ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Verdade    

Não sei a razão de ter pensado, assim sem mais nem menos, em hombridade. As questões de caráter estão fora de moda, não há muito cabimento em se gastar tempo observando-se o ser humano sob a perspectiva de comportamentos adequados ou não. Partindo-se do princípio de que retidão de caráter é produto cada vez mais raro no mercado, não deveríamos nos surpreender quando encontramos pessoas com a dignidade comprometida, ou mesmo totalmente afeitas ao torpe e indecoroso. O mais curioso é que tais tipos, os infames, encontram-se ao ar livre em profusão, são já maioria, embora nós, os renitentes, teimemos em condená-los. Em vão. Seguem impávidos, colossos de boçalidade e atitudes reprováveis.

Houve um tempo em que nossos pais se preocupavam em nos transmitir algumas noções de boa conduta. Cresci em uma casa abastecida por livros. Um esforço coletivo familiar nos direcionava para a leitura. Nas prateleiras das estantes onde os clássicos e a literatura mais recente conviviam, era possível se encontrar histórias bem escritas. Rapidamente o senso crítico se instalou em nosso espírito. Saber distinguir entre o certo e o errado era importante para quem teve meu pai e minha mãe como orientadores. Não os envergonhar, respeitar os valores por eles transmitidos, ficou automático. A gente nem precisava pensar, agia corretamente quase por intuição.

Entre os escritores mais admirados em nossa casa, destacava-se Tolstói. O magnífico criador de A morte de Ivan Ilitch acabou tornando-se unanimidade, todos tínhamos por ele enorme consideração. Rico, pertencente à nobreza, famoso em vida, observava as pessoas do povo com profundo respeito, retratava os mujiques com carinho e conhecimento. Em uma carta enviada a um amigo declarou: "A verdade é que o Estado é uma conspiração desenhada não somente para explorar, mas acima de tudo para corromper seus cidadãos... De agora em diante, eu jamais servirei a nenhum governo em nenhum lugar." Seus conceitos de não-violência e pacifismo influenciaram Mahatma Gandhi, que chegou a se corresponder com o escritor em busca de conselhos. Deixando-se de lado os aspectos complicados de sua personalidade, e mantendo foco apenas no estético de seu trabalho, olho para trás com a certeza de que sua influência foi positiva em minha formação. Era um homem preocupado com a verdade, morreu aos oitenta e dois anos quase obcecado por ela.

Mentir é uma falha grave de caráter. Por mais que as redes sociais aparentemente tenham banalizado o ato, há no fake uma atração capaz de corromper a todos, incapazes de verificar a veracidade dos fatos. Encontrar governantes habituados a divulgar falsidades impunimente, embora comum, ainda me avilta. Jamais me acostumarei com seres humanos sem hombridade. Grandeza e retidão deveriam ser condição obrigatória para ocupar-se a hierarquia mais alta de uma nação. Quando vejo um presidente dizer coisas a esmo, como balão de ensaio, apenas para ver o resultado da fala, arrepio-me. Ensinaram-me a ser totalmente responsável pelo que digo. A gente deve procurar fazer certo da primeira vez, para não precisar se desculpar ou recuar. É um princípio de seriedade. Gente como Jair Bolsonaro ou Donald Trump nunca enrubesce. Eles não têm honra.

Maristela coloca a cabeça sobre o meu ombro. Lê rapidamente a crônica. Por que hombridade e não “mulheridade”? Argumento que a palavra é um substantivo feminino. É prova confessa de machismo, pontifica. Significa retidão de caráter associada ao viril, ao másculo. Onde diabos você foi desenterrar termo tão impróprio? E se retira certa de ter contribuído com o meu trabalho. Certamente colaborou. Tanto que o texto se chamava Hombridade, virou Verdade.

Novembro/2020

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior.  Professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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