

Para re-leitores, sempre é possível uma re-leitura cômica?

Somos legião. Distraídos venceremos?

Caio J. Maciel:
 Uai, você mesmo já respondeu tudo isso...Tudo é bênção e é fardo, o sério e o cômico se entrelaçam, somos legião estrangeira e também adoramos ficar aquém da porteira. Com “caprichos e relaxos”, com rabichos e relinchos, na galopante metaformosura da literatura.

 

 

Caio Junqueira Maciel, brasileiro, é professor de literatura e escritor.
Myrian Naves: brasileira, é professora de literatura e escritora.
Faz parte do Conselho Editorial de InComunidade.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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WALTER MOLINO, 'Cartoon publicado no jornal Domenica del Corriere', 16 de Dezembro de 1962.


Paginação:

Nuno Baptista


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