ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


A temida visita do Inspetor    

- O inspetor vem aí!

         De vez em quando, durante o semestre letivo, a professora – que na época não era chamada de “tia” – com o aviso provocava um calafrio no alunato indócil. Dizia que o inspetor, vindo da capital, iria arguir alguns alunos de cada sala e ai daquele que não soubesse responder às perguntas.

Seria reprovação na certa, com todos os deméritos do gongado pelo azar da escolha e ignorância do saber. Até os mais rebeldes se preocupavam com a ameaça.

Já pensou? Diante de todas as classes reunidas, a diretora, as professoras; aí o homem sisudo bate o olho em um entre tantos e o infeliz, trêmulo, inicia gaguejado na humílima aflição de não saber a resposta? Ou mesmo que saiba, o nervosismo apagando da memória o que aprendeu.

Sempre imaginei que o inspetor seria um homem carrancudo, de bigode grande, paletó e gravata, talvez marrom, que é a cor mais feia que há. E, por nunca ter sido dos melhores em comportamento, certamente seria um dos apontados para o patíbulo da inquisição. Se escolhido e o tema das perguntas fosse Língua Pátria ou História ainda poderia me safar, mas se a Matemática entrasse na roda eu giraria sem rumo.
 
Mas como felizmente nunca vi tão soturna figura, desconfio hoje que a anunciada vinda do inspetor era estratégia da mestra para nos forçar o aprendizado. Terá sido?

Ou quem sabe ela lera a peça teatral “O inspetor geral”, escrita em 1836 por Nikolai Gogol (1809-1852)? Nela se contam as peripécias de um farsante que se apresenta em uma aldeia como sendo um enviado da corte e com isso almeja as benesses das autoridades corruptas locais.
 
Pura hilaridade, ainda aplicável aos tempos atuais porque desonestos proliferam mais do que erva daninha. Pois se até mestrados, doutorados e pós-doutorados se inventam, por quê não outras quimeras?

         A reminiscência surgiu quando me perguntaram como escrever um conto, por exemplo. Citei, talvez por falsa erudição, o que disse Pablo Neruda sobre a mesma dúvida:
 - Escrever é fácil. Você começa com letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias.

Quando criança, inconscientemente, reescrevia enredos de filmes, acrescentava atos, falas e finais diferentes. Às vezes, antes de dormir, enquanto tocaiava o sono, exercitava a mente com fantasias, geralmente absurdas.

Durante as aulas de Língua Pátria – Português, no dizer atual – quando a professora mandava fazer uma composição (redação), sempre era o primeiro a encher uma, duas, às vezes mais folhas de caderno, aqueles de folhas amareladas, com a estampa de Getúlio Vargas na capa e a letra do Hino Nacional na contracapa.

 Ela escrevia no quadro o tema e que cada aluno o desenvolvesse. Aí a criatividade saía dando pinotes, fazendo curvas, devaneando nas peripécias de cada período. A boa nota, quase sempre a máxima, era a rotina, o mesmo não acontecendo quando o exercício se baseava em números.

Ainda guri, consegui o primeiro ganho: no primeiro dia de aula após as férias, a professora pediu que os alunos escrevessem sobre o que tinham feito na folga e entregassem o trabalho no dia seguinte. Um coleguinha me pediu ajuda, prometendo me dar dez bolinhas de gude.

Contei que ele viajara de trem para a casa dos tios, brincara o tempo todo com os primos, passeara a cavalo, de bicicleta, jogara futebol, essas e outras invencionices. Afinal, o garoto não folgara; nas férias continuou na labuta de ajudar o pai nos cuidados do roçado.

Somar frações, calcular o máximo ou o mínimo divisor comum, entender equações, isso era terreno estranho para o garoto bom com as letras, mas não sofredor de discalculia, que é a deficiência de aprendizagem específica com números.

Até que o raciocínio permitia avanços, mas sempre houve uma inexplicável resistência ao que já estava decidido pelos matemáticos, sem uma mínima janela para o livre pensar.

  E como uma nesga de lembrança puxa outra, garimpei entre os neurônios fato acontecido na adolescência, já vivente na capital. Considerado uma negação com os números, fui matriculado em aulas de reforço. Em outras matérias, tudo bem, mas em Matemática...

 Um dia a professora – uma fera, bruxa sem vassoura, mas com uma régua que mais parecia um tacape em forma de raquete – perguntou qual o resultado de 9 X 7. Bastava racionar e responder, mas não houve tempo.

A mal amada (é o que diziam, por ter sido abandonada pelo marido, que a trocou pela mulatinha que entrou na casa como serviçal e dela saiu como senhora dos agrados do patrão) entregou o instrumento de tortura para um dos alunos, o mais alto e mais forte, que após responder à pergunta, ganhou o direito de punir o inciente aprendiz com meia dúzia de “bolos”, três em cada mão.

Voltei às aulas? Não houve argumentos que me convencessem. A megera perdeu um dos 12 alunos e minguaram os ganhos que a sustentavam após a fuga do marido sedutor e seduzido.

Punir alunos fisicamente era rotina até meados do século passado, mas dizem que o novo ministro da Educação, prenhe de conservadorismo, recomenda o uso da palmatória para enfiar “ensinamentos” nas cabeças infantis. E mais: por ser elitista, assegura que apenas 2% dos alunos, por garantia dos genes, merecem atenção especial.

Esse pastor é filho da bíblia ou acredita na exclusão social através do arianismo?

Como é mesmo o nome dele? Não sei e talvez ele não permaneça no cargo tempo suficiente para ser lembrado.

Se hoje não há reprovação, naquela época o torniquete dos exames – escritos e orais, é bom que se destaque – não dava boa vida a ninguém. Ganhei alguns 10, mas geralmente não ia além de seis ou sete. Só não me perguntem como. Parece que as orações da minha santa mãezinha surtiam efeito.

 Não, não era fácil ser aprovado. Moleque podia até aprontar, mas sem desgrudar dos cadernos, onde copiávamos as matérias que enchiam o quadro negro.

Não havia livros, apenas uma tabuada esfarrapada, cujas tabelas não conseguia decorar. Sempre me complicava no 9 x 7 ou no 8 x 9, embora distinguisse com ligeireza um sinônimo adequado ou onde cabia um ç ou dois esses.

A cidade, perdida no vale do abandono, com pouco mais de cinco mil almas, não recebia a atenção dos governantes da capital e nem dispunha de arrecadação suficiente para construir escolas. Só havia um grupo escolar, nenhuma biblioteca e professoras mal remuneradas.

A oposição garantia que o governo liberava verbas, mas o dinheiro ou se perdia na buraqueira das estradas de terra ou, se chegavam à cidade, submergia no lamaçal dos desvios.

Era o que diziam, mas o menino, fraco em Matemática, não sabia fazer as contas da corrupção.

 

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda - Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

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