ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Sônia Peçanha


Wish you were here    

Os dias depois daquilo foram longos. Como se as horas se esquecessem de passar. A tia do Sul, os dois primos pirralhos encheram a casa de um zumbido artificial. Todos falavam baixo. Todos o olhavam de esguelha. Todos caminhavam na ponta dos pés. Medo de despertar alguma coisa que não se devia, escondida nos cantos da casa. Das vezes em que os garotos ensaiavam uma algazarrazinha, um jogo de bola, televisão mais alta, a adaga do olhar da tia cruzava o ar.

Depois de sete dias – sete meses, sete anos? –, ela se sentou junto dele no sofá da sala.

– Você sabe que precisamos ir embora. Seu tio está lá sozinho, tem meu trabalho, a escola dos meninos... A vida continua...

O papagaio do vizinho começou sua egolatria de toda tarde. Sou louro, sou louro, sou louro. A tia pareceu não ouvir. Ou achou melhor não ouvir.

– Dani, você tem certeza de que não quer ir com a gente? Só uma temporada. Uma semana, duas... depois, se gostar.

A voz foi se animando, e aquilo era ruim, muito ruim. Detestava ter de cortar bem rente o sonho das pessoas.

– ...porque tenho certeza absoluta de que você vai gostar da cidade. Curitiba é tão bonita. Lembra quando foi lá bem pequenininho com a...

Não consegue terminar a frase. O alarme toca. Fita amarela de listras pretas isolando o local. Mantenha-se afastado das palavras perigosas. Ela passa a mão pelos olhos, gruda um riso de dentes tristes na boca e continua. Com cuidado, muito cuidado, não fosse pisar numa daquelas palavras-mina e botar tudo pelos ares de uma vez.

– Mas então, você gostando, arranjo um quarto só para você, seu cantinho. Os primos vão te fazer companhia, são pequenos, mas logo, logo, você vai ver, estão gostando das mesmas coisas. E o tio Paulo está louco pra te ver. Ontem mesmo, no telefone, disse: “Daniel é como se fosse meu filho.”

Na televisão, um homem se equilibra numa corda entre dois edifícios. Segura uma vara comprida e avança, a vara tombando, um lado e outro, um lado e outro. Abraça os joelhos e acompanha o movimento ritmado do homem. Como se embalado num berço invisível.

– Você sabe que nós amamos você, não sabe?

A última palavra é quase engolida pela mão que encobre a boca. A tia olha para a tevê, se levanta de um salto e corre para o quarto. Como se de repente se desse conta de que a vida daquele homem dependia dela.

O equilibrista está quase lá. Mais dois, três passos e. Ele cai. Salta na rede procurando ficar de pé, pequenos pulos, uma tentativa de manter a dignidade que acabara de perder. Daniel sorri.

Do outro lado da parede, no quarto, a tia organiza a partida. Na cozinha, Ana tenta encontrar o trilho da rotina que agora lhe escapava. Há dias anda assim, tropeçando nos móveis, esquecendo panela no fogo, roupas na máquina de lavar. Como um ator pego de surpresa para uma estreia de que desconhece o texto.

A tia volta para a sala. Fica em frente à tevê. Ajoelha-se junto ao sofá.

– Você vai ficar bem? Jura que me liga se precisar de alguma coisa?

Ele aperta os botões do controle remoto, e um deles, afinal, a silencia. A boca continua a se mover, mas dela só saem golfadas de silêncio. Começa a apertar outros, devia haver um para fazer sumir sua imagem, mas não é preciso. Ela por fim se levanta, ao ver Ana na porta da cozinha, uma bolsa na mão.

– Para os meninos comerem na viagem – ela diz. – E não se preocupe. Ligou hoje. Ele vem.

No oco do peito, as palavras de Ana grudam. Ele vem. Ele vem. Ele vem. Neon vermelho a piscar nas paredes. Ele vem, repete a lâmpada, o homem de bigode na tevê, até a vassoura em que Ana se agarra logo que a porta do elevador engole tia, primos, malas.

Ele vem, sim, ele vem, Ana vai repetindo, e tudo vai se arranjar, tudo. Ela arrasta pela casa o mantra, tentando convencer cada taco, as xícaras na cristaleira da sala, o talher de mil peças sobre o armário da cozinha, que aquilo era verdade.

No dia em que ele enfim chega, estava na cozinha, tentando engolir o Nescau que Ana deixara na sua frente. Já não era preciso implorar que ela pusesse mais açúcar. Agora, ela mesma botava, talvez arrependida das outras 365 vezes a cada ano em que repetia lá vem o formigão, sempre que o via atrás de doce. Se continuar assim, acaba diabético que nem sua mãe. Vocês têm sangue ruim, Dani, tem que tomar cuidado. Mas Ana agora se tornara bem sovina com as palavras. Cada uma se arrastava de sua boca, como um pedregulho pesado que tivesse dificuldade de arrancar do fosso da garganta. E havia aquela que nunca mais fora resgatada daquele poço sem fundo, simplesmente desaparecera, deixando de ser o coringa do léxico de Ana. Sua mãe. Quantas e quantas vezes desembainhava aquelas duas palavras, espada em riste pronta para a primeira estocada. Sua mãe vai gostar de saber que você nem chegou perto do chuveiro hoje. Sua mãe vai ficar muito feliz quando descobrir que você não fez o dever nem estudou matemática. Sua mãe vai simplesmente amar ver aquele potão de sorvete vazio. Ana mudara, como tudo mais. Passava as manhãs cabeceando pela casa, ruminando um silêncio incômodo que atocaiava sombras pelos cantos.

Ela deixou o copo na sua frente, hesitou e então colocou mais uma colher cheia de açúcar. Bem cheia. Passa a mão por sua cabeça, no desajeito de um carinho, a mão meio molhada da louça, umedecendo-lhe o cabelo.

E então o interfone toca. O cachorro do vizinho desata no latido habitual. Ana, o garfo que enxuga, espetado no ar. Dani tem vontade de rir. Que Ana parecia uma maestrina descabelada, regendo um coro de fantasmas. Mas os músculos do rosto andavam preguiçosos, sem muita vontade de se arreganhar num riso. São 30 os músculos subcutâneos que mudam a expressão do rosto. Ana saberia disso? Anda, Ana, senta aqui que preciso te dar uma aula de biologia. Já ouviu falar no risório, no bucinador, no grande e pequeno zigomático?

Nomes mais esquisitos... para que esses malucos cismam de enfiar tanto nome feio na cabecinha de meu filho? Depois vou ter que dar uma boa faxina para tirar essa lixarada toda daí. A mãe sempre dizia isso quando vinha estudar com ele. Ficava até fácil decorar, com ela repetindo junto, fazendo rir, deixa meu risório trabalhar, se não vou abrir o lacrimório... e então de repente...

– É ele.

Ana está na sua frente, os olhos, duas poças de susto na cara suada. Segura ainda o interfone.

– Mandei subir? – diz, o final da frase trepando num ponto de interrogação, como se quisesse ter certeza de que falara mesmo aquilo.

Ele bebe um gole de Nescau. Pega a fatia de pão. Mordisca. Ana balança a cabeça, surpresa e satisfeita. Não andava com muita fome, raro comer qualquer coisa no café da manhã.

Mastiga devagar. Pão ajuda a empurrar para dentro o que está preso na garganta. Espinha de peixe. Fiapo de manga. Ossinho de galinha. Casca de pipoca. Catarro. Medo. Mastiga sem pressa, até a pasta espessa ir descendo, empurrando bem para dentro o nó. Não ia ser agora, bem agora, que ele ia resolver desatar.

A campainha toca. Ana estremece. Só então devolve o fone para a parede. Passa a mão pelos cabelos, prendendo uns fios que escaparam do lenço. Ajeita o avental. Se desse tempo, quem sabe correria ao banheiro para passar batom, perfume, mas um dedo agora impaciente descansa na campainha, que sustenta o fôlego por bons cinco segundos. O cachorro do 508 continua seu trabalho de avisar ao prédio todo que alguém está querendo entrar no 502, enquanto Ana se dirige à porta. Cinco passos. Cinco passos apenas mas que parecem durar duas voltas completas da Terra em torno do Sol. Depois que a porta se abrisse. Depois que ele aparecesse. Depois que estivesse ali, diante dele, tantas perguntas, de repente, teriam a companhia de uma resposta. Só que agora... justo agora, eram outras as perguntas que o afligiam.

Continua a mastigar. O sal dos olhos mistura-se ao pão que engole sem pressa. O nó.

Não levanta os olhos do copo quando ouve a porta se abrir, os passos diferentes do arrastar de chinelos com que Ana toca sua rotina. Um, dois, três. Três passos firmes. E então a mão pousa sobre a sua. Num dos dedos, duas argolas se juntam num anel. O infinito, pensa, e revira o sótão das lembranças, tentando descobrir em que momento tudo teve fim.

Aproveita os segundos, os últimos antes de grudar àquela palavra – pai – um rosto, para tentar adivinhá-lo. Um retrato – uma foto desbotada que a mãe arranjara para um trabalho da escola – prometia sobrancelhas grossas e unidas sobre os olhos. Dois vincos em redor dos lábios – como se Deus, ou seja lá o que dá forma ao corpo dos homens, tivesse passado um bom tempo escavando ali. Os olhos? Dois pontos avermelhados no susto do flash.

O dedo do anel desenha um círculo sobre sua pele. Acompanha o gesto e de repente lhe ocorre que talvez o pai fosse um alienígena. Alguém de outro planeta que abduzira sua mãe, deixando nela a semente do filho. Aquela seria a linguagem dele. O círculo que ia queimando o dorso da mão, um alfabeto secreto que talvez nunca chegasse a entender.

– Filho.

Gelo batendo num copo de cristal.

– Daniel, meu filho...

O cristal se parte. Mil cacos sobre a mesa quando seu nome soa na voz do pai.

Dani, já não disse para não largar a roupa molhada na cama. Ô Dani, tem que comer alface sim, porque faz bem, nem tudo tem que ser gostoso, anda, come. Dani, Dani, Daniel, meu cara de pastel... é a voz da mãe que vem junto com a água que escorre da torneira porque de repente Ana decide que precisa lavar todas as louças do armário. Não olha para eles, mas as costas estremecem, e ele tem medo, um pavor frio a se infiltrar pelos ossos, de que ela esteja chorando.

Ouve o arrastar da cadeira. Agora as duas mãos estão sobre a mesa. Cruzadas como no peito de um cadáver.

– Você não vai olhar para seu pai?

Sem pressa, ergue os olhos. Óculos escuros não deixam ver se os olhos são vermelhos de verdade. As cavernas que os dedos de Deus cavaram em volta da boca estão agora cobertas por um tapete espesso de fios claros. O nariz não ostenta mais o talhe orgulhoso, como se desenhado a régua, e parece ter sido achatado por mão raivosa. Então esse é o seu pai. Ele tira os óculos, deixando ver no rosto duas contas azuis. Estende novamente as mãos e segura-lhe o braço. Cada um dos gestos é lento. Como se tivesse ensaiado muito antes e houvesse um tempo determinado para cada ação. Os dedos são finos e brancos. A mão macia.

– Filho – ele repete.

Dani não afasta os olhos dele. Nem mesmo quando duas gordas lagartas líquidas lhe descem dos olhos e se embrenham na barba.

– Como você cresceu.

Por seis dias, acompanhou o andar de estrangeiro do pai pela casa. Um olhar distraído pelos livros da estante. Mais detido nos porta-retratos da mesinha de canto. Várias horas ao dia, à janela, com o celular. Dar tempo ao tempo. Ver o que acontece. Ele vai se adaptar. Fiapos de conversa que ia costurando, tentando compor algum enredo. Impossível não se roer de curiosidade, procurando criar uma história para aquele personagem que, de repente, se materializava em sua vida. Teria outra família? Mulher e filhos em Brasília? A única certeza – a mãe deixara escapar numa das vezes em que brigaram por conta daquilo, ele tinha o direito de saber, afinal, tinha que ter um pai naquela história toda – era que morava lá. No entanto, por mais que se mordesse de curiosidade, não ousava qualquer pergunta. Bom que as coisas continuassem assim. Um respeito mútuo pelas áreas interditas de cada um.

Foram dias de chuva. Enquanto o pai media a casa com seus passos largos, Dani passava horas no sofá da sala, entregue ao vício de apertar os botões do controle remoto. Quem sabe de repente o milagre de uma vida nova na tevê ligada. Vez e outra, o pai sentava-se ao seu lado e o acompanhava no devaneio de imagens. Só Ana se esforçava por botar a vida em ordem. Fabricava ruídos numa tentativa de despertá-los. Falava alguma coisa com uma cadeira, discutia com o fogão, enxugava o rosto com o pano que trazia sempre pendurado no ombro. Algumas vezes, encostava-se na porta e ficava ali assistindo ao filme mudo que eram os dois. Um filme sem muita ação, dois homens sentados diante da tevê, mas um filme triste, pois não era difícil ver os olhos dela ficarem vermelhos, e então corria atrás de uma poeira, de uma louça, precisava trabalhar.

Depois de seis dias a explorar aquelas terras ignotas, o pai quebrou o protocolo de silêncios do almoço.

– Amanhã, nós vamos viajar.

O copo que Ana lavava se espatifou na pia. Ela começou a catar os cacos, num murmurinho plangente. Por que, Ana, por que você é assim tão desastrada? Você não vai tomar jeito nunca? Uma velha e ainda fazendo besteira.

Eles não ouvem. O pai não tocara na comida, apenas bebe goles do suco de laranja num ritmo compassado. Dani parte, com precisão obsessiva, pedaços cada vez menores do bife.

– Não quero te obrigar a nada. Mas queria que você conhecesse a minha casa... a minha vida. Acho que não podemos mais fugir disso.

Daniel respira fundo e enfrenta a urgência dos olhos do pai.

– E se eu... se eu não quiser ir?

Um gole de suco. Guardanapo nos lábios. Ligeiro pestanejar.

– Não quero te obrigar a nada, filho. Mas, por favor, me dê essa chance.

Ana ajudou a arrumar suas coisas. Não, não era para levar todas as roupas. Não, ele não estava indo para sempre. Sim, devia continuar cuidando da casa. O pai respondia com paciência à sucessão de perguntas que foram açodaçando Ana ao longo de todo o dia. Era bom levar um casaco. A sunga não era má ideia.

No dia seguinte, às oito, encontram a mesa posta para o café, bolsa com víveres para uma jornada de meses e os olhos lacrimejantes de Ana.

Foi com eles até a garagem e abraçou Dani, seu Dani.

– Se cuida, come direitinho, não pega friagem. E me liga... qualquer coisa, me liga, viu?

Disse isso olhando para o pai. Ele continuou a guardar as malas sem parecer se preocupar com a ameaça velada.

Nas primeiras horas, o pai fala do tempo, das condições da estrada, dos perigos do trânsito, uma sucessão de trivialidades que não exigiam mais que um é mesmo, também acho, verdade.

– Daqui até Brasília são uns 1.200km. Dá para chegar lá hoje, mas é melhor ir com calma, ir curtindo a viagem, não acha?

O pai lhe estende um pacote de chiclete e começa a falar de Brasília. Uma cidade esquisita, mas que tinha seus encantos. Aprendera a gostar. Tinha certeza de que ele também acabaria gostando. Porque quando tinha seus 12 anos, também teve que enfrentar umas mudanças, a vida às vezes não dá nem tempo da gente botar a cabeça para fora pra respirar, logo vem uma onda e outra e outra...

– Mas tudo passa, filho, tudo passa, e de repente a gente se vê num momento assim... bom, feliz. Eu com meu filho na estrada.

Dani não diz nada. Abre a janela e cospe o chiclete. O pai continua, parece ter medo de um súbito silêncio denunciar que não seria tão fácil assim. Desencava histórias da faculdade. Lembranças empoeiradas que vai arrancando de um canto qualquer da memória e lhe oferece numa tosca tentativa de intimidade. Daniel se esforça para prestar atenção. Para rir na hora certa. Para encaixar uma e outra exclamação de interesse. Por fim, o pai desiste daquele duelo com o silêncio. Coloca um CD e aumenta o som.

– Maneira essa música – Daniel fala, feliz porque era verdade. Está mesmo gostando.

O pai se anima. Aumenta um pouco mais, arrisca uma rápida olhada para ele.

– Pink Floyd. O conjunto da camisa que eu trouxe pra você. Wish you were here... é o título dessa música. Quer dizer...

– Eu sei inglês – Dani corta.

So, so you think you can tell... Heaven from hell… Blue skies from pain… A música cala o silêncio, verde correndo pela janela, rápido, bem rápido... Can you tell a green field from a cold steel rail… corre verde, corre, the same old fears... wish you were here… I wish you were here.

Quando o sol resolve enfim deixar a noite chegar – uma briga longa e rubra que ele acompanhou se travar na linha do horizonte –, o pai fala que é hora de parar. Não vale a pena continuar. No breu que de repente engole a estrada, se desenha o pisca-pisca de um hotel.

– Hora de esticar os ossos, não acha?

Estacionam e logo estão sentados numa mesa de canto do restaurante. O pai pede dois filés com fritas e refrigerantes.

– Ah, vamos querer também um quarto para pernoitar.

Quando o atendente se afasta, ele sacode o paliteiro até tirar dois, enfia um na boca, e, com o outro, começa a riscar a mesa. Dani pensa que seria bom dizer alguma coisa. Feito dois homens fazem quando estão sentados na mesa de um bar, mas as palavras andavam traiçoeiras, se escondiam pelos cantos da cabeça, difícil, muito difícil desentocá-las. Fosse outro tempo, antes do vendaval daquilo...

Mas ali, naquele ponto da estrada em que ele e o pai olhavam para uma mesa manchada, porque não havia mais o que olhar, não tinha como achar o atalho para uma conversa. Os dedos gelados do medo vêm então, e agarram firme a garganta. Os olhos começam a arder. Uma fila disciplinada de lágrimas desfila pelo rosto. Passa a mão com raiva, muita raiva, por nada no mundo quer parecer uma criancinha, ainda mais naquela hora em que estão os dois juntos, os dois em torno de uma mesa meio suja, o filho e seu pai.

– Ela disse alguma coisa?

Assusta-se quando a voz vem baixa, esforçando-se para emergir de um buraco muito fundo. Onde ele e o pai tinham caído. Os dois esperando que alguém se lembrasse de jogar a corda.

– Quando ela foi... naquele dia... ela disse alguma coisa?

O pai não levanta os olhos. Continua a riscar a mesa com o palito.

Dani faz força para lembrar.

Ela acordara cedo. Levantou-se, coisa que não andava fazendo nos últimos tempos, e foi para a cozinha. Ele estava lá. Ouvindo Ana reclamar da dose extra de açúcar que pediu. Ana calou-se quando a mãe surgiu à porta. Seu coração se partiu de uma alegria que era dor, teve de pregar os pés no chão, porque a vontade dele era correr e abraçá-la. Mas teve medo. Medo de a fúria de seu amor machucá-la. Estava tão magra, cada dia tão mais magra.

– Dona Lúcia, a senhora não devia...

Ana correu até ela, segurou o braço e ajudou-a a sentar.

 – O meu príncipe... não vai à escola hoje?

Ele sorriu com cuidado e falou baixo, bem baixinho, que a voz não entrasse pelo ouvido da mãe como um vento louco, tirando tudo do lugar. Era assim que elas estavam por dentro, um vento louco despenteando as frases, você vai ficar boa, mãe? isso vai passar? vai ser tudo como antes, tudo? Não deixou que saíssem assim desgrenhadas, nem que viessem com uma interrogação espetada ao final. Falou devagar. Bem devagar. Como se costuma falar com uma criancinha, para ela entender um grande perigo.

– É sábado. Hoje, mamãe, é sábado.

Ela sorriu. Estendeu as mãos sobre a mesa até lhe alcançar o braço. E ficaram ali os dedos magros correndo nos pelinhos de seu braço que de repente se arrepiaram.

– Meu porquinho-espinho, olha só, Ana, meu porquinho-espinho todo arrepiado.

Ana sorriu, ele sorriu, e por instantes o riso ficou esquecido no rosto deles, e parecia uma cena perdida do antes que vinha se intrometer na parte errada da história. Ele também fechou os olhos e quis que tudo terminasse assim. O filme da sua vida congelasse naquele instante, o riso de cristal da mãe, os dedos finos em seu braço, os pelos claros se espetando, um cheiro bom de café e leite, o cheiro quente do amor a cobrir o silêncio. Até que ela apertou mais seu braço.

Ele abriu os olhos. O riso sumira. Os olhos nadavam, poças de lágrima. Olhou para a caneca que Ana deixara diante dele. O marrom-claro do achocolatado. Queria engolir de uma vez, um gole só, o morno a correr pela ferrugem da garganta, mas não teve coragem de se mexer.

– Sim, sábado, que cabeça a minha.

Ela sugou com o canudo um gole da vitamina que Ana trouxera. Passou a mão pelos lábios. Muito finos e do mesmo branco do rosto.

– Onde já se viu querer meu príncipe na escola num sábado bonito desse? Um sol lá fora...

Os olhos se detiveram na janela, e ela se animou.

– Ah, esse sol. Bem que a gente podia descer um pouquinho, o que você acha, hein, pegar um solzinho no play, nós dois? Há tanto tempo que não saio daquele quarto...

– Dona Lúcia, não é melhor...

 

– Alguma coisa que quisesse dizer... para mim? – pai levanta os olhos e não se importa que ele perceba, ali, o brilho do desespero. – Ela disse, filho?

O homem chega com a comida bem nessa hora, e Dani respira fundo. Seu pensamento era um quarto bem arrumado. Não queria a desordem de lembranças a tirar coisas do lugar.

– Qualquer problema, chefia, é só chamar.

Dani começa a comer, inventando uma fome que não dê espaço para perguntas difíceis. O pai dá algumas garfadas, os olhos vagando pelas mesas, detendo-se um pouco mais na janela aberta, o cheiro acre da noite invadindo a sala.

– Vai comendo que vou até o banheiro – diz levantando-se.

Ele custa a voltar. E de repente Daniel alarma-se com a ideia de que não voltaria mais. Nunca mais. Quem sabe tivesse percebido o desatino de se fazer pai depois de tantos anos. Respira aliviado quando ele enfim aparece no fim do corredor, guardando o celular no bolso. 

O pai senta-se, agora de frente para a porta. Não demora muito para ela abrir. Um homem magro, óculos de armação grossa, camisa de listras azuis entra. Olha em volta. Acena a cabeça para o pai e senta-se junto à janela.

Logo que o atendente se afasta com seu pedido, o recém-chegado se levanta, e parecia dirigir-se ao balcão, quando muda de ideia, aproximando-se deles.

– Boa-noite. O amigo tem um isqueiro? Acabo usando o do carro e nessas horas é que lembro que preciso comprar um.

O pai sacode os ombros meio sem jeito.

– Já tem um tempo estou tentando parar de fumar.

 – Mas na estrada ajuda. Para afastar o sono. Um garotão... seu filho? O pai balança a cabeça e então se levanta decidido.

– Sabe que você tem razão? Não dá para encarar mais de mil quilômetros sem um cigarrinho de vez em quando.

O homem estende o maço. Duas argolas se unem no anel no dedo mínimo.

– Pega um. Vou descolar um fósforo, e a gente fuma lá fora. Não vamos incomodar o menino que está comendo.

O pai olha-o preocupado.

– Você se importa, filho?

Dani sacode a cabeça, o olho já pesado de sono. Àquela altura, não se importa com muita coisa. Só quer acabar de comer e dormir.
 

Parecia ter passado muito tempo, quando o pai volta. Dani acabara dormindo com a cabeça apoiada na mesa. O restaurante agora está vazio, só o homem de óculos bebe cerveja sentado junto ao balcão.

– Tem alguém aí que já está sonhando. Vamos pra cama, campeão. Vamos deitar que amanhã a estrada nos espera cedo.

Pegam a chave e logo está deitado ao lado do pai na cama de lençóis ásperos e colchão fino. É bom quando ele pega sua mão e aperta firme.

 

O pai não está no quarto quando acorda na manhã seguinte. No banheiro, separado por uma cortina de plástico, o chão molhado. Um banho. É disso que também está precisando. Vê a toalha na cadeira e esvazia a mochila sobre a cama, procurando o que havia de mais confortável para vestir. É então que encontra o embrulho. Um bilhete de Ana diz apenas: “Ela pediu que só desse isso a você quando seu pai viesse te buscar.” Abre o pacote, tomando cuidado para não rasgar o papel florido. A dobra perfeita, o durex cortado em pequenos retângulos simétricos eram sinais da mãe. Fecha os olhos e tem certeza de que é, sim, o perfume dela que vem dali. Quanto tempo fica assim? O embrulho grudado no nariz, o gosto da saudade, um líquido quente a queimar a garganta? Não sabe dizer ao certo, mas de repente os ruídos lá fora o fazem despertar. Logo o pai ia aparecer, não queria ter de dar explicações. Abre o embrulho e encontra o álbum.

Tem capa de madrepérola e em letras douradas está escrito “Nosso Filho”. Começa a folhear e de repente uma parte de sua vida surge do limbo. Meus coleguinhas do berçário. Mamãe me dá de mamar pela primeira vez. Como sou guloso. Odeio banho. Eu e o bobo do papai. As fotos vêm acompanhadas de legendas na letra bem talhada da mãe. Imagina-a com a caneta na boca, enrolando um cacho de cabelo, rindo das próprias tiradas. Depois das primeiras no hospital, a casa pequena, duas janelas e porta no centro, um pé de jasmim na entrada do minúsculo quintal. O pai o segurava num dos braços, abraçava a mãe com o outro, os dois encostados na parede branca da entrada. Em que momento o paraíso se transformara num inferno que teve de ser arrancado da vida dele? Em que momento o pai teve de perder rosto e nome e simplesmente inexistir? As fotos se sucedem numa perfeita alegoria da vida feliz. Domingos no parque. Fim de tarde na praia. Sortilégios de uma felicidade que ele nunca imaginara existir. O álbum termina pelo meio. Meu primeiro aniversário, a mãe escrevera sob a foto em que ele chorava no colo do pai, diante de um bolo onde brilhava uma única vela. Não quero crescer.

Continua a virar as páginas, na esperança de encontrar ainda algum flagrante de seu passado, quando encontra o envelope, grudado na parte interna da capa. Para você, meu filho. A letra trêmula mostra que era recente. Segura o envelope e pensa se não seria melhor rasgá-lo em dois mil pedaços. Silenciar para sempre o que a mãe nunca quis lhe dizer.

Deita na cama, a carta sobre o peito. Uma aranha no teto trabalha aplicada em sua teia, até um mosquito se enredar. Ela é rápida e logo volta a ser a renda azulada da espera.

Daniel desdobra o papel e vê a data: 20 de janeiro. Quase um mês. Escrevera poucos dias antes de ir para o hospital. Poucos dias antes de não voltar a abrir os olhos.

“Meu querido, Se você está lendo isso agora é porque o que eu mais temia aconteceu. Mas a vida continua, e o meu amor por você não terá fim nunca. Quero te devolver o que roubei da sua vida por todos esses anos, e quero lhe deixar a minha melhor herança: o perdão.”

A água do chuveiro é fria, mas prefere que seja assim. Deixa-a encharcar a cabeça e descer pelo corpo. Lá fora, o pai já teria tomado café, quem sabe fumaria o terceiro cigarro do dia.

Podia acabar com tudo agora. Simplesmente lhe dizer que não queria ir. Não queria saber de sua vida, do que planejara para os dois. Voltaria para sua casa. Voltaria para Ana. Ancorados naquele hiato de vida, até que alguma coisa acontecesse. Algo definitivo e inevitável. A morte talvez.

Enrola-se na toalha e olha o rosto no espelho. Grandes olhos negros o examinam, e pela primeira vez se dá conta de como se parecem com os da mãe. É ela que o observa do outro lado do espelho. Um olhar líquido e súplice. Sua melhor herança, o perdão.

Veste a camisa do Pink Floyd, primeiro e até então único presente do pai. Enfia a carta no bolso e abre a porta.

Na mesa junto à janela, o pai e o homem de óculos observam a estrada em silêncio. As mãos tamborilam a mesa num compasso distraído. Ele presta atenção na argola dos anéis.

 

 

Sônia Peçanha
As palavras foram a seiva da minha infância. Na voz terna de meu pai, as travessuras da Emília a encantar as noites. Nos verões, no quintal de casa, o despertar da poesia, nas oficinas literárias com minha mãe. Logo que a vida exigiu escolhas, o desejo de ter na palavra o ofício. Curso de Letras, trabalho de revisora e a paixão maior, a escrita. Dois livros publicados, Depois de sempre (semifinalista do Jabuti) e Traição e outros desejos, participação em algumas antologias (entre elas, +30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira), na escrita, um compromisso para a vida. Ao longo do caminho, o encontro que celebramos. Nestes 30 anos de Estilingues, festejamos a vida, a amizade, a literatura. Olhamos nos olhos do tempo e dizemos, com certeza, valeu a pena.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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Foto de capa:

WALTER MOLINO, 'Cartoon publicado no jornal Domenica del Corriere', 16 de Dezembro de 1962.


Paginação:

Nuno Baptista


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