ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Antônio Torres


Crônica: A bela Susana do vice-rei    

Reconto aqui uma lenda romântica, encontrada à página 97 do livro Rio de Janeiro em seus 400 anos, publicado pela Editora Record em 1965, no capítulo Século XVIII, escrito por Cláudio Bardy.

A história começa com a chegada ao Rio – vindo de Lisboa -, do vice-rei Luís de Vasconcelos e Souza, no ano de 1779, para dar início ao governo mais celebrado pelos historiadores, antes de D. João VI elevar a capital da colônia à do Reino Unido do Brasil, Portugal e Algarves, tornando-a o centro do poder imperial lusitano. Logo de cara, ele se deslumbrou com o quadro maravilhoso da natureza, a lhe oferecer um painel de sonho.

Mas se horrorizou com “a mancha brutal na paisagem radiosa”, no dizer de outro Luís, o Edmundo, autor de O Rio de Janeiro no tempo dos vice-reis. O conjunto exasperava. Para piorar, Luís de Vasconcelos constatou que os colonos portugueses não estavam ali para fazer um país, mas para se enriquecerem rapidamente, “nem que para isso tivessem de arrasar a terra”, como chegou a escrever ao seu rei, D. Pedro III, o Edificador.

A situação deplorável do Rio não o levou a tapar o nariz e dar-lhe as costas. Pôs-se nele a andar, já com planos de embelezamento do espaço urbano, abertura de avenidas e saneamento de suas condições insalubres.

Jovem, galante, dinâmico e humanitário, condoeu-se com a sorte dos escravos, que eram castigados pelos seus senhores com exagerado rigor. Ele proibiu a aplicação da justiça a domicílio, passando-a à alçada do Estado.

Suas andanças o levaram à pestilenta Lagoa do Boqueirão da Ajuda, uma verdadeira chaga encravada na cidade, tendo nas suas cercanias apenas casebres miseráveis. Para o espanto geral, o vice-rei era frequentemente visto caminhando a pé pelas margens infectas da lagoa, acompanhado de Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim.

No imaginário popular, a assiduidade de Luís de Vasconcelos e Souza àquelas bandas tinha razões que só o seu coração podia explicar. Ele estava perdido de amor por uma moça bonita chamada Susana, que vivia numa paupérrima choupana à beira do Boqueirão, com um coqueiro solitário à porta.   

Escondendo-se por trás de uma moita, o senhor vice-rei a contemplava à distância, adorando-a platonicamente. Esse amor secreto o teria levado à decisão de aterrar a lagoa.

O aterro foi confiado ao Mestre Valentim, que arborizou toda a área. Também fez um jardim, no qual colocou pavilhões fechados, com murais e muitas obras de arte, entre elas a Fonte dos Amores. Para esta, ele fundiu dois jacarés de bronze entrelaçados. Por ordens do apaixonado vice-rei, Valentim pôs nessa fonte um coqueiro de ferro. Era uma reprodução daquele que havia à porta da bela Susana, a musa inspiradora do Passeio Público do Rio de Janeiro, que em tempos menos perigosos deve ter sido um lugar tranquilo para os namorados.

Resta-nos imaginar se a paixão do vice-rei pela beldade plebeia teve ou não um final de conto de fadas.

 

 

O escritor brasileiro Antônio Torres (Bahia, 1940) é romancista, contista e cronista, autor de 17 livros, entre os quais se destaca a trilogia formada por Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, publicada em Portugal pela Editora Teodolito. Sua obra tem conquistado inúmeros prêmios no Brasil e traduções em vários países. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira fundada por Machado de Assis, Antônio Torres é também sócio correspondente lusófono da Academia de Ciências de Lisboa.

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