ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Sapatilhas de cristal para a Cinderela da gafieira    

 

[A bailarina, Aquarela em papel, 20cm x 50cm. Urhacy Faustino.]

 

Conheci muita gente marcante em minha vida e vou falar de uma dessas pessoas inesquecíveis: hoje quero prestar minha carinhosa homenagem a Maria Antonieta. Nosso primeiro contato deu-se no meio da novela Kananga do Japão, que escrevi com Wilson Aguiar Filho, em 1989. O ambiente aglutinador dos personagens do núcleo principal era um clube recreativo no início do século XX, nas imediações da Praça XV (o local existiu realmente e chamava-se na época Grêmio Recreativo Familiar Kananga do Japão). E não se pode falar em dança de salão sem lembrar desta mestra das mestras, que se exibiu com Carlinhos de Jesus (também seu aluno) em um número inesquecível, na cena preparada por mim com muito carinho, durante vários capítulos anteriores, para que quando acontecesse desse à Maria Antonieta Guaycurus de Souza a relevância que ela merecia. Miúda (1,50m), franzina, ao dançar iluminava o ambiente, agigantava-se.
Só a conheci pessoalmente, porém, na entrega do troféu "Casal 20", no Clube Sírio Libanês, quando recebemos, eu e Wilsinho, o prêmio de dramaturgia daquele ano, pela novela que ela abrilhantou com sua participação especial. Na plateia, do meu lado, vi o sincero entusiasmo com que aplaudia a nova geração que se apresentava naquela noite — a maior parte, alunas suas. E senti, emocionada, seu enorme coração, sua imensa sensibilidade que fluía através da dança, mas que transcendia a própria arte. A partir daí, nos tornamos muito próximas.
Em homenagem a Maria Antonieta escrevi uma peça de teatro, "Sapatilhas de Cristal", baseada em sua vida – vida de uma mulher muito arrojada para seu tempo: amazonense, de 1927, perdeu a mãe aos 10 anos, o pai aos 11, aos 13 veio para o Rio, aos 15 entrou para a Academia Morais, famosa academia de danças de então, lutando inclusive contra a reação da família, que não via com bons olhos uma moça direita sair de casa para dançar com estranhos, atendimentos com horas marcadas, e ainda por cima recebendo dinheiro deles por este ofício... Na própria Academia, ela conheceu seu marido, aluno seu, bem mais velho do que ela. Teve filhos. Por ciúmes dele, deixou a Academia, ficou anos sem bailar e ensinar, mas não aguentou viver longe da dança; então, passou a sair escondido para dar aulas e acabou permitindo alguns treinos em sua casa, enquanto o marido não estava. Quando ele soube que ela voltara a dar aulas, abandonou-a, após vinte anos de casamento. E ela sustentou os filhos com sua dança.
Conversar com Maria Antonieta é saber muito sobre o Rio de Janeiro da primeira metade do século passado, os usos e costumes, e, principalmente, conhecer as “danceterias” da época, os tipos que frequentavam as gafieiras (muitas delas com regras parecidas com as do Le Bal (O Baile), filme de Ettore Scola; sim: e quanto à palavra gafieira consta que foi inventada por Romeu Aredo para designar pejorativamente o local onde ele foi barrado...). Segundo a mestra dançarina, "gafieira era lugar de gente humilde, mas gente comportada e educada, se vestindo com os seus melhores trajes de festa. Eles valorizavam o encontro, a música e principalmente a dança, porque eles sabiam que, pela dança, eles evoluíam: a dança educa o vestir, o andar, o maquiar-se e até o comportar-se em sociedade: e quando é terapia, não alivia apenas a dor, mas mostra em primeiro lugar a bênção que é você estar viva".  Maria Antonieta já foi inclusive citada em teses de doutorado, como a antropológica de Felipe Berocan Veiga: “’O Ambiente Exige Respeito’: Etnografia Urbana e Memória Social da Gafieira Estudantina”. A citação  “O ambiente exige respeito” é referência ao terceiro verso da deliciosa letra Estatuto da Gafieira, composta em 1954 por Billy Branco, o seu primeiro grande sucesso:  https://www.youtube.com/watch?v=W_I9rx45kf8 . Também Aldir Blanc, Maurício Tapajós e Paulo Emílio a reverenciaram ainda em vida, com o samba: Antonieta, na Gafieira.
Maria Antonieta não se preocupava apenas com a técnica dos passos (inventou mais de trezentos para seus shows). Em entrevista concedida em maio de 1997 ao jornal Dance (1º jornal de Dança de Salão brasileiro), ela declarou: Agora há uma pessoa querendo regulamentar a situação de profissional de dança de salão e vou dar uma força. Temos que botar essa gente pra estudar, não só a técnica de ensino, como a história da dança. A dança de salão também tem uma história.  Sua arte não serviu apenas para abrir caminhos para os dançarinos como teve, também, uma atuação social tão discreta quanto importante: gerou empregos – contratou muitos músicos das pequenas orquestras que não sobreviveram ao avanço de industrialização e internacionalização da economia brasileira, e também à crise econômica mundial do pós-Segunda Guerra.
O seu nome é conhecido no estrangeiro, através das participações em novelas de televisão exibidas no exterior, pelos vídeos, documentários, e pelos seus alunos espalhados por vários continentes: Américas, Europa, Ásia, África. Ela, porém, em vez de dedicar-se a carreira pessoal, preferiu ensinar em seu país, e sempre disse com muito orgulho: "Enquanto eu tiver forças, continuo, porque minha maior riqueza é poder mostrar o meu trabalho, principalmente através dos meus alunos” (entre eles, Jaime Arôxa – que fez a abertura da Kananga do Japão – seu primeiro trabalho para a TV –, Elba Ramalho, Ney Matogrosso). O lema de Márcia Haydée (outra grande professora e dançarina de ballet – moderno –) pode servir perfeitamente para Maria Antonieta: "vivo para dançar, danço para viver". Mesmo muito doente, a Mestra não parou, e provavelmente sua dança tenha sustado e assustado a morte, que a deixou em paz por mais onze anos, até abril de 2009. Parodiando o provérbio popular, quem dança seus males espanta...
Em setembro 2008, Maria Antonieta comemorou suas Bodas de Diamante com a dança, sessenta anos de carreira. Morreu em abril do ano seguinte. Sua morte lembrou-me a de um personagem de Jorge Amado, o Vadinho, que morreu dançando, em um domingo de carnaval e foi velado com comes e bebes da melhor qualidade. Maria Antonieta não morreu em um domingo (muito menos de carnaval), não morreu dançando, embora o fizesse enquanto foi possível, nem foi velada com iguarias à moda baiana. Porém o velório da pequena grande artista realizou-se no salão de dança da Gafieira Estudantina (atualmente Centro Cultural Estudantina Musical), fundada em 1928 na Lapa, onde sempre esteve conversando, ensinando e apresentando-se. Lá estavam parentes, amigos e seus alunos tão queridos (muitos atores e atrizes famosos dentre eles). Há vídeos no Youtube sobre ela e um documentário premiado mostrando sua trajetória. Quem puder, assista o percurso de uma mulher brilhante que nunca deixou que o poder e a glória lhe subissem à cabeça. Amava o que fazia, e isto lhe bastava, e isso a realizava plenamente.

Maria Antonieta continua sendo para os que a conheceram uma exímia profissional e arte-educadora (pela dança ela também se empenhava na formação ética e moral de seus alunos), uma mulher admirável em todos os sentidos, digna representante, no mais alto estilo, da dança de salão brasileira de todos os tempos. Ela fez História, está incluída em nosso patrimônio cultural. Em 1995, como presente de aniversário ao Urhacy Faustino, já que naquele ano a noite de autógrafos do "Catálogo da Produção Poética dos Anos 90" coincidiu com o aniversário dele, ela apresentou-se no lançamento de nossa Editora Blocos, no Museu do Índio, encantando a todos com sua magnífica performance (gravada em vídeo) e sensibilizando-nos ainda mais quando, após sua exibição, emocionada por ter sido aplaudida de pé, dirigiu-se a todos nós, dizendo: "Eu também faço poesia. Só que com os pés...".

 

Leila Míccolis;

 

Urhacy Faustino;

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

Urhacy Faustino - Brasileiro, nascido em Cândido Mota, interior de SP. Artista multimídia: escritor (em literatura tem onze livros editados: romance, poesia e literatura infantil), editor (organização e participação de diversas antologias da Editora Blocos), ator (formado pela Uni-Rio – Universidade do Rio de Janeiro em Artes Cênicas – Interpretação teatral), webdesigner (com Leila Míccolis edita Blocos Online – Portal de Literatura e Cultura), capista, artista plástico (participação em diversas  exposições, entre elas a do Ateliê UM, no hall do Paes Mendonça de Vila Isabel, no Rio de Janeiro. Muitos de seus trabalhos nesta área podem ser vistos em sua página no Facebook e também em seu blog: “Dúvidas, incertezas e divagações...”.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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Paginação:

Nuno Baptista


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