ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Álvaro José Silva


Prefácio a Quando o penedo falava, de Elpídio Pimentel    

No ano em que o jornalista, advogado e professor Elpídio Pimentel resolveu escrever Quando o Penedo falava, já era uma personalidade conhecida no mundo das letras do Espírito Santo. Tinha então 33 anos de idade, ainda residia em Vitória e talvez se preparasse para a mudança ao Rio de Janeiro, a então capital do Brasil. Ele lutava para ajudar seu estado a vencer carências literárias profundas e, dentre elas, a de não ter ainda uma literatura própria, substanciosa e dirigida ao estudante de primeiro grau, aquele que se inicia nos estudos cheio de sonhos. Esse estudante era o alvo e a preocupação de Pimentel, membro fundador da Academia Espírito-santense de Letras (AEL) e instrutor dessas pessoinhas...

Naquela época, a de seu livro destinado aos pequenos estudantes, ele já sabia o que era o Brasil de 105 anos passados da Independência. Um país onde o professor não tinha valor, o político não tinha honra e as esperanças geralmente morriam cedo. Ontem como hoje, tudo igual. Aliás, devo corrigir: igual, não, pior!

O menino Glauro, de dez anos, teve a sorte de ter como avô um homem digno e ilustrado. Capaz de esgotar todas as histórias da época voltada aos pré-adolescentes e, depois disso, decidir dedicar ao netinho a maior e melhor de todas elas: a de seu estado natal. A do dia em que as entranhas do Penedo foram abertas para que lá de dentro de nosso rochedo mais querido saísse, por intermédio de um homem imenso, a narrativa de como se formou o solo espírito-santense. E dessa vez não em escritas de cariocas, mineiros, paulistas e outros “patrocinadores” da cultura do Brasil.

Elpídio teve esse dom, o de criar um personagem rochedo habitado por uma entidade sobrenatural para narrar. E fazer isso contando a mais bonita das histórias já ouvidas por uma criança de dez anos e, na primeira edição, com esse texto de aviso daquele habitante do Penedo: “Has de vêr como é ella interessante e util, instruindo-te e alegrando-te o espirito ; mas – fica bem avisado – si disseres a alguem que existo, nunca mais os teus olhos me verão”.

Obviamente a garotada de hoje, bem como os adultos que também vão se deliciar com essas páginas, preferem o português moderno. Esse que já passou por várias reformas ortográficas, na maioria dos casos, dizem os autores, para nos aproximar mais dos portugueses, os verdadeiros donos da língua portuguesa. E também porque a meninada não vai poder se comunicar em linguagem escrita como isso era feito em 1927...

Então foi necessário pedir ao acadêmico Fernando Achiamé, um grande admirador das coisas do estado, que trouxesse a história para 2020. Mas respeitando o fato de que em 1927 andava-se de bonde, a população total do Espírito Santo não chegava a meio milhão de habitantes (ou almas...) e vários municípios tinham nomes diferentes (Pau Gigante e São Pedro de Itabapoana, citando apenas dois), bem como alguns atuais nem sequer existiam. Além disso nosso governador era chamado de presidente do estado.

Mas a garotada vai amar a história. Vai recuar quase um século à época de Florentino Avidos, o maior de todos os governadores capixabas para, a partir dessa história, entender o presente e imaginar o futuro depois de mergulhar no passado diante de seus olhos.

Elpídio Pimentel preferiu – e nós respeitamos sua preferência – dividir a obra em capítulos, chamando cada um deles de “Narrativa”. Assim vem a primeira, a segunda, terceira e segue o texto até a décima. E a divisão se dá como era importante em um livro feito para estudantes e, como diz a primeira edição, "“adoptado em todas as escolas primarias, do Estado, por acto do governo”. No curso da leitura a meninada iria sabendo, como soube, não apenas da estrutura de poder do Espírito Santo de então, mas também do principal de sua constituição como naturalidade.

Afinal, ao contrário dos livros didáticos de antes deste, escritos fora daqui e por pessoas que não conheciam nossa história da forma completa como deveriam, agora eles estariam em contato com um autor filho da terra, amante dela e estudioso de suas coisas.

Aqui, faço questão de explicar melhor: o escritor era natural da Serra, tendo nascido em 14 de setembro de 1894. Havia sido delegado do estado no 4º Congresso Nacional de Instrução Superior e Secundária realizado no Rio de Janeiro, em 1922. Dirigia o jornal Diário da Manhã, órgão oficial do Estado e também a revista Vida Capichaba, que durante décadas foi uma referência no Espírito Santo.

Antes de seu livro dedicado aos estudantes, havia publicado: Um punhado de Galicismo (tese), em 1917; Origem e evolução da linguagem (tese), 1922; Noções de literatura, 1922; Postilas pedagógicas, 1923 e Catálogo florestal e álbum do Espírito Santo, em coautoria [1922?]. Estava, portanto, verdadeiramente preparado para fazer sua maior obra literário-pedagógica e endereçá-la aos seus pequeninos.

Mas não foi somente isso. Entre 1934 e 1936 atuou gratuitamente servindo ao Governo Federal na Junta de Conciliação do Espírito Santo, um órgão auxiliar da Inspetoria Regional do Trabalho. Também foi professor de português e literatura da Escola Normal D. Pedro II e, em 1939, então já residindo no Rio de Janeiro, fez parte do corpo docente do Colégio Pedro II como professor de português.

Em 1954 acabou nomeado Diretor de Administração do DASP, o antigo Departamento Administrativo do Serviço Público. Ainda em 1954 foi eleito membro vitalício da Federação das Academias de Letras do Brasil. No Instituto Cultural do Museu Naval da Guanabara recebeu a Ordem Albatroz no grau de Comendador. E na antiga capital do Brasil viveu até sua morte, em 19 de outubro de 1971, aos 77 anos.

Em 2021, quando for comemorado o Centenário da Academia Espírito-santense de Letras, também estará sendo marcado o cinquentenário do falecimento desse acadêmico, o primeiro ocupante da Cadeira de Número 12, que tem como patrono Gonçalo Soares da França, um sacerdote e vereador que viveu no Espírito Santo em parte dos séculos XVII e XVIII.

Será então tempo propício para que os meninos e meninas se recordem do Elpídio narrador e seu neto Glauro. Porque o avozinho dele, com promessas como bolas de borracha para que prestasse atenção aos fatos narrados, contou-lhe histórias como a mudança brasileira da Monarquia para a República – na visão de um republicano! –, e de termos que são comuns até hoje nas designações de assuntos ligados à administração pública e no dia a dia, com destaque para alguns fatos caros a nós.

Um destes citados pelo avozinho foi o episódio da Insurreição do Queimado, de 1849, relatada e com o netinho se recordando de ter visto a igreja próxima à “Fazenda Peráo” numa incursão escolar. A revolta de negros escravos, de tantas havidas no Brasil, e que serviram como combustível para a extinção da escravatura brasileira.

Também entrou nas explicações o surgimento dos primeiros jornais e revistas do Espírito Santo. Eram diários, semanais, quinzenais ou de outras periodicidades, de Vitória ou de cidades do interior, numa época em que o desejo de o cidadão conhecer os fatos que o cercavam começava a se tornar mais intenso, sobretudo entre os mais cultos.

A narrativa de Pimentel, ou do avô dirigida ao neto, revela muitas coisas de interesse para nós e que, na década de 1920, eram inéditas em livros didáticos. Isso além do vocabulário de então e que permitia ao autor, por exemplo, chamar quem estava cochilando de “amadornado”. Pela ordem em que os fatos são apresentados ao pequeno Glauro, desfilam pelas páginas de Penedo os tempos de Colônia, o Sete de Setembro, a Junta Governativa e o nosso herói Domingos José Martins, morto na Bahia.

Mas o narrador recua no tempo. Então surgem as capitanias, os capitães-mores, o milagre de Nossa Senhora e a também heroína Maria Ortiz. Na sequência une-se à narrativa a governadora Luiza Grinalda que a acadêmica Bernadete Lyra tão bem retratou no livro A Capitoa, Vasco Fernandes Coutinho, as histórias das inúmeras revoltas indígenas que marcaram o início da colonização do atual estado por suas duas capitais, frei Pedro Palácios e outros mais. Todos importantes e citados nominalmente, juntamente com seus cargos e atividades que exerceram nos quase cinco séculos da história do Estado do Espírito Santo.

Em certo momento, passando de uma “Narrativa” para outra, o vovozinho ilustrado decide ir com o menino para passearem pela Vila do Espírito Santo, ou Vila Velha. Saem, pegam a catraia até Paul de onde vão de bonde ao seu destino de passeio e de onde, depois de matarem todas as saudades, retornam a Vitória. Um texto escrito numa época em que nem sequer a Ponte Florentino Avidos, as Cinco Pontes, ainda havia sido completada pelo governador de então.

É preciso ler o livro tendo em vista esse ponto: o tempo em que ele foi escrito. Por isso foi importante a manutenção, no texto adaptado ao nosso português atual, das ementas originais. Temos a de Paes Barreto, ressaltando a importância estudantil do relato e a de Aristóbulo Barbosa Leão, na qual o professor se mostra preocupado com o fato de o livro conter o relato dos amores de dona Ana Vaz com o donatário Vasco Fernandes Coutinho o que, segundo ele, se lido em sala de aula para mentes tão jovens, poderia ensejar comentários jocosos ou coisa parecida. Não podemos nos esquecer de que estamos em 1927, quando a obra didática foi indicada a todas as escolas do estado.

Ora, vamos imaginar por algum instante, pois em ficção tudo é possível, sobretudo quando ela se destina às mentes infantis, que nessa ocasião Glauro realmente existisse e tivesse dez anos de idade. Teria de ter nascido em 1917. Vivendo muito bem morreria aos 85 anos, em 2002. Tivesse ele tido um filho aos 33 anos, o que seria normal em nossa época, este nasceria em 1950. Agora seu filho estaria aos 70 anos de idade, em condições de se sentar diante de um neto de dez anos, mostrar o livro do avô de um e bisavô de outro e perguntar se, além de ler o texto original, o menino também gostaria de conhecer o restante da história do estado para colocar o relato em seu smartphone e levar para o colégio, onde poderia dividi-lo com os coleguinhas. Que tal?

Se o novo garoto achasse interessante esse relato, saltaria do governo Florentino Avidos para o de Renato Casagrande. Em termos temporais é muito pouca coisa diante dos quase cinco séculos de colonização capixaba contidos no relato original. Mas em termos de desenvolvimento científico o salto é imenso.

Quem se habilita a dar esse pulo no tempo?

Setembro/2020

 

Álvaro José Silva: jornalista e escritor

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