ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Nilma Lacerda


Fugas numa Câmara de Costura
(dos relatos medievais de Magda Azarrote)    

O povo de Ariel passara por terras de Andaluzia, e foi lá que a mãe dele traiu o bando, entregando o sangue ao estrangeiro para manchá-lo de outras linhagens, de outras histórias. Merecia a morte, mas ganhou o perdão. Seu corpo, sua cara encarnavam o fruto do ventre, feito de prazer e amor, e disso nasceu a criança, a mais bela de todas quanto tinham visto, a pele de seda azeitonada, cabelos de carvão e olhos de água. Crescido, Ariel coube inteiro e só na cobiça das mulheres.

As mulheres ciganas sabem usar de sortilégios para prender junto a elas o homem que amam. Em dias de vento, fazem queimar certas ervas e desenham, enlaçando-os, o próprio nome e o nome do amado. Endereçam a guirlanda de fumaça ao dono de seus pensamentos, que fica preso, para sempre preso e enredado, à autora do feitiço.

Quando a primeira mulher se apaixonou por Ariel, ele correu da magia misturando-se aos cavalos, passando bosta no corpo, montando neles ao contrário, as pernas em volta da barriga, o pescoço abraçado por baixo. O anel de fumaça não encontrou Ariel e se desfez ao pé dos montes. Na vez da segunda mulher, ele subiu na colina mais alta e foi dormir com os lobos no fundo das cavernas escuras. O feitiço voltou a galope para o lugar de onde saíra. A terceira apaixonada procurou ter mais cuidado, disfarçando as intenções. Mas ao pressentir a chegada de um vento propício aos encantamentos, Ariel untou o corpo de azeite, esfregou-se nas oliveiras e pôs-se a andar pelo campo. A fumaça desmanchou-se entre as árvores, exausta de buscar aquele a quem devia enlaçar.

Ariel falava às mulheres de amor e liberdade. Queria estar com todas e não ser de nenhuma. Despendia com cada uma delas artes de amor e artes de vida. Repartia pela tribo a perícia no violino e nas danças. Abria porta de gaiola, nas aldeias por onde passava, ensinava jogos às crianças, tirava belezas de dentro dos panos das carroças.

Um dia, chegou às terras do tirano. Espantou-se com o povo tão triste, as mulheres sem beleza, as azeitonas caindo secas no chão. Armou a festa em frente ao castelo, e por toda a noite seu povo cantou e dançou. Os moradores vieram, pouco a pouco, provar o gosto da alegria. A mulher do tirano também veio para a festa e se apaixonou pelo cigano de olhos de ágata.

Encontravam-se às escondidas, debaixo de mil artimanhas e em lugares secretos. Nada disso impediu que o tirano viesse a saber de tudo e planejasse a vingança contra aquele que lhe roubava a mulher, ensinava coisas proibidas ao povo. Preso, Ariel foi levado para o quarto de costura. As más línguas cessam logo seu rosnar, ao saber que não é de panos e fêmea, essa costura. É de corpo e metal.

O tirano vai costurar o corpo dele, fechar todos os orifícios, a ver se a alegria encontra algum lugar por onde sair. As fendas do corpo, as brechas todas por onde passou o prazer: da boca saliva à uretra gozosa; o ânus alívio, o ouvido enredo, os olhos fruição, por aí passarão agulha e fio cosendo pele com pele.

         Ariel imóvel, atado com fitas de couro. A seu lado, a caixa de madeira lavrada com os apetrechos de costura: os fios de metal, a agulha gigantesca e fina, o dedal de ouro e brilhantes. Preso no quarto de costuras, alimentado pelas memórias de amor, aguarda o despertar do poderoso, que virá, ele próprio, assumir a feminina tarefa de mapear corpo másculo.

         O que é viril, será logo atacado.

 

Ariel aguarda o que virá, a costura da carne, na cela de paredes duras e cruéis, o pequeno quadrado gradeado ao alto, onde mal se alcança saber se dia, se noite. Não fugirá dali, a porta intransponível, ferrolhos e trancas, guardas ferozes. Na praça, nas casas, nas carroças corre o rumor desta tragédia, o mais belo dentre todos mandado para a morte com o corpo lacrado, sem poder sequer liberar os humores finais. As vozes circulam suspiradas, silenciadas, sílabas de susto e terror. 

Falam tempos diferentes, as vozes de medo e as outras, as das mulheres que sabem de feitiços e aprenderam nas cordas do corpo a liberdade de Ariel. Por trás das carroças, na beira do rio, relembram suspiros, palavras, sucos, as mortes pequeninas, os jeitos novos de reviver após cada vez.

Arduína, a mãe daquele filho do amor, do prazer e da transgressão, pergunta sobre a batalha que têm à frente. Qual dos ardis é o mais próprio? A cama-de-gato, o leito fatal, a última bebida? Não podem demorar, algumas horas mais e Ariel estará como trapo cerzido, jogado aos porcos.

Confronto em batalha está fora de questão, disse a emissária mandada, que regressou com vozes de derrota, impossível chegar à masmorra, impossível liberar Ariel das paredes grossas do calabouço, o exército do soberano guarnecendo o caminho desde muito antes do castelo.

O vento soprou segredos, vozes veladas, veludosas vozes dentro dele, dizendo, o corpo feminino é fruta e casca, é casa e faca. Elas ouviram, Arduína a primeira dentre todas.

 

Os soldados veem as mulheres se aproximando, em bando, não tantas, mas ao menos uma para cada um. Vêm implorar pelo prisioneiro, querer vê-lo, saber dos últimos desejos dele, naturalmente. São mulheres, marcham manso. Não precisam ter pressa, o tirano é lento e nem começou seu trabalho. São mulheres, podem ver as saias fogosas, eles mesmos engordando dentro das calças. São mais do que pensavam, cada três deles podem pensar em quatro delas. Começam a partilha, essa para mim, aquela para você, aqueloutra para nós dois.

Avançam sobre elas, levantam-lhes as saias, mas sangra o fruto tão apetitoso. Sangram os frutos, as mãos deles estão vermelhas, úmidas, doce e pegajoso o sumo do fruto. Doce, pegajoso, quente, e é deles que escorre, são eles escorrendo pelos muros, pelas paredes, pelo chão. Ao chegar ao inferno, dirão, as bocetas são frias feito punhais,  certeiras como facas de cozinha.

Os corpos abertos, caídos e amontoados no chão, montam uma guarda de carnaval. Os gritos, calados no susto, não dão aviso de perigo ao tirano que se refestela sobre a mulher, sujando-a, machucando-a, ensaiando grosseiro no corpo dela com palavras e gestos o que fará ao corpo do amado. Aí é que ele será apanhado, nas intimidades, gozando como homem sem poder de mãos e de espada úmida. Um porco, estatelando-se contra a parede, não se sabendo ainda condenado, não tendo qualquer noção da proximidade da Comadre fria, o hálito no pescoço, o fedor no peito.

Que fácil é matar o tirano, essas armas debaixo das roupas! Carregando o corpo pesado, as mulheres caminham escada acima, o feminil desejo conduzindo-as ao alto da torre, à câmara que vai se abrir à face do cadáver do tirano. Os poucos guardas que restam, poderiam ser rasgados de frente. Mas se rendem. A ordem é morta, outro o estandarte no poder.

 

         Ariel, desatado, sem costuras a não ser as naturais, não guarda qualquer surpresa. Confiava nas linhas de liberdade, na lealdade grata, na tática gitana.

As mulheres estão satisfeitas.  Preparam-se para ir embora quando Arduína as convida para comer cru o coração do tirano. Abre o peito dele, tira o coração, que é grande, eleva-o por um instante à vista de todas, dá-lhe uma mordida com força e gosto. Passa-o para a que está à sua esquerda, que o morde por sua vez. De mão em mão vai passando o coração, cada vez menor. O último naco é dado à mulher do tirano e ela, dentre todas, é a que mostra maior prazer em comer a carne sangrenta. Acabou o banquete e as mulheres começam a rir das caras sujas de sangue. Vão rindo com gosto, muito gosto. Riem mais e mais, se dão as mãos, fazem uma roda, brincam, dançam, se esquecem de tudo, se entregam à alegria de terem comido um coração de homem.  Rodam mais rápido, corrupiam, cantam alto. Terminam embriagadas, saciadas de gozo, urrando como se as penetrasse fundo o maior de todos os bens.

 

* Publicado em Amores vagos, do grupo Estilingues; Alexandre Brandão, Cristina Zarur, Marilena Moraes, Miriam Mambrini, Nilma Lacerda, Sônia Peçanha e Vânia Osorio. Niterói, Editora Alternativa, 2010.   

 

 

Nilma Lacerda: Escritora brasileira, nascida no Rio de Janeiro, autora de Manual de Tapeçaria, Sortes de Villamor, Pena de Ganso, Cartas do São Francisco: Conversas com Rilke à Beira do Rio, Pégaso na sala de jantar. Tradutora, ensaísta, recebeu os prêmios Jabuti, o Prêmio Rio, o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil e outros. Escreve para a Revista Pessoa de Literatura Lusófona (www.revistapessoa.com ) e São Paulo Review (www.saopauloreview).

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Paginação:

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