ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Carlos Eduardo Matos


Shoshana 3    

Mencionei, no fim do capítulo anterior, que os deuses high-tech do amor e da memória provavelmente curtiam minha história com Shoshana e decretaram que nosso envolvimento marienbadesco não estava terminado. O que conduziu ao terceiro encontro – obra aberta, em construção. Valeu, moçada.

Algumas dessas divindades, as primordiais, permanecem obscuras, mas as high tech têm nomes bem conhecidos: Facebook, Whatsapp, e-mail. Graças a elas, procedimentos de edição que nos relatos anteriores eram matéria de memória tornaram-se práticas de edição tout court: copiar, colar, cortar, eliminar repetições, simplificar, simplificar, simplificar. Ainda assim, o texto ficou maior que os relatos anteriores, havia porradas de mensagens e áudios a examinar. Acontece.

Tudo começou quando, em agosto de 2019, após muitos anos de resistência (até janeiro desse ano nem celular eu tinha!), aderi ao Facebook. Parti à caça de velhos amigos e velhos amores e, claro, alguns tinham morrido ou sumido. Vai ver simplesmente não tinham Fb.

Cacei meu amor francês, Marie Thérèse J. Pinto de Almeida, que não tinha entrado na história, e nada. (Ingratidão minha, Maritê merece um relato, mas não este, não agora.) Stalkeei em seguida meu amor portenho, e bingo!

Primeiro, tateei o terreno:
Shoshana? De Buenos Aires e Niterói? É você?

Sim, Carlos Eduardo Matos (somente o Fb e Shoshana me chamam pelo nome completo. Para o resto da humanidade, basta o codinome, Cadu).

Aí sugeri sair do Facebook e partir pro Whatsapp e e-mail. Trocamos números de celular, de e-mail, e fomos em frente. Sondei mais fundo.

Não sei onde você está, se está casada mas/ou pecando adoidado. De minha parte, estou solteiro em São Paulo.

Aí eu soube que ela estava solteira, morando em Buenos Aires e simplesmente não estava pecando. E o papo via teclagem rolou natural, como se nos tivéssemos visto na véspera. 

Em nossa primeira conversa pelo telefone, salientei que nosso reencontro havia dado liga. E que eu estava emocionado. Citei Drummond: Eu não devia te dizer, mas esta lua, mas este conhaque, botam a gente comovido como o diabo. Ela riu e mencionou outro acessório: os sabonetes de eucalipto que comprávamos em Friburgo e com que nos ensaboávamos sem a menor pressa. Um primeiro detalhe erótico, lembrado por ela. A coisa prometia.
 
Mas ainda era conveniente eu não soltar a franga, guardar um certo distanciamento. Solicitei então dicas para atualizar meu lado tanguero, ela me sugeriu Soledad Villamil e Señora, ellas cantan Serrat – que não tem nada a ver com tango, mas é muito bonito.

Sempre falávamos de música, de nós dois, no presente e no passado, da dimensão mágica desse reencontro high tech e trocávamos beijinhos teclados. Uma delícia! 

Além de trocar beijinhos, o pavão queria mostrar a linda cauda – e, no meu caso, isso passava pela esfera intelectual. Observei: 
Me deu tesão de escrever, estou falsificando memórias sobre Évora, no Alentejo, onde dei aula. Depois mando. Acho que isso é resultado de flertar com você, é delicioso. Vos mandé besos hoy?

Absolutamente, pero certificando que no és con cualquiera, me admira que yo lo esté haciendo pero és realmente delicioso. Y ahora van dos besos más! Así está bien?

Muchisimo bien. Y adios, o no escribo mi texto de Évora.

Escrevi dois relatos sobre minha experiência em Évora. Mandei-lhe por e-mail e coloquei no Facebook. Mas ainda era pouco, e no dia 4 de setembro enviei outro e-mail.

Não se julgue obrigada a me escrever. Mensagens de voz e telefonemas, no seu caso, dão o recado. No meu não, é por isso que escrevo.

Primeiro, que telefonema! As coisas que foram ditas! Confessei algo que pra mim era notório, que você foi o primeiro amor da minha vida. Confesso mais uma, que periga ser o último... E vc, falando que se sentia adolescer. Cuidado com as espinhas, moça. Outra revelação minha que, essa sim, me surpreendeu: fazem 4 dias que estou feliz como há muito tempo não estava. E há 3 dias sinto a criatividade a mil, por sua intervenção. Olha, é meio absurdo eu me envolver, como um carinha de 20 anos cheio de hormônios, com uma mulher que não vejo há 28 anos e que mora em outro país. Mas, aparentemente, é o que está acontecendo. Então proponho três coisas. Uma delas já foi dita no Facebook, que a gente, que está na terceira, engate a quarta e pau na máquina (eu falei na máquina). A segunda foi dita no telefone: que a gente se encontre quando você vier ao Rio, há no mínimo lacunas biográficas a preencher, e talvez mais coisas a serem preenchidas. E a terceira é que continuemos com essa geringonça – é o termo que os portugueses usam para o atual governo de esquerda, que tinha tudo para dar errado mas até agora deu certo. 

Seu, geringonçadamente, Cadu

Ela respondeu no mesmo dia:
 
Me pone feliz este vuelco y todo este tezón (de vida), me emociona. Si reencontrarnos te provoca um revirao, és lo más lindo que escucho en mucho tiempo.

No sé que decirte ahora, todo es muy fuerte, mozo.

Comprei pomada para as espinhas.

Besos
 

Escrevi de imediato: 
Li teu e-mail, vamos parar com isso que a shitstorm is abrewing. Después de todo que vino en castellano, comprei pomada para as espinhas é um saudável banho de água fria, um fio pra nos amarrar na terra. Besos besos besos.

Ela não gostou nem um pouco da referência à shitstorm, à pomada e ao banho de água fria: 
 
A pomada foi um jeito de fazer frente, eu, ao tsunami de emoções que estou sentindo e à surpresa do frio na boca do estômago, uma coisa que não sei descrever no peito, depois de tantos anos sem ter o menor interesse  em alguém é um "sem palavras"...

Pelo jeito sou melhor falando.

Não retire nem uma letra de tudo o que você me deu hoje, seria jogar fora o que disse não ia deixar passar.
 

Só percebi depois, relendo o que havia escrito, que ela achou que eu estava considerando a hipótese de frear nosso relacionamento, amarrá-lo a alguma coisa sólida, pesada. Eu pretendia apenas dizer que, se nosso namoro on-line prosseguisse destrambelhado, no crescendo em que estava, eu corria um sério risco de pegar o primeiro avião com destino a Buenos Aires para tê-la em meus braços. Ou então ela faria isso, vindo para São Paulo. Ambos temos trabalho, filhos e netos em nossos respectivos países, de modo que a coisa seria uma loucura. Mas havia um perigo real de cometermos essa loucura.      

Assegurei que não recuaria um milímetro de tudo o que fora dito, não apagaria uma letra de tudo o que fora escrito. Tentei transmitir a explicação acima, porém ela continuou ressabiada. 

A verdade é que precisávamos de um reencontro em carne e osso, para ver qual era, se as panteras haviam conseguido detonar tudo ou se havia sobrado alguma coisa boa, doável, enriquecedora e prazerosa – em primeiro lugar para cada um de nós, e depois para o parceiro. Caso esse reencontro não ocorresse logo, as teclagens e áudios continuariam a se multiplicar descontroladamente, até se tornarem uma bola de neve que nos envolveria – e me enviaria, sem lenço nem documento ou perspectiva de trabalho, a Buenos Aires. Quanto a Shoshana, que há décadas fazia a ponte Rio/Niterói – Buenos Aires, nem gosto de pensar no que poderia acontecer.

No dia seguinte, parafraseando Saddam Hussein, mandei pra Shoshana a mãe de todos os e-mails.

Falei que estava escrevendo somente pra você. Frase sedutora, não? Mas aí, relendo os Évoras, percebi que era a pura verdade.  Escrevi sobre Lisboa: “Cheguei, vi e me perdi, mergulhei de cabeça na festa móvel que era Lisboa dos comícios e das bandeiras vermelhas”. Você não é Lisboa mas, de certo modo, também cheguei, vi (melhor, ouvi e li) e me perdi, quer dizer, estou mergulhando de cabeça em algo apaixonante que não sei no que vai dar.

Também escrevi que me sentia livre, leve e solto, capaz de pensar, escrever, falar, fazer qualquer coisa. Pois bem, a retomada do contato com você me devolveu parte desse sentimento de 44 anos atrás. Estou me sentindo mais feliz e mais criativo.   Minha hipótese é que sentir isso me remeteu a um momento passado de completude. Um momento que só aflorou agora porque uma sensação assemelhada de felicidade e criatividade o puxou para a superfície. Ou seja, não foram textos sobre recordações, mas sobre você: o vivido foi apenas a matéria-prima.  Em Évora 2, digo que desperdicei o Alentejo. Shoshana querida, não pretendo desperdiçar este reencontro.
 
Depois dessa epifania, os deuses resolveram brincar comigo. Teclei para ela: 
Moça, o que eu temia aconteceu. Escrevi uma mensagem para você – nada demais, falava da playlist argentina e, claro, mandava besos, besos, besos. Só que eu estava teclando ao mesmo tempo com uma ex-mulher e grande amiga, que hoje está casada. O resto você imagina. Quem é ela?, teclou minha ex num tom gélido. Não dei nomes, culpei a tecnologia, meu lado multitarefas, e pedi desculpas pela invasão. Resposta: sei, sei (tom de dona do pedaço e senhora da tecnologia que não domino). Mas paquerar argentina é brega. Vai hablar espanhol com tuas chicas. Ficou nisso, sem problema, só tenho de não repetir o erro. Besos, besos besos para a pessoa certa. 

Shoshana puzo los tamanquitos. 

Meu bem, para mim é um elogio ser uma chica e nem você é brega nem eu, lo que es del otro es del otro! Eu tento e às vezes consigo devolver a batata quente no papel de alumínio para quem mandou. Te quiero, me sinto bem. Besos, carinhos y una dulzura de una chica mix Nichteroy/ portenha.

Nesse momento, uma lembrança me salvou: 
Você me contou que, no tempo em que as galinhas tinham dentes, namorava dois carinhas. Certo dia os dois se encontraram e você pulou fora, dizendo que ia comprar sorvete.

Pois bem, quando parei de teclar e vi a mensagem pra você no Whatsapp errado, me deu uma vontade enorme de sair e comprar sorvete... 

No dia seguinte, ela: 
Buen día! Hoje un dia longo, visitas no ateliê, vernissage e jantar com um grupo de artistas. Como tenho que levar parte da sobremesa, vou comprar sorvete!! Besos, y unos chiquititos en esos ojos que la pantera no tuvo coraje de acercarse, porque no es tonta.

Respondi na hora: 
Panteras son terribles y ríen por último. E continuei: 
Para amanhã, 7 de setembro, Bozo convocou os brasileiros a vestirem verde e amarelo – e muita gente vai de preto, como aconteceu com os caras pintadas em 1992 contra Collor. Também vou protestar – minha primeira manifestação desde 1992. À tarde conto como foi. 

Tarde do dia 7.

Foi muita gente? O que você achou?

Olhe, menos do que eu esperava, umas 5 mil pessoas. Pelo visto, o Bozo não cai hoje rsrs. Muitos estudantes, especialmente secundaristas, e gente dos movimentos sociais de ocupação de casas e de favelas, Eu não sabia, eles se organizam em mutirões com nomes como Martin Luther King. Muito legal ver isso. Pero estoy fatigao, mis piernas duelen. Espero à noite estar melhor. Besos, besos, besos.

Ela mudou de assunto:
Llegué ahora de tarde familiar, mamita querida!!

E então armou o bote.
Bom, a pantera passou por aqui, se você quiser há novidades e consultas, quer?

Eu tolamente concordei.  

Ela me ligou e no telefone estava aquele dispositivo que permite que os dois se olhem. Era a primeira vez que via seu rosto em 28 anos. Eu despenteadaço, de pijama velho e, detalhe, com a parte de cima pelo avesso, sorrindo sem graça. Protestei contra a covardia, falei que não tinha tido tempo nem de passar um perfuminho. Ela admitiu:
Tá bom, dei uma ajeitadinha, um batom ajuda. Não dava para ver o pijaminha.

Puxei pela memória e disparei:
Te acuerdas de la canción que dice cada un cree que no cambia y que cambian los demás? Com a tecnologia não dá pra se iludir. Brincar com transmissão ao vivo é acordar a pantera. 

Ela, aparentemente vestida de domadora de circo:
A pantera existe, está à espreita, el tema es como la cuido y de que la alimento.

E então retomamos uma questão mais séria, que havia sido discutida logo no início. Antes de o envolvimento acelerado trazer o risco de uma shitstorm, eu havia levantado a possibilidade de visitála na Argentina, mas uma amiga dela, Heleninha, encantou-se com nuestra madura locura e ofereceu milhas para Shoshana vir ao Brasil. Ela faria contatos profissionais com a patota de artes plásticas e, evidentemente, sensoriais e sensuais comigo. Foi um alívio, ganhávamos um projeto concreto, gratificante e prazeroso, ainda que temporário, o banho de água fria e a tempestade de merda estavam afastados. Resumo da ópera: chegaríamos no dia 21, ela de Buenos Aires, eu de Sampa. Nos encontraríamos no dia 22, em Niterói; no dia 30 eu estaria de volta a São Paulo e ela, no dia 1º, a Buenos Aires. 

Bem mais tarde ela teclou:
Hoje foi um dia muito mexido e fica difícil escrever, gosto de você, e no lugar da cara sorridente de ontem estou cheia de lágrimas e fungando. Sonhei de tarde com a gente, um sonho surrealista, por pouco não frito as cascas e jogo as gemas no lixo.

Tentei com a música pero... no quiero escribir más... Cuando pueda hablamos.
 
Veio depois, de madrugada, um e-mail.

Hace frío, son las cinco de la mañana, hice un té de Linden con miel y escucho los pajarracos que ahora son solo pajarracos, no anuncian ressacas.

Em todo caso además de frio tendría que haberte pedido un abrazo Whatsapp y no conseguí.

Parece que tuvieramos un montón de cosas en común y otras para conocer uno del otro ,al mismo tiempo no sé bien como de lejos “ser lo que siento".

Casi al mismo tiempo conseguis desplegar todo un río de cariño junto con paremos ahora y definirme la fecha y si venís para que me organize.

Ahora, com la mente más desenredada, casi te diría que por primera vez hasta hay algo que me gusta en probar aceptar tu," bueno, basta moça".

Pero es raro, siempre, creo, resolvía sola, no pude probar decir ok. Nada más....que aceptar simplemente al otro como es lo está en ese momento.

Parte del miedo se fué escribiendo y también soy tímida aunque lo disimule. Sé que te puedo ofrecer pedacitos de ombro dulces y perfumados junto a mi mecha plateada, pero me duelen las caderas, me canso, olvido cosas y tengo mil proyectos y de mal humor soy una peste.
No se veía nada del pijama, mucho menos al revés, pero sé que también queres venir dulce y perfumado con tanta música para que conozca, tanto para contar...

Estoy asustada y frágil pero voy, eso es muy mío, arreglaré aquí lo mejor que pueda si están los pasajes y me voy a dormir antes que amanezca. Abrazame mañana/hoy
 
E a coisa continuou. Confessei:
Bueno, ainda me resguardo de um cara a cara celularesco, mas ele virá ao vivo e a cores e será bom, necessário. Uma Conversa na Catedral, de preferência com laivos eróticos, mas uma conversa arrasa-quarteirões. 

Depois ela disse que a conversa na catedral podia ser numa sinagoga, e percebi que não conhecia o livro de Mario Vargas Llosa. Expliquei que era um papo num botequim chamado Catedral, onde TUDO era dito. 

Vocês já piraram na batatinha, viajaram na maionese, endoidaram legal? Não é como se você estivesse escrevendo um texto contra Bolsanaro e, no final do artigo, concluísse que ele é a rainha do Brasil, a nova Nossa Senhora Aparecida. Não, você começa bem, dá uma escorregadela, não percebe ou não liga, vai em frente escoiceando, e no final se flagra que falou ou escreveu os maiores absurdos. 

Foi o que aconteceu comigo. Mandei um e-mail levemente erótico para minha musa, un poco pesadito no final, e lá pelas tantas comecei a teorizar sobre brinquedos eróticos e por aí fui, desembestado. 

Quando recobrei (?) a sanidade, a mensagem já fora enviada. Shoshana se retraiu, eu corria o risco de perder la pinguinita antes de reencontrá-la. Lancei-me de armas e bagagens na Operação Reconquista da Musa. Teclei: 
Até dia 20 preciso estar em São Paulo, pensei em viajar no dia 21 e de encontrar, descansadita (você, não eu, que não me canso, sou macho pra dedéu), no dia 22. 

O dedéu funcionou, Shoshana riu, o estranhamento foi passando. Mas, ainda assim, comentou algo ressabiada:
No es nada simple volver a una relación que fué muy intensa. Hoy creo somos los dos los mismos, pero otros.

Estoy segura de estar siendo sincera accionando y re-accionando sin poner máscaras.

Puede que no responda a lo que esperás, no sé, no estamos juntos y son msg no charlas.

El Boa noite, beijos de ontem foi o que eu podia, com a boca e o coração cheios de palavras e sentimentos.

Tomara que esse Bom dia, beijos sea por la misma razón.

 
Admiti que estava me sentindo mais coiso do que nunca. Como um garotinho que tropeçou na toalha do banquete e quebrou toda a louça. Aí me veio uma lembrança salvadora:
Shoshana, você lembra quando me encontrou no Rio em 1987? (por sorte, disso ela lembrava). Estávamos meio sem jeito, até que uma pomba cagou na minha cabeça na praça XV. Isso quebrou o gelo. Estou precisando levar uma boa cagada para manter a sanidade e agir natural.  

No dia seguinte, quando a geringonça já rodava melhor, comentei um texto do José Simão, da Folha de S.Paulo. 

Ele escreveu hoje: Uma amiga minha de 72 anos pegou um cara e, quando chegou no motel, esqueceu como fazia. "E esse braço passo onde mesmo? E a perna ponho onde"? Moça, a gente é mais velho que ela, e minha memória é uma lama. Então concentra-te e lembra. Beijos. 

A pinguinita riu, o ambiente se desanuviava.

Prosseguindo em mi educación milonguera, Shoshana me recomendou escutar La Nochera, com Horacio Molina. Respondi, brincando, que havia encontrado outra gravação da música “com um conjunto folclórico que talvez você conheça, Los Chachaleros. já ouviu falar?”. 

Ela me explicou quem eram Los Chachaleros – algo que havíamos aprendido, nos braços um do outro, em 1967! Foi aí que tive a certeza que a memória de minha musa estava pior que a minha.  Pouco depois, ela me mandou um áudio que confirmou tudo. Dizia o seguinte: 
Olha, estou com medo. Estou rechonchudinha, e não sei se você vai me aceitar quando vir a cicatriz do parto.

Só então percebi que ela não havia esquecido apenas de minha intimidade com Los Chachaleros, mas de todas as nossas transas de 1987!

Escrevi no ato:
Você esqueceu 1987? Sua filha já tinha nascido, não é mesmo?  A cicatriz já estava lá, e não atrapalhou pissirongas, foi, pelo menos pra mim, uma experiência inesquecível. De resto, vamos fazer um belo casal, eu de Quasímodo (ou quase, como o nome indica), você de Frankenstenka cortadinha. Cortadinha, não coitadinha. 

Mais tarde veio a explicação. Shoshana teve um problema com bebida ainda mais grave que o meu. Parei de beber, sem traumas ou recaídas, em 1995; ela parou em 1991, depois de “un largo camino de horror”. Procurou o AA e uma terapia especializada em adições, e não bebia nada etílico desde aquele momento. Mas o álcool e a fase da fissura haviam apagado muita coisa em sua memória. Isso, claro, era assunto para a catedral.

Só então entendi o telefonema de 1995 para o meu trabalho na Rio Gráfica. Eu, tolamente, pensei que ela estava outra vez na trilha de guerra, investindo para ter o meu escalpo (belo eufemismo, não?), mas o problema dela não era o meu frágil corpinho e sim o alcoolismo. Desculpe por ter sido tão injusto com você, meu amor.

Já havíamos iniciado a contagem regressiva, e muitas teclagens foram sobre coisas práticas, telefones, reservas de hotel. Reservei dois quartos adjacentes porque, como expliquei, “dormir juntos é a maneira mais rápida de ferrar uma relação, especialmente uma relação bebê de uma pareja não tão bebê assim”.  

Mas ainda havia espaço para enleios. 

Shoshana: 
Hola, buenas noches, cheguei agora e só essa coisa que não tem nome ou geringonça me faz escrever um e-mail e fotografar um texto.

Eu, de bate pronto: 
Lindos, o texto, o texto do e-mail y vos. Vou mandar a letra de uma canção que eu amo. Ela diz não como estou, mas como gostaria de estar, junto a vos. 

E seguiu Have You Ever Really Loved a Woman? 

Foi então que comecei a escrever os relatos da série Shoshana. Em princípio seriam três, um sobre nosso envolvimento em 1967, outro sobre 1987 e o terceiro sobre o que estava acontecendo conosco (só depois surgiu a necessidade de escrever Shoshana 4, sobre nosso encontro em Niterói). Talvez os dois primeiros reavivassem a memória da minha musa. 

Enviei o primeiro texto em 17 de setembro e as recordações vieram a galope. Ela confessou que morria de ciúme quando via todos os amigos olhando embevecidos para sua mãe, absolutamente apaixonados por uma bela judia de pouco mais de 40 anos. Sarita era mesmo cativante. 

Em uma mensagem de áudio, ela me perguntou o que eu gostaria de ganhar de presente. Respondi na hora: 

Me gustaría mucho de vos ganar de regalo, rechonchudita y lo más que sea. Como se dice en Portugal, quero-te toda descascadinha. 

A pinguinita-pavão (um bicho híbrido, surreal) também queria mostrar sua linda cauda, além de afirmar sua identidade pessoal e artística, mostrar-me em que estava trabalhando. Então, depois disso, houve envio de vídeos de trabalho (dela), de poemas (dela) e de textos (meus) da série Shoshana E também fotos de gravuras dela, lindas. 

A essa altura, com a viagem se aproximando, as mensagens e telefonemas da minha musa passaram a evidenciar uma fragilidade crescente.

Num áudio do dia 18, ela disse, com a voz chorosa, que estava assustada, insegura, e que gostaria que eu estivesse a seu lado para abraçá-la. 

Respondi:
 
Mi lejano amor, você sempre me falou de seu lado frágil, mas nunca mostrou. Agora, porém, você vem com tudo pedindo colo, e estou achando ótimo. Parafraseando sua tribo, o ano que vem em Buenos Aires. Beijos carinhosos, que você está precisando.
 

O resto foi em Niterói, ao vivo e a cores, em meio a risos, confissões de amor ... e bramidos de panteras.

 

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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Foto de capa:

WALTER MOLINO, 'Cartoon publicado no jornal Domenica del Corriere', 16 de Dezembro de 1962.


Paginação:

Nuno Baptista


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