ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Marcus Groza


Poemas    

Preces ao mau tempo

 

de tudo que dá na terra
honrar respeitar bem-dizer

de tudo que dá na terra
nosso futuro ao breu consagrado

ave o seu ventre mãe de deus e nossa
decepamos a destra o cetro

não menos o nascimento e a luz
ofusclarão de placenta oca

de tudo que dá na terra
nos ensinam a confundir obediência e amor

de tudo que dá na terra
repetem que é dor o que educa

e fazem lentamente a pele crescer
sobre os espartilhos da doutrina

de tudo que dá na terra
nos acinzentaram a imaginação para as cores do desobedecer

desobediência de rato e desobediência de leão
desobediência de água-viva e desobediência de mosca

ainda são bípedes
os que vivem de joelhos?

 

 


 

 

 

Se fosse um bicho?

 

acho que um enxame
de vespas e botocudas
olhos vermelhos
entre os espinhos
da laranjeira
sentiria o teu cheiro
de azeite que arde
a frio pousaria
talvez muco
ou mesmo sem
a boca seca
a gente improvisa 
e só por vício de tráfego
sentaria também
na testa de um velho
que brinca de esconde-
esconde com tumores
que brotam
de soterrados banquetes
e ali depositaria
cerimonialmente
ovas de demolição
e porvir
e sem atacar
correria ainda
tanto em volta
de outras coisas
até derrubá-las
de tontura


 

 

 

 

 

Contradança


dançar nu em casas vazias
primeiro sozinho
depois tirar os ossos para dançar
ocupar toda a casa
emular com ombros pelves omoplatas
as primeiras mobílias
os futuros apoios
em que você vai se sentar
e descobre um menino rindo
escondido num canto

será esse o dia em que você
– ou eu – talvez veja de relance
primeiros os escombros depois as ruínas
a umidade da futura ruína que a casa é
vai nos fazer suar e quem sabe
então nos perguntaremos
se saúde não é deixar o mel evaporar
destelhar a casa
esperar que chova uma poção curativa
para amenizar o coração dos homens

 

 

 

 

 


Para Iza de Nina (in memoriam)

 

hoje no meio da multidão me faltou
ar me percebi como um peixe esmagado

de surpresa pela mesma água de sempre
que por tanto tempo já não esmagava

há urgências impregnadas na nossa
pele mesmo quando dançamos bêbados

observa que é como se algo sempre
à altura do terceiro olho desabasse?

na volta você pede ao uber que pare:
em qualquer lugar debaixo duma árvore

já estou melhor o ar fresco empurra
a angústia para um canto escuro do abdômen

admiro sua desenvoltura quando se abaixa
e despeja o jorro: primeiro a cerveja agora

o daiquiri ao fim as doses extras de rum
você narra como se declamasse uma elegia

antiga um canto mineral lhe escorre pelas
pernas restituindo algum ardor ao mundo

 


 

 

 

 

Sossego Abutre

 

não me insulta o teu açúcar
o teu sol já não me insulta

não me insulta o teu silêncio
o carinho mal feito o gosto
de caqui verde a tua sarna

não me insultam as filas
a burocracia a luz no fim
do túnel já não me insulta

não me insultam os queloides
as câimbras a existência dos Estados
Unidos já não me insulta

(às vezes acontece que mesmo
o Cristianismo já não me insulta)

o mais são calos sensíveis: sangro

 

 

>Marcus Groza é escritor, dramaturgo e pesquisador. Autor dos livros “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019) “Uma pedra em cima disso” (no prelo), entre outros. Autor das dramaturgias “Não Urine no Chão”, “Tambor de Couro Vivo”, etc. Em 2018, o seu ensaio “Para uma poética do esquecimento” foi traduzido para o espanhol e publicado em Olvidar — Brumaria Works #9, coletânea impressa publicada em Madrid.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Novembro de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Anaximandro Amorim, André Giusti, Angela Maria Zanirato Salomão, Antônio Torres, Autor Vários autores ; Carvalho Júnior, org., Beatriz Aquino, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Djami Sezostre ; Antônio Cunha, Edmira Cariango Manuel, Elisa Scarpa, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Fernando Ferro Brandão, Francisco Marcelino, Ganhanguane Masseve, Geraldo Lima, Henrique Dória, Hermínio Prates, Job Sipitali, Leila Míccolis, Marcus Groza, Marinho Lopes, Mário Baggio, Myrian Naves, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Nilma Lacerda, Paula Winkler ; Rolando Revagliatti, entrevista, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Sônia Peçanha, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

WALTER MOLINO, 'Cartoon publicado no jornal Domenica del Corriere', 16 de Dezembro de 1962.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR