ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Job Sipitali


A dimensão mitológica, humorística e a metamorfose cultural em Arlindo Barbeiros    

O escritor angolano, já renomado, Arlindo Barbeitos, na sua obra «Angola Angolê Angolema», traz-nos um substrato da literatura oral angolana, assumindo o acto antropológico do passado e do presente. Nela apura a sabedoria dos antepassados e sua importância nos tempos actuais, revelando que a defesa sobre a vida humana não é um caso novo para o bantu. Pois, o africano, por meio dos provérbios, dos contos, das canções, das adivinhas, etc. já instruía, ensinava e educava os jovens, revelando-os modus vivendi ou a filosofia do passado. Nos é evidenciado esse argumento, por meio mitológico, no seguinte poema, onde o sujeito lírico demonstra o como os mais velhos se preveniam e preveniam os outros de certos problemas:

ilum
ilum bum bum bum
cobra grande dos antepassados

com cara de gente
comeu pé comeu perna

Ilum
ilum bum bum bum
comeu ventre comeu peito

Ilum
ilum bum bum bum
comeu cara comeu cabeça

Ilum
ilum bum bum bum
comeu soba comeu mologe (feiticeiro) […].

Denota-se uma poesia realista e mitológica que se prende com o existencialismo. O mito descrito, portanto, referencia uma acção pedagógica caracterizada pela filosofia da ancianidade sobre a literatura nocturna, contendo nela a prevenção do ser humano e dos problemas da humanidade. A expressão ‘’ilum bum’’, na nossa percepção, não se refere ao acto onomatopaico (imitação de um som animado ou inanimado) mas sim a um ‘’ideofone adjectival’’1 da língua Umbundu, denotando «escuro ou céu escuro». Nela está subentendida a imagem visual da palavra noite. A ideia conotativa desse ’ideofone adjectival’’ é de que, na filosofia africana, não se pode andar de noite, porque nela há maus espíritos.
        
A dimensão comparativa, para o africano, já era feita por meio da ‘’maiêutica’’, onde a criança já lhe era induzida a pensar por si ou no seu poder e tirar sua conclusão sobre aquilo que lhe era transmitida em função das outras entidades poderosas: ‘’comeu soba comeu mologe (feiticeiro)‘‘. Pois, quem não acatasse esses ensinamentos de prudência e prevenção tornar-se-ia um ‘’dédalo efémero/ que os quissondes iam devorando’’ eternamente.              

O mundo sonhado por Barbeitos, para a preservação da filosofia bantu, foi abaixo por razões sobejamente conhecidas como a globalização, a colonização, a tecnologia etc. Parece que o autor já previa tais mutações. Isso concretiza-se nos lexemas derivacionais: «Angolê» «Angolema». Esses marcam uma metamorfose radical, quase, institucionalizada pela sociedade actual em oposição à ciência dos antepassados. Daí a razão do autor ter intitulado sua obra de «Angola Angolê Angolema». Os dois últimos lexemas apresentam-nos um plano fónico fechado associados a um estado de tristeza, de mágoa, principalmente, a palavra ‘’Angolê’’. E a outra é a sua concretização (o lema angolano). É daí que se verifica o nascimento de uma sociedade que ‘’ocupar-se da literatura oral das tradições africanas [cheiraria] a passado e seria falar de algo bastante ultrapassado, sem prestígio nem valor’’2

Assim, o pensamento contemporâneo acabou por subalternizar, quase, tudo e todos até as vozes mais poderosas do passado.

lagoa escura de olhos de ouro
(noite que com suas estrelas
na água se afogou)
é silêncio molhado
de gerações antigas […]             


 O homem do passado, carregado de tanta filosofia, o seu saber foi desvalorizado. Surgiu, assim, uma sociedade homogénea sem carácter ontológico, sem valores tradicionais, sem mitos, sem filosofia assente na dimensão humana.

árvore sem sombra
mulher sem sexo

vento sem poeira

cão sem rabo

Ficou, portanto, o dito da não contribuição para o bem da humanidade. O homem contemporâneo tornou-se estéril, perdeu o carácter ontológico e axiológico. Os mais velhos deixaram de se assumir como grandes filósofos da humanidade: ‘’árvores sem sombra’’; o corpo humano, que era templo de Deus, tornou-se um plural insignificante: ‘mulher sem sexo’’, enfim, é, sim, uma babel incorrigível.                                           

Portanto, a poesia de Barbeitos apresenta um tema comum: a metamorfose humana. Os textos abordados sobre esse assunto giram em torno desse eixo, desenvolvendo uma crítica que visa, sobretudo, identificar a decadência humana, o nascimento da alienação, a perda do código moral e a fuga à identidade africana. E o sujeito poético, timidamente, defende a reposição do passado como único caminho para se ‘’contrapor ao então vigente’’. Para tal repousa aqui sua memória infinita do que era o passado:

houve um tempo 
em que pássaros azuis 
se demorando nas hastes de árvores antigas 
e mães aleitando seus meninos em sossego 
nos faziam crer 
que o temor de séculos era uma lenda […].

Notas:

1 Bonifácio Tchimboto & Pedro Putu. Ideofones da Língua Umbundu. In  Facta Lux: Revista de Pesquisa Interdisciplinar, Seminário Maior do Bom Pastor – Benguela; Ano 1, 2017.

2 Bonifácio Tchimboto & Eusébio S.C. Tchamawe. Ética e Pedagogia na literatura oral africana: Estudo Etnolinguístico do Umbundu. Benguela – Angola: Facta Lux, 2019.

 

 

Job Sipitali nasceu em Benguela – Angola, é licenciado em Ensino da Língua Portuguesa pelo ISCED (Instituto Superior de Ciências da Educação) - Benguela. Além de professor, é poeta, ensaísta, contista e crítico literário. É autor do livro «Raízes Cantam» publicado em Portugal (Perfil Criativo), em 2017; Angola (Alende – Edições), em 2019.
Vencedor  do Prémio Literário  Jovens da Banda, edição   2017, com a obra «Raízes Cantam». Tem ensaios críticos publicados na Revista Digital Palavra & Artes. É membro do Movimento Litteragris.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Novembro de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Anaximandro Amorim, André Giusti, Angela Maria Zanirato Salomão, Antônio Torres, Autor Vários autores ; Carvalho Júnior, org., Beatriz Aquino, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Djami Sezostre ; Antônio Cunha, Edmira Cariango Manuel, Elisa Scarpa, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Fernando Ferro Brandão, Francisco Marcelino, Ganhanguane Masseve, Geraldo Lima, Henrique Dória, Hermínio Prates, Job Sipitali, Leila Míccolis, Marcus Groza, Marinho Lopes, Mário Baggio, Myrian Naves, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Nilma Lacerda, Paula Winkler ; Rolando Revagliatti, entrevista, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Sônia Peçanha, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

WALTER MOLINO, 'Cartoon publicado no jornal Domenica del Corriere', 16 de Dezembro de 1962.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR