ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Myrian Naves, pelo Conselho Editorial


Maria d’Apparecida da cor negra e do azul do mar    

Maria d’Apparecida não se descreve.
Maria d’Apparecida se vive.
Ela vem da cor negra
e do azul do mar
de um Brasil impaciente.
(...)
Mara Guimarães

 

 

A biografia da cantora afro-brasileira Maria d’Apparecida, primeira brasileira afrodescendente a cantar Carmen na prestigiada ópera de Paris está sendo lançada pela Editora Alameda neste mês de novembro, mês da consciência negra. Morta em 2017, sua biografia já foi traduzida para o francês ano passado.

A mezzo soprano nascida no Rio de Janeiro foi professora primária, locutora de rádio antes de entrar para o Conservatório nacional de música do Rio e finalizar a formação com menção. Em seguida ganhou concurso da ABI – Associação Brasileira de Imprensa, fez concertos, mas não conseguiu fazer carreira no Municipal do Rio de Janeiro por causa da cor de sua pele. Teve que se expatriar.

Depois de ganhar um concurso na Itália, tomou coragem e decidiu fazer carreira no exterior. Chegou em Paris numa turnê – Lisboa, Madri e Paris – com o pianista e compositor Waldemar Henrique. Gravaram seu primeiro disco com a Decca na capital francesa. Ele voltou ao Brasil, ela ficou. Foi se aperfeiçoar no importante Conservatório nacional de música francês e começar a empurrar portas para mostrar seu canto.

Conheceu no final dos anos 1950 o pintor surrealista Félix Labisse que já conhecia o Brasil. Ela foi sua modelo, sua amante e sua musa; Viveram uns 20 anos de uma relação surreal. Ele pintou pelo menos 14 quadros lhe retratando. Quase todos fazem parte das “mulheres azuis”. Labisse foi de grande importância na sua vida e carreira e terminou mais tarde morrendo nos seus braços.

A batalha foi longa, mas a carioca Maria d’Apparecida conseguiu realizar seu sonho com muito sucesso do púbico e da imprensa brasileira e francesa cantando Carmen no palco do mais reputado teatro francês, a ópera de Paris.

Cantou Carmen, mas também muitas outras peças em diferentes teatros franceses e europeus. Por exemplo, Didon et Enée, L’Amérique, Les fiançailles à Saint Domingue, Lucrèce de Padoue, La voix humaine… E quando um acidente lhe deixou por três anos longe dos palcos e na impossibilidade de cantar uma peça inteira, com a voz abalada, foi para a MPB e ao mesmo tempo continuou cantando folclore brasileiro. Gravou mais de 20 discos, dos quais quatro premiados.

Um dos discos premiados cuja capa mostra o quadro Maria d’Apparecida pintado por Labisse em 1965, ano em que cantou na ópera de Paris

Recebeu títulos: a mais alta distinção francesa, chevalier de la légion d’Honneur, a brasileira Ordem do Rio Branco. Foi distinguida também com a medalha da cidade de Paris, o diploma de honra e medalha de prata no Concurso Internacional de Música G.B. Viotti, Vercelli (Itália); diploma de honra ao mérito Carlos Gomes (Brasil); medalha Silvio Romero; medalha de ouro do mérito artístico (Rio de Janeiro, Brasil); cidadã de honra do Rio de Janeiro; medalha de ouro da Société d’Encouragement au Progrès (França); medalha Fefieg – Federação das Escolas Federais Isoladas do Estado da Guanabara, entre outras.

Capa da revista First Classe recebendo a légion d’Honneur das mãos do presidente francês da  época, François Mitterrand. Foto arquivo família Coex.

Militou pela causa negra e morreu no verão europeu de 2017, sozinha, no seu apartamento não muito longe do Arco do triunfo em Paris, nos seus 91 anos, mesmo se seus documentos lhe davam 81. Morta dia 4 de julho, Maria d’Apparecida teve que esperar mais de dois meses no IML - Instituto médico legal para ser enterrada.

Como brasileira – nunca pediu a nacionalidade francesa – morta no exterior, o consulado brasileiro era seu representante na França, encarregado, portanto, de cuidar da questão. Deveria encontrar seus familiares e o testamento de forma a respeitar seus últimos desejos.

O Consulado brasileiro terminou encontrando – com a ajuda da Interpol – no Rio de Janeiro, sobrinhos filhos de sua irmã de criação. Mas... não existia nenhuma relação oficial entre eles. Maria d’Apparecida nasceu de uma empregada doméstica que foi engravidada pelo filho da patroa, em São Paulo. A família do rapaz teria mandado-a para o Rio de Janeiro no começo da gravidez. Foi então trabalhando como cozinheira numa família burguesa do Rio de Janeiro, que Dulce, como a chamavam, deu à luz à Maria d’Apparecida. Pelos 7 a 8 anos de Maria, a mãe morre e ela continua a viver com a família com todas as prerrogativas, mas nunca foi adotada oficialmente.

O testamento não foi encontrado, a pessoa que comprou o apartamento em viager, pediu à justiça – e obteve – o direito de ocupá-lo. Então, fotos, correspondências, todos os acervos da cantora ficaram inacessíveis. Muita gente de arte, no Brasil e na França, escreveram sobre ela. Carlos Drummond de Andrade foi um deles:

Maria d’Apparecida
Tua voz
(...)
É uma voz que vem das entranhas do vento e dos coqueirais,
do sigilo dos minérios e das formações vulcânicas do amor.
Terrestre. Telúrica. Mulher.
(...)
Tua voz, d’Apparecida, é aparição
Fulgurante, sensitiva, dramática
e vem do fundo negroluminoso de nossos corações
e vai, e volta e vai,
Maria d’Apparecida do Brasil,
(...)

A biografia Maria d’Apparecida negroluminosa voz lançado agora, é uma homenagem a esta personagem que por meio século, final do século 20, foi uma verdadeira embaixadora da música brasileira em Paris cantando lírico, folclore e MPB. Um resgate a fim de dar a ela o espaço merecido na história da música brasileira.

 

A autora do livro
Mazé Torquato Chotil é jornalista, pesquisadora e doutora em ciência da informação e da comunicação pela Universidade de Paris VIII. Nascida em Glória de Dourados (MS), vive em Paris desde 1985. É autora de José Ibrahim: o líder da primeira grande greve que afrontou a ditadura, Trabalhadores exilados: a saga de brasileiros forçados a partir (1964-1985), Lembranças do sítio, Lembranças da Vila, Minha aventura na colonização do Oeste e Minha Paris brasileira. Em língua francesa é autora de L’Exil ouvrier e Ouvrières chez Bidermann: une histoire, des vies.

Todo o mês de novembro, a editora propõe venda com frete grátis:
http://www.alamedaeditorial.com.br/historia/maria-d-apparecida-negroluminosa-voz-de-maze-torquato-chotil

No final da compra utilizar o cupom de desconto: APPFRETEGRATIS (tudo em maiúsculo mesmo). 

Página Facebook da cantora: https://www.facebook.com/Maria-dApparecida-negroluminosa-voz-106545661241107/

Página Facebook da autora: https://www.facebook.com/mariajose.chotil/

Site em francês: http://mariadapparecida.eu/

Vídeos sobre a vida de Maria d’Apparecida: https://www.youtube.com/watch?v=U7vCZpQ1aUI

Vídeos, entrevistas nos arquivos do INA – Instituto Nacional de Audiovisual, em francês:
 https://www.ina.fr/recherche/search?search=maria+d%27apparecida

 

Myrian Naves brasileira, é professora de literatura e poeta e escritora.
Faz parte do Conselho Editorial de InComunidade.

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Foto de capa:

WALTER MOLINO, 'Cartoon publicado no jornal Domenica del Corriere', 16 de Dezembro de 1962.


Paginação:

Nuno Baptista


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