ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Adrian’dos Delima


"Pretos de peleia", de Renato de Mattos Motta: um épico moderno e micro-histórico    

“Pretos de peleia - Cantos de um Brasil que a História tentou esquecer”, texto do poeta Renato de Mattos Motta publicado em livro de belíssima arte gráfica e ilustrado por xilogravuras criadas pelo próprio autor, se propõe a contar em verso a sempre mal contada história, recontar, no caso. À parte o estigma do termo, podia se chamar de obra “revisionista”. Revê, no caso, a história do negro no sul do Brasil do ponto de vista deste, do perdedor, oprimido, reprimido, enganado, explorado.

Pode parecer uma obviedade que a história do negro no Brasil (assim como a dos povos nativos) nunca foi contada direito. Sabemos, mas é preciso ver ao microscópio a realidade. É isso que “Pretos de Peleia” nos permite fazer: repassar a micro-história. Começa por pintar outro plano de fundo com o que poderíamos, se quiséssemos, chamar de poema-introdução, “Paisagem”, que retrata as charqueadas da antiga Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, atual estado do Rio Grande do Sul, local onde se ambientará a narrativa inteira. Vale ler o trecho inteiro:

morte monta montes moscas a voar
charqueada carne que seca em varal
gangrena apodrece a água e o ar
sal que seca tudo, terra de sal
saga da salga, da sanga de sangue,
seiva da vida pelo chão a escoar
lama da morte, carniça faz mangue
morte monta montes moscas a voar

 

Um texto bem moderno para contar uma história tão velha como a exploração do negro. A pontuação escassa lembra Guillaume Apollinaire e Blaise Cendrars: “morte monta montes moscas a voar”, pura composição cubista, como diria Caetano Veloso.

Porém, a obra não prossegue bem assim. Pode ser um texto difícil de se falar, porque não é todo dia que nos deparamos com o que pretende ser um longo poema narrativo que ocupa um livro inteiro. Ou seriam poemas separados que narram histórias? Não tenho a resposta, embora seja evidente que “Pretos de Peleia” não é um “armazém de poemas”, usando o dizer de João Cabral de Melo Neto, é uma longa obra com uma unidade. Hoje em dia, estamos acostumados a poemas curtos e sem conexão temática com outros. Haicai é moda. Embora, conforme Ezra Pound (e concordo), boa poesia tenha a ver com concentração, isso não significa termos sempre um poema brevíssimo ou breve, menos ainda um poema fácil.

Confesso que, da minha parte, só conheço, raros cantos e trechos isolados de criações magistrais como a “Odisseia” e “Os Lusíadas”, sendo esta última escrita na minha língua nativa e não havendo, portanto, empecilhos para a sua leitura. Entre outros poemas narrativos que li, tive, no entanto, a oportunidade de ler “Morte e vida severina” e “Martín Fierro” que, conforme o próprio autor, estão entre os textos que emolduraram um pouco o nosso “Pretos de Peleia”. Poemas em linguagem popular e versos simples metricamente.

O livro de Renato, porém, é mais complexo nas rimas, que estão sempre presentes ali. Rimas no sentido amplo da palavra, como definiu Maiakovski. Paranomásia de Jakobson. As rimas do livro foram bem estudadas por Sidnei Schneider na sua orelha, que cita muitos exemplos e as classifica. Estas podem, já, causar algum estranhamento no refrão com que começa a se desenrolar a ação propriamente dita do primeiro canto – sim, tem refrão! Renato rima “ivo” com “avo”, apesar de usar também rimas tradicionais como “sal” com “mal”:

meu sangue salgou o sal
minha carne, charque vivo
não sabe o que é o mal
quem nunca viveu escravo

Canto 1, O General Manuel Padeiro

E quem pode dizer que “carne’ não está rimando com “charque”? Só porque as palavras não estão em finais de verso? Seguindo o que dizia Maiakovski, já citado, temos aqui uma rima.

É um refrão rico, verbo que fica na memória após a leitura e não se torna chato ou redundante pela repetição. Cantou Nei Lisboa que “Ninguém precisa inventar refrão/ [...]/ Pra que se repetir tudo de novo/ Fazer poesia não é botar ovo”. Acho que, embora o cantor/compositor aqui referido pareça ter razão, em um certo sentido, ele estava pensando no poema curto – no caso, poema em forma de canção. No poema longo, ou obra poética longa, o uso do refrão me parece uma argamassa muito boa. Como a rima une os versos, fazendo um remeter a outro, o refrão, neste tipo de obra, nos ajuda a lembrar das estrofes anteriores. O autor pretendeu com o refrão, na verdade, descrever o pensamento recorrente de um homem que está sendo torturado. Conseguiu.

O esquema métrico, como o dos poemas que influenciaram o livro, é mais simples. A obra poética orbita em torno das sete sílabas do início ao fim. No Canto 2, “Farrapo preto (Jorge de Ogum, lanceiro negro), há trechos de quatro sílabas. No geral, mesmo quando Renato parece usar um verso longo, “bárbaro”, como no Canto 1 em sua parte IV – “Canto de Marcelina”, ele está, simplesmente, unindo duas redondilhas maiores:

pra contar felicidade, vou falar de Marcelina
não foi fácil, é verdade, viver co’ que a gente tinha

Vejam este “co’ que a gente tinha”... Essa supressão do “m” de “com”, e do artigo “o”, formando elisão, semelhante ao que ocorre na fala popular, é um recurso reiterado na obra, que de mais a mais, busca sempre uma proximidade com a oralidade. Esse uso do “com + o”, altera a métrica, obviamente. Se o poeta escrevesse “viver com o que a gente tinha”, teríamos uma sílaba a mais.

Voltando ao estrutural e ao temático, embora não seja um poema épico tradicional, “Pretos de Peleia” é um poema heroico dividido em cantos. Canta o heroísmo, a coragem do negro escravo, quilombola, guerreiro, em uma narrativa não totalmente linear.

O protagonista do Canto 1, que desfila entre outros personagens reais como ele, inclusive femininos, não secundários nem na vida nem no poema, é o líder negro Manuel Padeiro, que formou um grupo de resistência contra a escravidão chamado pejorativamente de “bando” pelos seus inimigos, grupo que circulou próximo do centro econômico da cidade gaúcha de Pelotas, extremo sul brasileiro. Uma espécie de quilombo móvel que travou uma guerra de movimento, atacando fazendas para recolher mantimentos, armas e mulheres negras. Provavelmente, o grupo acaba antes da “Revolução Farroupilha”, tratada no Canto 2 do poema, bem como provavelmente antes da revolução morrem ou desaparecem os seus membros, entre eles o Padeiro, de quem não se ouviu mais notícia. Tais informações decorrem da pesquisa bibliográfica aprofundada realizada pelo próprio poeta Renato.

No texto poético, o personagem Manuel Padeiro vive também situações fictícias, naturalmente. Mas o retrato histórico da escravidão e da busca da liberdade – e mesmo do amor! – pelos escravos não podia ser mais verdadeiro.

Já Jorge de Ogum, protagonista do Canto 2, é um personagem totalmente ficcional, protegido de Ogum, orixá da guerra. É um soldado pertencente aos chamados “Lanceiros negros”, corpos de lanceiros constituídos, basicamente, de negros livres ou libertos pela revolucionária República Rio-Grandense. Este canto se ambienta, inicialmente, no Cerro de Porongos, em novembro de 1844, localidade e data em que se deu o infame massacre que marcaria o final da Revolução Farroupilha, a qual tinha entre as propostas, além de estabelecer uma república ao sul do Império do Brasil, a libertação dos escravos.

A chacina pode ter sido resultado de um acordo entre um dos derradeiros chefes dos revolucionários, mantidos por grandes fazendeiros donos de escravos, David Canabarro, com o comandante do exército imperial, Barão de Caxias, posteriormente declarado duque e patrono do exército brasileiro. Sem dúvida, nas palavras do historiador pop Eduardo Bueno, “O único ponto controverso da paz firmada entre Caxias e farroupilhas, a liberdade dos escravos que lutaram com os rebeldes, foi resolvido de forma pragmática e cruel: o batalhão dos chamados Lanceiros Negros, desarmado por seu comandante, Davi Canabarro, foi massacrado em novembro de 1844, em Porongos”.

Jorge de Ogum, assim como todos os personagens do grupo de Manuel Padeiro, no entanto, significa sublimação. Eles simbolizam liberdade para os escravos. Jorge transcende o triste fim dos lanceiros. Some e atinge um status de santo. Mera ficção. Mas pura realidade, como todo o livro. Realidade ainda difícil de admitir, para alguns. Totalmente verossímil, mesmo quando mística, pois assim sendo respeita elementos fundamentais da cultura de base africana no Brasil. Pura micro-história, feito romance histórico em versos.

 

 

Adrian’dos Delima (Canoas, RS), pseudônimo para Adriano do Carmo Flores de Lima, é poeta, tradutor, teórico de poesia e compositor. Cursou Letras, habilitação Tradução na UFRGS. Na década de 1990 publicou poemas em antologias e fanzines fotocopiados que editou com amigos, além de editar e publicar no jornal “Falares”, dos estudantes de letras da UFRGS. Posteriormente publicou em revistas de papel e online, como a “Germina”, a “Babel Poética”, “Gente de Palavra”, “InComunidade”, “Sibila”, “Mallarmargens”, “Diversos Afins”, “Subversa”, “Literatura & Fechadura”, "Sepé" e outras. Publica, sem muita regularidade, traduções e poemas próprios na sua página Rim&via (partidodoritmo.blogspot.com.br) e no Facebook Adrian’dos Delima.É autor dos livros de poesia “Consubstantdjetivos ComUns” (Vidráguas e Gente de Palavra, 2015) , “Flâmula e outros poemas” (Gente de Palavra, 2015) e “O aqui fora olholhante” (Vidráguas, 2017). Traduziu poemas de Joan Brossa para a Revista “Gueto”.

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