ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Wil Prado


A ONU não é o boteco da esquina    

“Pelos campos há fome/Em grandes plantações”.
                             (Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores — Geraldo Vandré)

I

         É com o país ultrapassando as 140 mil mortes vítimas do descaso e descontrole de uma pandemia irresponsavelmente tratada como “gripezinha”; Amazônia, Pantanal e grande parte do Cerrado das regiões Norte e Centro Oeste ardendo em chamas, com o sacrifício de centenas de espécies da fauna e da flora brasileiras, muitas em franca extinção — é ao meio desse quadro dantesco que o presidente Jair Bolsonaro sobe ao Plenário da ONU para a abertura da 74ª Sessão da Assembleia Geral.

         E o que diz o presidente diante de todo esse descalabro:  corre atrás do prejuízo, faz o “mea culpa”, pede desculpa ao planeta e apresenta urgentes e imprescindíveis medidas para tentar resolver o problema?  Não. Profere um discurso anacrônico, dirigido apenas ao seu público interno, onde, levianamente, joga a culpa nas próprias ONGs defensoras do meio ambiente, nos caboclos que vivem da agricultura de subsistência à beira das matas, e nas populações indígenas, que, na verdade, a cada dia mais desassistidas, são as maiores vítimas.

         E continua, na sua escalada de afrontas e autoritarismo a condenar a tudo e a todos pelos maus resultados do conjunto da obra. São empecilhos a oposição, a imprensa, a Justiça, os governadores, enfim, todos aqueles que pregam o isolamento, causando o desemprego e a consequente queda da economia, como se mesmo antes da pandemia o desemprego já não estivesse em franca expansão e a economia em queda, com o PIB acusando a marca recorde de 1.1%.

 

 

II

         Ignora a enorme fuga de capital constatada nos últimos meses e projeta fantasiosos possíveis novos acordos comerciais, quando é vastamente sabido que, pelo incentivo à pratica criminosa de madeireiros, garimpeiros, grileiros e alguns fazendeiros inescrupulosos do agronegócio, contando com a cumplicidade do governo, reduzindo verbas e dificultando a ação dos órgãos fiscalizadores, o capital internacional, como as aves do Pantanal, assustado bate asas do nosso território.

         E, como uma tábua de salvação, parece jogar todas as suas fichas em um único dado: o agronegócio. “O homem do campo trabalhou como nunca, produziu como sempre, alimentou para mais de 1 bilhão de pessoas. (....)  Garantimos a segurança alimentar a um sexto da população mundial. (....) O Brasil desponta como o maior produtor mundial de alimentos.”  Mas esquece que o Brasil consome 20 % do total de agrotóxicos comercializados no planeta, que aqui, sem obedecer às restrições internacionais, são despejados sobre as lavouras, comprometendo a água e o ar.  Como furtou-se também às denúncias de “trabalho análogo e escravidão no campo”, a pipocarem na mídia.

 

 

III

         Ufanismos à parte, é necessário corrigir que não somos o primeiro, mas o 3º produtor mundial de alimentos: EUA e China estão à nossa frente. Mas, convenhamos, é um número excepcional, e que tem impulsionado enormemente nossas exportações, alcançando 60% da balança comercial. O que é bom, mas não é tudo. Com a cota do dólar em alta, no afã de exportar, o mercado interno vem dando sinais de desabastecimento, refletindo com alta do arroz, carne e outros gêneros alimentícios, e a inflação — sempre à espreita — volta a mostrar a cara. Ainda timidamente, é verdade, mas já preocupando. 

         Segundo o último censo agropecuário do IBGE, 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros vêm da agricultura familiar (em primeiro plano focada na própria subsistência), e não do agronegócio, como muitos pensam e alardeiam.  E essa agricultura de pequeno porte — em média um hectare por família— foi bastante incentivada em governos anteriores, com a criação do PAA – Programa de Aquisição de Alimentos, que comprava quase todo o excedente da safra, para, dentre outros benefícios, fomentar a merenda escolar. Aliás, foi no auge desse Programa (2014) que o Brasil oficialmente saiu do Mapa da Fome delineado pelas Nações Unidas, conquista celebrada não apenas por brasileiros, mas em todo o mundo.

         Ultimamente, o financiamento governamental, que chegara a atingir 1 bilhão, se viu reduzido para 294 milhões; o que, naturalmente, reduziu o abastecimento interno e, consequentemente, aumentou o número de brasileiros em carência alimentar. Resultado: mais de 10 milhões vivem hoje em situação de “insegurança alimentar grave”, segundo classificação do IBGE. E, ironicamente, essa fome é maior justamente no campo: 23,3 % da população urbana contra 40 % da população rural.

         No seu discurso incendiário (e aqui cabem os dois sentidos), o presidente, que tanto orgulho demonstra do agronegócio (como se fosse produto exclusivo do seu governo e não também dos anteriores), sequer menciona a dura e desigual labuta dos pequenos agricultores, como se isso fosse questão de somenos.

         Ao meio a essa barafunda, a pergunta que não quer calar é: Por que o país, que se ufana de alimentar sozinho “um sexto da população mundial” convive pacificamente em seu seio com mais de 10 milhões de famintos?

         Nesses tempos de intolerância e autoritarismo, em que o populismo transforma pacatos cidadãos em cegos, manietados e aguerridos Zumbis (ou melhor, em robôs) é oportuno invocar Hans Fallada, em seu romance sobre a resistência alemã, onde ele conclui que os discursos do nazismo não passavam de peças destinadas apenas a “jogar areia nos olhos” dos fanáticos que defendiam um líder empenhado em minar as instituições democráticas do país.

  Não estamos vivendo situação análoga? Fica a pergunta.

 

 

Wil Prado é funcionário público aposentado e autor do romance “Sob as Sombras da Agonia”, Chiado Editora e “Um Vulto Dentro da Noite”, E-book, Amazon

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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