ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Fernando Ferro Brandão


Reunião e reuniões: em defesa da Educação Pública    

Muito do que aprendi na vida foi lendo, discutindo, pensando, montando minhas propostas, conhecendo as dos outros e as partes envolvidas. Nesse contexto, nos últimos anos, tenho estudado um pouco a educação brasileira. Aí é que venho observando uma infindável lista de pedagogias com as mais variadas denominações, como “pedagogia do aprender a aprender”, “pedagogia das competências”, “pedagogia construtivista”, “pedagogia corporativa”, “pedagogia da qualidade total”, e outras como “pedagogia do afeto” ou “pedagogia do amor”, todas elas voltadas para o objetivo de, pela educação, aumentar a eficiência e assegurar a conformação dos indivíduos à ordem existente visando a sua consolidação, embora sempre se apresentem com roupagem inovadora.

Sejamos honestos; não foram poucas as vezes que pediram para atender uma importante reunião pedagógica somente para passar duas horas sentadas ao redor de uma mesa se perguntando por que essa reunião foi marcada, afinal de contas? Nesse tempo, a suposta agenda nunca fica muito clara, muitas vezes pedem atenção, idéias são redirecionadas para conversas sem sentido e quando as cabeças pensantes param de falar, você corre para a porta e passa o resto do dia respondendo e-mails, whatsapp e ligações que se amontoaram durante aquelas duas horas perdidas.

Há também em grande parte das escolas aquela visão antiga e atrasada de que o diretor é o responsável pela parte administrativa da escola enquanto os professores se incubem de ensinar os alunos. É um equívoco. O diretor deve sentar com os seus docentes e a comunidade para estabelecer os parâmetros pedagógicos, curriculares, e as metas sobre o que os estudantes vão aprender. Devem ser educadores visionários e apaixonados comprometidos, que liderem escolas onde todas as atividades tenham a meta de acelerar o aprendizado e o crescimento acadêmico.

Tenho observado a necessidade de se criar uma escola de liderança, com o objetivo de recrutar, capacitar e promover a colocação de novos diretores. Partindo do pressuposto de que a pessoa não deve aprender apenas a cuidar dos aspectos administrativos, mas também conhecer métodos pedagógicos didáticos, e estar apta a ajudar os professores a melhorar suas aulas e saber como desenvolver um currículo.  Porque para ser um bom diretor, é preciso saber o que é ser um bom professor e conhecer as noções básicas de como ensinar alunos. Por isso, é necessário selecionar candidatos com essa vontade de aprender.

Um bom diretor deve ter habilidade em lidar com as pessoas, se expressar bem, saber gerir seu próprio tempo, ter o hábito de dar retorno sobre a execução de uma tarefa e estar aberto a ter o trabalho avaliado e, se necessário, rever suas ações. Também deve demonstrar interesses nas escolas mais difíceis, este deve ser requisitado porque não se pode convencê-los a fazer depois de já terem sido selecionados.

Para o processo de seleção, deve se levar em conta a exigência da legislação do ente da federação, o tempo estabelecido. Suponhamos que o critério seja ter no mínimo três anos de experiência em sala de aula, assim podemos saber do que eles sabem e quem são, se querem efetivamente fazer os alunos aprenderem. Vencida esta etapa inicia-se a primeira fase da formação. Um curso de seis meses, onde a orientação é focada para o trabalho em equipe, privilegiar a parceria com os docentes, afinal todos na escola são responsáveis pelo aprendizado de cada estudante.

O segundo passo é um ano de residência acompanhado por um diretor mentor capacitado pela escola de liderança. É só no fim dessa residência que ele obtém a qualificação para assumir uma escola e mesmo assim não é sozinho. Em seu primeiro ano de trabalho, um mentor capacitado vai acompanhar seu desenvolvimento nos pontos que ambos acreditam que ainda possam ser melhorados. Assim, a escola de liderança colabora na implementação de um modelo que ajuda professores, gestores e comunidade a superar problemas diagnosticados no planejamento.

Neste sentido, a melhoria da qualidade do ensino vai ser traduzida no aprimoramento das relações entre comunidade e escola, mas não será a classe dominante brasileira que vai se esforçar para isso. (como lembra Francisco de Oliveira). É hora de a sociedade assumir a educação pública. Esta alternativa implica fundamentalmente que a sociedade assuma, entre outras, os aspectos: criar uma legislação onde fique claro que banco é banco, bar é bar, igreja é igreja, empresa é empresa e não podem ser dispensadas de impostos, porque querem suas escolinhas privadas; escola pública, para assim ser, estatal, gratuita, universal, laica e unitária.

A educação tem que ser um projeto de Estado, onde o sentimento de nação esteja presente no compromisso de seus atores na construção da cidadania e no desenvolvimento integrado.

 

 

Fernando Ferro Brandão. São Paulo Brasil (Brazil).
Professor de História do Estado de São Paulo e atualmente supervisiona também o programa institucional de bolsas de iniciação à  Docência, PIBID-UNIFESP. Foi diretor da CUT-SP.(Central Única dos Trabalhadores),por dois mandatos. Trabalhou na SDU, Secretaria do Desenvolvimento Urbano. Também exerceu o cargo de Secretário Adjunto da Educação da Cidade de Guarulhos-SP e Assessor Especial de Gestão na Secretaria do Governo.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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