ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Entrevista com a escritora Thelma Lopes    

 

1-) Suas crônicas são dosadas pela informação trabalhada, mas com uma certa tessitura na linguagem utilizando um lirismo que não fica só na forma. Há dentro dos contextos escritos por você uma carpintaria para cada tema, de cada assunto, onde o singular é sempre polissêmico com múltiplos sentidos. Uma pintura do diálogo onde cores, matizes, convivem com olhares, enfoques, vieses. Fale um pouco desta questão, se você percebe isso no livro.

Thelma  Lopes - Sim, percebo. E acho que você encontrou uma linda forma de falar sobre o espírito do livro, que é apresentar múltiplos olhares tentando estabelecer conexões entre campos aparentemente distantes entre si. É frustrante e irônico que no momento em que a humanidade dispõe de tanta tecnologia voltada à comunicação, e as distâncias geográficas foram encurtadas, não consigamos dialogar e estejamos nos afastando uns dos outros. O que se perdeu? Onde estamos errando? Por que um fosso se abriu? A resposta é complexa. E não é definitiva. Está nas sutilezas, nuances, matizes, entrelaçamentos, entrelinhas e infinitos tons... Daí a importância de aproximar universos e simbologias, por mais longínquas que possam parecer à primeira mirada. 

2-)  Percebi um efeito de dança no seus textos, um movimento entre pares que argumentam-se em ritmo não excludente. Pegando um pouco a ideia do diálogo na primeira pergunta, uma conversa pode ser uma interlocução tanto num bar quanto num palco de teatro. Ela requer voz, tempo, espera, escuta, empatia. Mas a crônica no decorrer do tempo foi associada há uma certa "solidão lírica" do eu prosador. Era ele e sua paisagem. Nas suas crônicas, a observação, ela nunca é sozinha. Como foi este salto?

Thelma Lopes - Não vejo como um salto planejado, é que não saberia fazer diferente...   Apesar de explorar referências conceituais embasadas em estudos e teorias, minha escrita é, também, muita intuitiva e emotiva. Está relacionada ao meu jeito de aprender e ler o mundo. O que prende minha atenção, é o que, antes de tudo, me emociona. Então, tudo se mistura e minhas observações são imiscuídas e perpassadas por aspectos de  naturezas diversas.

3-) Você tem um talento para contextualizar seus exemplos dentro de uma linha de raciocínio. Eles encaixam dentro do texto de forma muito harmônica. Como é essa lapidação dos temas, como dos artistas tanto na literatura com na pintura?
 
Thelma Lopes - A Literatura e as Artes de modo geral me afetam. Amo pintura e alguns pintores especificamente me arrebatam, seja pelas obras, personalidade ou trajetória de vida.  Me emociona a dor de Munch, me alegram os amantes alados de Chagall, e a força extraordinária de Van Gogh me toca apaixonadamente. Digo isso para explicar que assim sendo, sei que mergulho nesse universo com muita paixão, e que, se eu quiser me fazer legível, devo procurar algum equilíbrio harmonioso entre o que sinto e o que desejo expressar.  Talvez essa harmonia que você menciona venha da consciência de que uma parte de mim é puro caos.

4-)  Como é seu método de iniciar uma crônica? Um tema vem primeiro, uma linha melódica sobre o andamento do texto? Como dosa forma e conteúdo?

Thelma Lopes - Identifico um percurso mais ou menos recorrente. Acho que tudo começa com "mini epifanias", não no sentido religioso, mas naquela acepção de apreender inesperadamente, de captar algo no ar que me comova e me faça querer ver além. Pode ser uma frase, uma imagem, uma trilha sonora, um filme. As vezes, uma palavra basta para despertar o meu desejo de estabelecer conexões. A partir daí eu começo a buscar, compulsivamente, informações , e memórias, que preencham de sentido aquilo que me comoveu ao início. E daí muitos caminhos se abrem e escolho aqueles que me parecem, ao mesmo tempo, mais belos e profundos. Normalmente escrevo os parágrafos fora de ordem. Muitas vezes começo pelo final, e dali, de onde quero chegar, vou tecendo significados.  Nem sempre consigo equacionar equilibradamente forma e conteúdo, mas tendo a priorizar o que me lança ao surpreendente.

5-)  O que você faz no seu livro  é diametralmente oposto ao que acontece nas redes sociais. Em época de fake news, polarizações, segregação, e gabinetes do ódio. Teu livro democratiza a arte de ouvir. A pausa, a não velocidade dos bytes. Você pensa no seu livro perante a este meio com tanto excesso de ruídos? 

Thelma Lopes - Sua pergunta soa como bálsamo, porque tenho mesmo a intenção de falar em ritmo oposto às radicalidades que só nos apequenam. Somos tanta coisa ao mesmo tempo. O mundo é tão rico e plural, por que criar limites que nos aprisionam e agridem o outro? No cenário atual, há expressões que são proferidas em defesa de supostos bons valores, mas que são como lanças que ferem violentamente. Não existe, por exemplo, "pessoa de bem". O que existe é a bondade.  E é exercida por pessoas imperfeitas, mas que seguem atentas em cultivar o seu melhor e inspirar o outro. Não podemos defender uma "tradicional família brasileira", pois isto significa alijar outros núcleos gregários  legítimos e plenos de amor. E o ódio? Onde espuma o ódio,  a bondade resseca. Precisamos ser tolerantes, compreender e valorizar diferenças, reconhecer privilégios, ser antirracistas  e compreender que ao alimentar preconceitos, desperdiçamos a capacidade de pensar,  sentir e nos colocar no lugar do semelhante. Então, em meio a tantos ruídos, é preciso desacelerar, olhar com calma, relativizar, criar pontes. Assim, as chances de enxergar um mundo melhor, se alargam.

 

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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Paginação:

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