ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Mário Baggio


A incrível saga do negro Maciel e sua avó cuspideira    

Era de muita chuva a noite em que Maciel nasceu. A mãe, ainda com sangue entre as pernas, via a água correr pelas paredes do barraco, descendo como cachoeira do teto esburacado. Segurava a criança com os braços erguidos, não se molhasse nem virasse sopa quem tinha acabado de vir ao mundo. A água apagava o fogo que, pouco fosse, ajudava a esquentar aquela noite de agosto. Logo tudo ficou cheio d’água e a chuva começou a chover no já molhado.

Maciel teve sua mãe quando nasceu, mas algum tempo depois ficou sem ela, morta do coração quando um sábado estava quase acabando. Cuidou do filho enquanto pôde, peito murcho e pouco leite. Quando morreu só disseram a Maciel que o coração dela não bateu quando deveria ter batido. Ele fez que entendeu e pôs a mão sobre o próprio peito — seu coração ainda batia, ele comprovou.

Quando quase ficou sozinho e muito pequeno para cuidar de si, acordou uma manhã no colo de uma avó, que apareceu no barraco com uma garrafa de leite. Maciel não quis beber, o que é essa água branca, minhavó?, até que a velha o convenceu de que leite de cabra era o melhor para as crianças. Maciel viu que a avó era muito diferente da mãe, falava cuspindo e lhe dava tapa nas pernas e na cabeça, e em vez de dizer barraco dizia gruta, e cuspia, em vez de queijo, pasta de leite, e cuspia, e em vez de Maciel, negro de merda. E cuspia.

Lá fora Maciel viu a cabra e se acostumou com aquele leite espesso. Ganhou barriga lombriguenta e a avó ria dele, apontando o menino que engoliu uma bola de capotão. Ensinou Maciel a ordenhar a cabra e todas as manhãs era ele quem enchia a lata de leite e colocava sobre a tábua da mesa. Um dia a cabra secou as tetas e a avó a mandou embora — de que servia uma cabra que não dava leite e nem se podia montar no lombo, já que uma era velha e o outro um menino pequeno assim? Que fosse pastar noutra freguesia! E, enquanto pensava em como iria criar Maciel, Maciel se criou sozinho. Cresceu e virou moço. Para a velha, ainda era um negro de merda.

Para que sua avó não envelhecesse tão depressa, Maciel tratou logo de arranjar uma cadeira onde a velha ficasse dormindo e não cuspisse tanto. Colocou a cadeira perto do fogo, não morresse de frio aquela coisinha que era só pele e osso, e cabelo, tão prateado e tão comprido que quase alcançava o chão. Maciel também trouxe uns pedaços de pão velho, bons para fortalecer os dentes. A velha roía o pão, e dormia. Nessa hora Maciel a pegava no colo e a colocava na cama feita de muitos trapos, a mesma que ficou encharcada no dia em que ele veio ao mundo. A mesma em que sua mãe dormia quando o coração dela parou de bater.

E, enquanto a velha mãe de outra mãe dormia dias afora, Maciel deu-se ares de homem feito e aviou-se:
preparou a terra ao redor,
plantou o milho,
viu o milho crescer,
colheu,
cortou,
debulhou,
ensacou,
levou ao mercado,
vendeu,
ganhou dinheiro,
gastou o dinheiro
e, quando voltou, a avó já tinha acordado. Minhavó, muito sonho? Foi nesse dia que a velha desatou a chorar como uma criança pequena, pois viu que Maciel estava muito acabado, já era homem idoso, a barba branca, a boca vazia de dentes e a espinha curvada para a frente. Chorou porque viu os estragos do tempo à flor da negra pele do neto.

Então, com determinação, e como não houvesse outro jeito, a avó voltou a cuidar da gruta e das coisas de Maciel: cozinhava o pouco que havia, estendia a roupa no varal, limpava o cômodo em que viviam. Prendeu os cabelos brancos num coque e os amarrou com barbante. O sol curtia sua pele e suavizava as muitas manchas de velhice em seu rosto de muito velha, seus peitos se ampliaram como guarda-chuva aberto, suas ancas ganharam volume e muitas das rugas foram embora com o vento do verão. Não passou muito tempo para que Maciel a visse da janela, chupando limão-doce junto do filho negro da vizinha. Sentados no chão, os dois trocavam gomos melados de saliva enquanto um beliscava a perna do outro.

Maciel, inválido de tão velho, passava as horas sentado na mesma cadeira que foi de sua avó. Também comeu muito pão duro, em vão. Seus dentes não voltaram a crescer, nem sua barba escureceu ou sua espinha endireitou-se. Todos os dias, o mesmo: importunava-se com o calor, as mutucas e os risinhos abafados que vinham lá de fora. Minhavó, me abane, que me asso nessa quentura.

E logo, acelerado que dava medo, o tempo passou e, antes que a invernada viesse com a força costumeira, o milho voltou a crescer sem que ninguém o adubasse. Foi nesse tempo frio que Maciel sentiu brotar uns poucos dentes na boca e viu os joelhos de sua avó ficarem firmes de novo, assim como sua barriga, que crescia como se ela tivesse tragado a lua cheia. A velha já não cuspia como antes e fazia com mais esmero o pão que os dois comiam nas madrugadas geladas de chuva. Nesses tempos a água que caía do céu já não encharcava tudo, uma goteira aqui e ali não era de se fazer caso. Os trapos, as tralhas e o fogo conseguiam sobreviver à chuva que fustigava a gruta e molhava a vida lá fora.

E uma noite, enquanto o vento ladrava anunciando a tormenta e a madrugada descia veloz sobre o barraco, Maciel foi tomado de um assombro maior que seu velho corpanzil e seus olhos se arregalaram fitando o inacreditável e o inesquecível: a avó, sobre os mesmos trapos em que ele viera ao mundo,
se contorceu,
estrebuchou,
empinou os quadris,
abriu as pernas
e gritou como alucinada,
ao mesmo tempo em que expeliu pelo entrepernas uma criança coberta de sangue, que imediatamente começou a chorar. Maciel tomou a criatura nos braços e a cobriu de panos velhos. Sentou-se no chão, perto do fogo, e olhou para a avó, imóvel e de olhos abertos sobre a cama. Maciel pensou em como estava velha a sua avó.

A chuva, lá fora, caía, impiedosa, e Maciel, ainda com a criança nos braços, virou o rosto pro lado e deu sua primeira cuspida.

 

 

Mário Baggio é jornalista, escritor e blogueiro. Mantém o blog www.homemdepalavra.com.br, em que divulga diariamente sua produção literária. Publicou 3 livros de contos: “A (extra)ordinária vida real” (2016), “A mãe e o filho da mãe e outros contos” (2017) e “Espantos para uso diário” (2019). Teve textos publicados em várias revistas eletrônicas, entre elas Vício Velho, Diversos Afins, LiteraturaBR, Literatura&Fechadura, Gueto, Ruído Manifesto, Crônicas Cariocas, Escrita Droide e Subversa. Participou da “Antologia Ruínas”, da Editora Patuá, e da coletânea de poemas “Fragua de Preces”, editada em espanhol. Em 2020 publicará seu 4º livro de contos (“Verás que tudo é mentira”).

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Paginação:

Nuno Baptista


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