ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Paulo Martins


O abominável triunfo da mentira    

A mentira tem uma vasta presença na história da humanidade. Seria impossível identificar a sua origem, já que o ato de tergiversar a verdade é tão antigo quanto a própria humanidade. Mas podemos dizer que a mentira, em todas as suas modalidades, sempre apareceu como uma aparência da verdade. A partir do século XX, com a expansão da imprensa escrita e falada, ela passou a ser largamente utilizada na política, vindo a assumir um papel tão importante na conquista e manutenção do poder quanto é possível alcançar a nossa imaginação. Talvez se possa afirmar que ela foi mesmo reinventada, transformando-se em verdadeira arma de dominação, adquirindo ares de ciência política. No período da ascensão do nazismo chegou-se a criar um verdadeiro laboratório de pesquisa em torno dessa ressurgente e poderosa arma. Estabeleceu-se até uma lei geral para nortear seu uso, não só na política como na guerra, atribuída ao ministro da Propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels: “uma mentira muitas vezes repetida se transforma em verdade”. Pode-se muito bem falar desse órgão como o “Ministério da Mentira”.

A mentira teve papel decisivo nas duas grandes guerras. É verdade que as causas profundas e complexas dessas guerras decorreram do surgimento do imperialismo como etapa superior do capitalismo. Mas as chamadas gotas d’água, isto é, os acontecimentos que justificaram o desencadeamento das hostilidades, nos dois casos, e que por si sós não teriam força para tanto, foram construídos e amplificados pela mentira.

O assassinato, em Sarajevo, do Arquiduque Francisco Ferdinando, sobrinho do Imperador Francisco José, da Áustria, e sua esposa Sofia, é tido como a causa imediata da I Guerra Mundial. O incidente foi resultado de uma conspiração, da qual participaram 15 integrantes do grupo Bósnia Jovem, que não aceitava a dominação do país pela Áustria, e que atuava em conjunto com o grupo ultranacionalista Mão Negra. Entre os participantes dos 15 conspiradores estava o estudante sérvio Gravilo Príncip, o que levou a Áustria à acusação de que a Sérvia estava por trás do atentado. Mesmo após as investigações e com todas as evidências de que se tratava de um ato isolado, a Áustria acabou declarando guerra à Sérvia, o que desencadeou uma série de adesões dos dois lados, estendendo a conflagração a quase toda a Europa. Apesar da complexidade da situação que conduziu à guerra, inclusive do forte processo armamentista das nações imperialistas, foi uma mentira que justificou o início das hostilidades.

No caso da II Guerra aconteceu a mesma coisa, com a única diferença de que a mentira foi meticulosamente construída antes mesmo do evento-chave que levou à guerra. A Alemanha já tinha anexado a Áustria, em março de 1938, no episódio conhecido como “Anschluss”, sob o argumento de uma simples “união” entre os dois países de origem germânica. A Alemanha também já tinha invadido a região dos Sudetos na Tchecoslováquia, em outubro de 1938, sob pretexto de que se tratava de território alemão. Mas estes dois episódios, apesar de colocarem os demais países europeus em alerta, foram, de certa forma, absorvidos pelos principais rivais, em nome da paz, com a promessa alemã de que tudo pararia por aí. Chamberlain, Primeiro Ministro do Reino Unido, chegou a assinar um pacto com Ribbentrop, aceitando aquelas incorporações em troca da promessa alemã de não expandir seus atos belicosos. Mas Hitler e seu Ministro de Relações Exteriores assinavam qualquer papel, uma vez que a mentira estava institucionalizada no país. O restante da Tchecolosváquia foi invadido em março de 1939. Mesmo assim os rivais ainda se contiveram. O estopim da guerra foi a invasão da Polônia, em 1º de setembro de 1939. Para justificar sua ação bélica, a Alemanha criou um argumento que imaginava aceitável. Era um primor de mentira. O episódio tornou-se paradigmático e resultou na montagem da maior farsa que se tem conhecimento na história recente do mundo.

Hitler mandou vestir prisioneiros alemães que estavam nos campos de concentração internos - elementos de esquerda, simples oposicionistas e os chamados “depravados” - com fardamento do exército polonês, muniu-os de algumas armas daquele país e os conduziu à fronteira, ao local em que seriam massacrados, a pretexto de serem soldados poloneses atacando a Alemanha. Filmaram os cadáveres com o fardamento e as armas do exército polonês e mostraram ao mundo a agressão sofrida pela Alemanha, com alguns mortos fabricados do seu lado. É verdade que ninguém engoliu a justificativa, pois a Polônia negou peremptoriamente ter praticado qualquer agressão militar na fronteira alemã. Mas a máquina de propaganda nazista convenceu a população interna, que apoiou com empolgação a invasão do país vizinho. Logo a seguir a Inglaterra e a França declarariam guerra à Alemanha e o conflito mundial começava.

Com os exemplos da Alemanha no manancial da história, o uso da mentira grassou no mundo inteiro.  Na atualidade, sua adoção por políticos e governos de diversos países se tornou corriqueiro. Com o advento da internet, então, foram desenvolvidas técnicas especiais para facilitar sua aceitação pela população. A finalidade dessas técnicas é fazer com que a mentira se pareça com a verdade. O uso de palavras verossímeis é um dos formatos que permite transmitir credibilidade com o propósito de manipular a opinião pública. Tal procedimento pode se multiplicar a níveis inconcebíveis e levar a verdadeiros desastres políticos, econômicos e sociais. O mundo, de repente, imergiu no reino das fake news.

A mentira tornou-se a arma preferida da extrema-direita para a conquista ou a manutenção do poder político. Hitler subiu ao poder através de eleições em que se beneficiou vastamente dos seus benefícios, e governou também sob sua égide. A implantação do Terceiro Reich com o estabelecimento da ditadura nazista foi conseguida através de uma sucessão de mentiras, que começou com o incêndio do Reichstag, o parlamento alemão, em fevereiro de 1933, apenas quatro semanas após Hitler ter se tornado Chanceler. Na época, responsabilizou-se os comunistas, como sempre, criando-se uma falsa justificativa para a radicalização direitista. Com a morte do presidente Hindenburg, em 2 de agosto de 1934, o campo ficou livre para a implantação da ditadura aberta. É então que a perseguição aos opositores é acelerada e as campanhas de entorpecimento do povo alemão levadas às últimas consequências, provocando a tragédia da II Guerra Mundial, com mais de 60 milhões de mortos.

Tenta-se, nos dias de hoje, restabelecer certas práticas nazistas e ressuscitar o espírito e a ideologia de extrema-direita daquela época, impregnando-as nas massas populares através de uma plataforma erigida na ideia da violência e do ódio. Vários países do mundo têm enveredado por este caminho. Mas o principal laboratório dessa experiência na atualidade são os Estados Unidos. Ainda não decorreu muito tempo desde a tragédia da invasão do Iraque, que teve uma mentira como argumento propulsor. A farsa foi sustentada pelo próprio presidente da República, George Bush, como justificativa básica da guerra. Inventou-se que o Iraque era possuidor de armas de destruição em massa, representando um perigo para a humanidade, e que por isso precisava ser dominado. Mas todos sabem que o interesse preponderante dos Estados Unidos para o desfecho da guerra era outro. O Iraque foi invadido para que seu petróleo caísse nas mãos do imperialismo norte-americano. A guerra jamais teve causa humanitária; ao contrário, foi eminentemente econômica. Um produto exemplar do poder da mentira em benefício do capital financeiro internacional.


O Brasil segue à risca o que acontece nos Estados Unidos de Trump. Sua história, na verdade, já é cheia de fatos ligados ao poder da mentira. Lembremos, de saída, o famoso Plano Cohen, de setembro de 1937, que abriu caminho a Getúlio Vargas para se manter no poder e implantar o Estado Novo. Seus responsáveis foram militares ligados ao governo. Elaborando um meticuloso documento contendo um plano secreto de uma suposta conspiração comunista para a tomada do poder, pretendiam criar um fato que justificasse o endurecimento do regime. À frente da empreitada estava o então Capitão Olimpio Mourão Filho, o mesmo que viria a ter participação fundamental no golpe de Estado de 1964.

Tudo foi montado de forma engenhosa para culpar os comunistas e outros oposicionistas, justificar o fechamento do regime político e implantar o Estado de exceção. O general Góes Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército brasileiro, foi destacado para fazer o papel do mentiroso oficial, noticiando no programa radiofônico Hora do Brasil, a descoberta desse suposto plano, cujo objetivo era derrubar o presidente Vargas. Segundo o general, o Plano Cohen tinha sido arquitetado, em conjunto, pelo Partido Comunista do Brasil e por organizações comunistas internacionais.

O plano anunciava uma insurreição armada, semelhante à da “Aliança Libertadora Nacional” de 1935. Era meticuloso, para ser crível: previa a mobilização das massas, a liberdade de presos políticos, o incêndio de casas e prédios públicos e outras manifestações populares que incluíam até saques e depredações, além da eliminação de autoridades civis e militares.

Diante da "ameaça vermelha", Getúlio Vargas solicitou ao Congresso Nacional a decretação do Estado de Guerra, que foi concedido no mesmo dia, 1º de outubro de 1937. Usando dos poderes que esse instrumento lhe atribuía, começou uma intensa repressão, não só contra os comunistas, mas contra qualquer opositor que lhe tolhesse o caminho, como o governador gaúcho Flores da Cunha. No dia 10 de novembro, era implantada a ditadura do Estado Novo.

Conseguindo criar uma comoção nacional diante da revelação do Plano Cohen, Vargas conquistou o apoio de várias lideranças nacionais, e algumas semanas depois autorizou o Exército a cercar o Congresso Nacional, no Rio de Janeiro. Em pronunciamento ao país, anunciou a outorga da nova Constituição, a famosa Polaca. Começava, assim, o macabro período do Estado Novo, que só terminaria em 1945, com seu afastamento da presidência.

A fraude só foi revelada em 1945 pelo próprio general Góes Monteiro, que tentou isentar-se de qualquer culpa. Confessou ele que o Plano Cohen era um documento fraudulento, divulgado unicamente para justificar a permanência de Vargas no poder e reprimir qualquer tipo de ameaça oposicionista. Visando a dar veracidade ao plano, a cúpula militar responsável pela sua "descoberta" denominou-lhe de Cohen para estabelecer suas raízes internacionais e justificar a pesada reação do governo. O nome era uma referência ao líder comunista Bela Cohen, que governara a Hungria entre março e julho de 1919. O que não se explica é como pôde esse energúmeno continuar no Exército brasileiro depois dessa confissão.

Posteriormente, Mourão Filho admitiu ter sido ele o elaborador do documento, a pedido de Plínio Salgado, dirigente da AIB - Ação Integralista Brasileira - a versão tupiniquim do fascismo - afirmando, porém, tratar-se de mera simulação de insurreição comunista, para efeito de estudos e utilizado exclusivamente no seu âmbito interno. Uma cópia do documento, no entanto, teria chegado ao conhecimento da cúpula das Forças Armadas, que, através do general Góes Monteiro, dele se apropriou e desenvolveu a ideia do Plano Cohen como uma ameaça iminente. Mourão Filho também se safou da responsabilidade através da montagem de nova mentira. Assombroso é que ele, da mesma forma que Góis Monteiro, tenha continuado no Exército, com nova patente e honrarias, para voltar a praticar crimes tão ou ainda mais graves posteriormente.

Já o único civil no episódio, Plínio Salgado, dirigente nacional da AIB, que participara ativamente dos preparativos do golpe de 1937, tendo até retirado sua candidatura à presidência para abrir caminho ao movimento, afirmaria mais tarde que não denunciou a fraude “por temor de desmoralizar as Forças Armadas”. Afinal, ela era a única instituição capaz de conter o "perigo vermelho". Ou seja, continuou faltando com a verdade, dessa vez para beneficiar a si próprio, se auto isentando do crime praticado como já o fizera os demais responsáveis pela farsa.

No golpe de 1964, embora não tenha existido um Plano Cohen como o de 1937, a mentira foi largamente utilizada. A principal delas era a que acusava Jango de ser comunista, ou, pelo menos, de estar favorecendo os comunistas com seus projetos de reforma de base. A campanha pela derrubada de Jango, por essa razão especial, conseguiu alguma adesão popular, principalmente na classe média, a eterna herdeira do medo, o que alimentou o jargão então adotado pelas Forças Armadas de que se tratava de uma “revolução”.

O fato é que o comunismo tem sido o bode expiatório de tudo o que ocorre de ruim no país. É o culpado pelas crises, pela corrupção, pela fome, pelo desemprego, pela inflação, e por todas as dificuldades que o país e o povo atravessem. Tornou-se fácil demais culpar os comunistas, mesmo que eles não estejam no cenário físico ou temporal dos fatos alegados. (Nos Estados Unidos Trump dá à sua campanha eleitoral atual uma conotação tão anticomunista que parece estar o comunismo batendo às portas do poder, o que é uma mentira deslavada. O Brasil acompanha a mesma prática nefasta; pois nada como a mentira para enganar o povo.)

Durante a ditadura militar a mentira teve emprego generalizado e foi adotada com várias conotações. Uma das mais usadas foi o negacionismo. Por exemplo: não havia corrupção durante os governos militares, já que estes eram honestos. Hoje se sabe que os casos de corrupção durante a ditadura foram os mais sérios e nocivos que se conhecera até então, implicando em prejuízos astronômicos à economia nacional.  Não foram divulgados porque a imprensa estava amordaçada. Essa linha tomou muitos outros rumos. Chegou-se a estabelecer normas secretas para certas áreas da economia, o que configura um verdadeiro absurdo. Quando se escondia uma “lei” econômica era porque esta estava beneficiando alguém ou algum grupo. Outro exemplo foi a negação da tortura, apesar de provas robustas, materiais e testemunhais, de conhecimento do mundo inteiro. “Nunca se praticou a tortura nos quartéis; no máximo, houve alguns excessos nos interrogatórios de terroristas”, era a explicação oficial. E se a tortura era negada, muito pior acontecia com os “desaparecimentos” e as mortes que não podiam ser escondidas. Eram explicadas como obra dos próprios companheiros da vítima, por “vingança” ou “justiçamento”.

Houve três fatos durante a ditadura militar que são paradigmáticos do uso da mentira com fins políticos. O primeiro deles, em 1968, foi a ideia mais atroz já concebida pela extrema direita contra o povo de um país: a explosão do Gasômetro do Rio de Janeiro, no horário das 18h, que, felizmente, não chegou a ser implementada, em virtude da coragem de um homem íntegro e honrado da Aeronáutica, que denunciou o plano. Com a explosão do Gasômetro pretendia-se instaurar um verdadeiro caos na cidade do Rio de Janeiro, com a possibilidade de morte de dezenas de milhares de pessoas. O Centro de Informações da Aeronáutica, então chefiado pelo notório torturador, brigadeiro João Paulo Burnier e seu comparsa, brigadeiro Hipólito da Costa, convocou o paraquedista e aviador, capitão Sérgio Ribeiro Miranda de Carvalho, mais conhecido como Sérgio Macaco, para participar da ação, mas este se negou e denunciou o plano, ganhando a adesão da imprensa e da opinião pública e evitando a tragédia.

O plano da explosão do gasômetro teria várias etapas: bombas explodiriam na porta do Citibank, da Sears e da embaixada americana, causando algumas mortes. E no dia da ação principal seria explodida também a Barragem de Ribeirão das Lajes. Burnier tentou ganhar a simpatia e a adesão do capitão Sérgio Macaco, oferecendo-lhe a oportunidade de receber a sua quinta medalha por bravura, as quatro primeiras obtidas por mérito pessoal por suas ações à frente do PARASAR, o serviço de salvamento da Aeronáutica, de atuação gloriosa no passado anterior. No dia da explosão ele ficaria de plantão e “seria o grande herói nacional” no salvamento das vítimas. A esquerda seria responsabilizada e o país se livraria dela por longo tempo. Mas Sérgio respondeu que não seria honrado ganhar uma medalha por participação num crime hediondo.

O plano da Aeronáutica não deu certo, mas isto não impediu o avanço da extrema direita, que assentou novo golpe ao país com a decretação do AI-5 em 13 de dezembro de 1968. Removido primeiramente para o Recife, como castigo, o capitão Sérgio, aos 37 anos, foi reformado pelo AI-5, a contragosto, como uma verdadeira sentença condenatória pela sua recusa em participar de um crime. Constantemente ameaçado, só lhe restou a alternativa de continuar denunciando o plano. Pagou muito caro por isso. Além do afastamento da Aeronáutica sem nenhum benefício, levou anos na justiça para reaver seus direitos negados, inclusive o de ser reintegrado, só obtidos em última instância, 3 dias após a sua morte, em 4 de fevereiro de 1994.  É um herói do Brasil.

Em 1976 o Doi-Codi - órgão da repressão política das Forças Armadas -, após ter dizimado a maioria das organizações participantes da chamada guerrilha urbana, não viu outra alternativa para justificar sua existência senão atacar o partido que se opunha às ações armadas, defendendo um caminho pacífico e democrático para superar o regime ditatorial; mas, de qualquer forma, chamava-se Partido Comunista Brasileiro. A maioria de seus dirigentes é presa e grande parte assassinada. Em seguida, começa a prisão dos simples suspeitos, dos amigos e aliados, que levavam vida legal e nunca tinham se envolvido com ações armadas ou com a vida clandestina. Foi assim que caiu Vladimir Herzog, jornalista da TV Cultura em São Paulo, cidadão muito querido da área cultural e de vida eminentemente legal. Foi assassinado nas dependências do Doi-Codi. Como sua prisão era pública, aquele órgão viu-se obrigado a montar uma cena grotesca, que mostrava Herzog enforcado com um lençol amarrado na grade da cela. Ao lado das fotos fabricadas, uma declaração oficial do Exército de que o mesmo teria se suicidado. Foi uma das mentiras mais estúpidas e mais sórdidas perpetrada pelas Forças Armadas de um país. Uma mentira que saiu pela culatra, pois desmascarou completamente a ditadura, principalmente depois que outro assassinato aconteceu em suas dependências meses depois: a do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, também anunciada como suicídio. Estas duas mortes, sustentadas por duas mentiras atrozes, sem dúvida abriram caminho para a redemocratização do país.

Mas a extrema-direita, incrustada nos organismos de repressão das Forças Armadas, nunca abdicaram de seus intentos de endurecer novamente o regime do país. E em abril de 1981, já com a lei da anistia em vigor, elaborou um plano macabro de explosão de um artefacto no Centro de Convenções do Riocentro, no Rio de Janeiro, quando da realização de um show de artistas nacionais, em comemoração ao Dia do Trabalhador, com a qual se previa a morte de dezenas de pessoas. O objetivo era culpar a esquerda, ou os supostos “terroristas” pelo atentado, e assim justificar o endurecimento do regime. Acontece que a bomba explodiu inadvertidamente ainda dentro do carro dos agentes do Doi-Codi, por imperícia dos mesmos, no estacionamento do Shopping, matando um deles e ferindo gravemente o outro. Diante da desmoralização e da indignação popular, o Exército instaurou um Inquérito Policial Militar, cujo resultado dizia que a explosão tinha sido obra de um terrorista, que teria jogado o artefato dentro do carro dos agentes de segurança. Era uma mentira patrocinada e louvada pela cúpula das Forças Armadas, que não podia ser desmoralizada, num dos incidentes mais vergonhosos e abomináveis da história recente do Brasil.

Pouco tempo antes, bombas já haviam explodido em bancas de revistas e até na sede da Ordem dos Advogados do Brasil, provocando a morte da Secretária da Instituição, D. Lyda Monteiro da Silva. Tais incidentes eram patrocinados pela linha dura do Exército, na época sob a batuta do General Sílvio Frota, que, desejando chegar à presidência, não aceitava a proposta de Geisel de abertura gradual do regime.

É com esse cenário como pano de fundo que emergiu recentemente uma das figuras mais tétricas e abomináveis da história do Brasil: o presidente Jair Bolsonaro. Com 28 anos de atuação no Parlamento, este capitão da reserva, expulso do Exército por insubordinação, adquiriu uma considerável experiência na arte da tergiversação, do engodo e da mentira. Nenhum político dos últimos tempos chega a seus pés. Talvez nem mesmo Trump. A supremacia de Trump é decorrente do poderio do país que ele representa, onde caberia vários Brasis. Mas ali, desde longas datas, a influência da direita e da extrema-direita sempre foi forte: o poder, historicamente, tem oscilado entre elas e os democratas de centro. Agora governa a direita mais perigosa, depois de várias administrações democratas. Já no Brasil, a extrema-direita esteve restrita aos quartéis, nunca teve guarida popular. Os 21 anos de ditadura foi rejeitado pelo povo. O fenômeno Bolsonaro, portanto, é diferente. Ele foi vencedor em uma eleição direta, com a proposta sub-reptícia de um retorno à ditadura. E teve apoio suficiente para vencer. Tal inversão de valores nos obriga a perguntar a que se deve guinada tão profunda.

Vale lembrar, desde logo, que Bolsonaro se elegeu montando uma sofisticada indústria de fake news, que disparou mensagens para milhões de pessoas. Mensagens que, por um lado, entorpeceram as mentes dos menos informados e preparados e, por outro lado, foi ao encontro dos que tinham interesse direto nas propostas econômicas neoliberalistas de governo. Isto para não falar dos ressentidos, que encontraram eco de suas queixas, fracasso e misérias no discurso de ódio e na construção de um falso inimigo a ser defenestrado. A transformação do PT em “grupo criminoso”, ajudado por uma parte da justiça que agiu como partido político a pretexto de combater a corrupção, desnorteou completamente milhares de mentes, que passaram a enxergar no candidato Bolsonaro uma promessa de redenção. Criou-se um mito, sim. E ele foi aclamado e denominado como tal por todo o Brasil. Não se pode desconsiderar o fenômeno das manifestações massivas de apoio a Bolsonaro como uma ressonância do nazismo e da recente ditadura militar.

Bolsonaro governou através da mentira nos seus quase três anos como presidente. Tudo o que faz, o que promete e o que trama nos bastidores segue literalmente a experiência hitlerista. Tem um objetivo que não esconde, mas escamoteia: implantar novo e longo regime ditatorial no país. Se ainda não fez isso é porque não teve forças suficientes. Mas continuará conspirando. Confia, sobretudo, em sua capacidade de mentir e de enganar o povo. Aprendeu com seus professores históricos que este caminho é o único que poderá garantir algum êxito para seus projetos. No momento, experimenta um recuo em suas aparições hostis, bravatas e ameaças, e busca uma aliança com o chamado “centrão”, sem o qual ninguém conseguiu até hoje governar legalmente o país. Talvez queira mesmo provar isso, para então dar o bote. Mas a mentir continua sendo a palavra chave de seu governo.

É importante atentarmos para a origem etimológica de mentira. Gabriel Périssé, autor do livro “PALAVRAS E ORIGENS – Considerações Etimológicas” com base nos estudiosos do assunto, se refere à palavra mentionica, do latim tardio do século XI, que por sua vez teria vindo do baixo latim mentire, remetendo ao latim clássico mendacium, termo ligado à palavra mens. Esta última, portanto, estaria na raiz da mentiraMens, do indo-europeu mend, significa "mente", "inteligência", "discernimento".

Existem outras referências que partem diretamente do verbo latino mentiri, com raiz também no indo-europeu mens, destacando a mente. Mentiri faz alusão à construção de uma falsa realidade a partir de saberes conhecidos, uma vez que toda deformação da verdade é uma construção da mesma. Esta referência conduz à interpretação atual que se observa no português: mentir é dizer algo sabendo que é falso.

A palavra tem vasta significação. Basta relacionarmos os seus sinônimos ou termos análogos e correlatos: fraude, farsa, inverdade, invencionice, embuste, trapaça, falsidade, lorota, balela, falácia, engodo, tergiversação, logro, exagero, patranha, omissão, escamoteação, peta e várias outras. O exame das raízes etimológicas de todas estas palavras nos levaria a significados ainda mais diversificados para mentira, estendendo-os a outros campos e considerações, como na área jurídica. Assim é que, uma testemunha que falta com a verdade num julgamento público está cometendo “perjúrio”, e pode ser processado; o que não ocorre com o autor do crime que está sendo julgado, que tem o “direito de mentir” em seu benefício. Apoiados neste entendimento é que muitos políticos se sentem inclinados a usar a mentira para galgar posições, como se pode ver em numerosos incidentes ocorridos mundo afora. A mentira também é a base da corrupção, razão por que se transformou numa arma de rara periculosidade.

O negacionismo, oriundo das casernas no pós-64, foi a primeira linha de ação adotada por Bolsonaro. Primeiro negou a história. Não houve ditadura no Brasil; não houve golpe de estado, e sim uma revolução popular; não houve tortura, e sim interrogatórios rigorosos para enquadrar terroristas; a ditadura não devolveu um país falido, mas um paraíso que estava sendo destruído pelos esquerdistas; o nazismo não foi um regime de direita, e sim de esquerda; e uma série de outras sandices delirantes destinadas a entorpecer consciências desavisadas, como o negacionismo da ciência, que viria a patrocinar, até a publicação desse artigo, mais de 153 mil mortos durante a pandemia de coronavírus: e o ridículo, para não dizer criminoso, “terraplanismo” de seu guru Olavo de Carvalho.

Em segundo lugar passou a negar os retrocessos do novo governo e tudo o que depusesse contra ele, especialmente na educação, na saúde, na cultura, no meio ambiente, na economia, no emprego, na previdência, nos direitos humanos e na segurança pública, área que seria tratada como campo de guerra. Os retrocessos se aprofundaram e ele dizendo o contrário. Tentou criar a imagem de um Brasil saído do caos, que retomava o seu caminho; sua economia passara a ser novamente robusta e voltara a crescer. O otimismo foi usado como pílula mágica, capaz de aliviar a insatisfação do povo, na miséria e no abandono. Tudo estava a melhorar, quando piorava. Quando não era possível escamotear a realidade, dizia, “esperem só mais um pouco”.

Ao lado do negacionismo, generalizou a manipulação de dados em benefício de seus planos. Se um órgão técnico afirmava determinada coisa, baseado em pesquisas e fatos, se não fosse favorável ao governo ele dizia o contrário. Caso flagrante foi o do INPE, que publicou relatórios sobre o crescimento do desmatamento na Amazônia, baseados em dados obtidos via satélite, e ele negou, apresentando dados inversos, tirados não se sabe de onde. Até exonerar o renomado cientista que o presidia foi só um passo. E mais: sob o falso argumento de que o IBAMA não passava de uma “indústria de multas”, desmontou o organismo protetor de nosso meio ambiente e abriu caminho para todo o tipo de agressão à natureza, encorajando queimadas, expansão agrícola descontrolada, invasão de terras, garimpos ilegais e desmatamentos. Tornou-se um feroz predador, dando o comando da área ambiental ao seu obediente ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, mancomunado com os grandes interesses do latifúndio.

Quando se tratava de manipulação da mentira sua criatividade ia longe. Assim é que combinou o negacionismo e a invencionice com o desrespeito contumaz a seus desafetos e à imprensa, despejando de sua cloaca abusiva todo o tipo de impropérios contra personalidades, entidades e jornalistas que o criticavam ou incomodavam. Adotou técnica apurada para asseclar mentiras contra cidadãos honestos, com o objetivo de manter acesa a chama do ódio em seus fanáticos seguidores.

Esse processo culminou com o discurso virtual feito na Assembleia Geral da ONU, em setembro passado. Foi um ato tão vergonhoso como nunca se tinha visto em outro momento da história de nosso país. Só faltou declarar, em alto e bom som: “Eu sou um mentiroso contumaz! Assim é que eu governo o Brasil!” Mas nem precisou. O mundo compreendeu plenamente a sua abjeção.

De fato, Bolsonaro mentiu compulsivamente sobre todas as áreas de atuação do governo. Mentiu usando quase todas as derivações possíveis da mentira, que são inumeráveis. Mentiu tanto que os órgãos de imprensa do país, em uníssono, o acusaram de mentiroso e a ABI soltou contundente nota de protesto denunciando suas lorotas, a tentativa de engambelar a opinião pública e a transformação do país num pária internacional.

De um modo geral, Bolsonaro faltou com a verdade ao afirmar que o país vai bem, quando de fato está à beira do abismo, correndo enorme risco de um recessão severa e de um retrocesso político e social; e que é um modelo para o mundo em diversas áreas, como “na conservação de florestas”, quando, na verdade, é responsável direto pela intensificação das queimadas e do desmatamento, a pretexto de incentivar a economia e o empreendedorismo;

Cometeu fraude ao dizer que o governo forneceu “auxílio emergencial aproximado” de “1000 dólares para 65 milhões de pessoas”, quando se sabe que o auxílio foi determinado pelo Congresso e não pelo governo, que só queria conceder 200 reais por necessitado; mesmo assim, o valor não alcançou sequer 500 dólares por cada beneficiado;

Cometeu exagero ao afirmar que o governo federal destinou US$100 bilhões para ações na saúde e socorro a pequenas e médias empresas, quando se sabe que a verba foi muito menor e que apenas pouco mais de 20% dos recursos tinha sido aplicado até a época conforme denúncia da imprensa; e também ao dizer que destinou “US$400 milhões para pesquisa, desenvolvimento e produção da vacina da Oxford no Brasil”, quando é público e notório seu desprezo à área científica e de pesquisa, preferindo investir numa medicação de eficácia não comprovada, como a hidroxicloroquina; e que assistiu a mais de “200 mil famílias indígenas, com produtos alimentícios e prevenção à Covid”, quando, na verdade, entidades ligadas aos indígenas precisaram até entrar na justiça para obterem cobertura legal e constitucional no atendimento de suas necessidades mínimas;

Propalou uma falácia, com consequências altamente nocivas à saúde pública, ao afirmar que o lema “Fique em casa” utilizado por amplos setores da população faz parte de um plano de politização do vírus, com vista a instituir o caos no país, quando se trata de uma prédica da OMS, adotada em todo o mundo civilizado;

Levou a cabo uma flagrante tergiversação, ao acusar países estrangeiros e “associações aproveitadoras e impatrióticas” brasileiras pelas denúncias sobre o desmatamento e as queimadas na Amazônia e no Pantanal como parte de uma “brutal campanha de desinformação” visando prejudicar o Brasil e favorecer a cobiça internacional sobre a Amazônia;

Praticou o mais leviano logro, em benefício de sua imagem, ao acusar os governadores dos estados brasileiros de serem responsáveis pela morte de mais de150 mil brasileiros e quase 3 milhões de infectados pela Covid-19, quando se sabe que foi ele que incentivou o desrespeito às normas de segurança no combate à pandemia, a começar por negar sua importância e sua periculosidade, denominando-a de “gripezinha” e pregando contra o confinamento;

Também montou uma farsa ao afirmar que “o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sobrevivência”, insinuando que são eles os responsáveis pelas grandes queimadas, particularmente na Amazônia e no Pantanal, quando se sabe que essas queimadas são decorrentes das ações de expansão das fronteiras agrícolas pelos grandes latifundiários e invasores de terras, além do desmatamento, por ele incentivadas; e também ao afirmar que as florestas brasileiras não pegam fogo porque são húmidas, quando a realidade está a demonstrar o contrário todos os dias.

Propalou, enfim, um engodo, ao prometer para o Brasil tempos de paz, prosperidade e convivência democrática, já que é reconhecidamente fascista. E cometeu perjúrio, porque a um chefe de Estado não é dado o direito de mentir desbragadamente, ainda mais perante as nações do mundo inteiro, em nome do povo que representa.

Como esse pária mundial ainda não foi arreado do poder? O que falta para isso? É a pergunta que, indignados, continuamos a fazer; e sabemos que a resposta está numa frase terrível: “A mentira é poderosa! Quem dela se acerca fica protegido. Pelo menos até causar uma tragédia, estará de pé.”

Bolsonaro tem sido tachado das mais terríveis pechas, que lamentavelmente não o envergonham: facínora, energúmeno, hipócrita, mentiroso, embusteiro, farsante e até de mentecapto. Dessa última, no entanto, havemos que discordar. Retomando a etimologia da palavra mentira, com seu prefixo no indo-europeu “mens” ou “mend” (mente, inteligência), chegamos à conclusão de que a mentira é um atributo das pessoas inteligentes. Um mentecapto não mente, pois não saberia como fazê-lo. Um mentiroso contumaz e ardiloso não pode ser chamado de mentecapto. É apenas um mentiroso. É o que ele é: o maior mentiroso do Brasil, em todos os tempos. E ele sabe perfeitamente disso, pois mente conscientemente.

Para encerrar este artigo, vale lembrar do belo poema de Affonso Romano de Sant’Anna, “A implosão da mentira”, que resume e concentra, numa dimensão muito mais forte - porque poética - tudo o que analisamos e dissemos:
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem sobretudo impune/mente,
Não mentem tristes. Alegremente mentem.
Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases falam.
E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver a verdade
em trapos pelas ruas.
(…)

 

Paulo Martins - Lisboa, 21 de outubro de 2020

 

 

Nascido em Ipiaú, na Bahia, Paulo Martins passou quase que a vida inteira viajando: tendo morado em Jequié, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Pequim, Paris, Salvador, Porto Seguro e outras cidades. Reside atualmente em Lisboa, Portugal, onde se dedica a escrever e a desbravar novos países, além dos mais de 30 que já conhece. É poeta, letrista de canção popular, romancista, cronista e ensaísta, autor dos romances Glória Partida ao Meio (7 Letras 2010); Adeus, Fernando Pessoa (7 Letras, 2014); História de Roque Bragantim – Olhares do Campo (Cultura Editorial, 2017); e do ensaio biográfico Jacques Brel – A Magia da Canção Popular (7 Letras, 1998), entre outras publicações. Divide-se, desde a adolescência, entre as duas maiores paixões de sua vida: a política e a literatura.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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