ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Angela Maria Zanirato Salomão


A nós descei    

Mãos de tesoura!

Dedos de escultora!

Olhos de águia!

Minha mãe costurava para prostitutas.

Minha mãe costurava para as putas/as rameiras/as vadias/as vagabundas/as desvalidas.

- Minha mãe costurava para as mulheres do cabaré: Antonieta, Eni, Julieta, Catarina cintura fina, Miss Gardênia e outras ...

Eram vaidosas, pagavam em dia e cada final de semana era um vestido novo para usar no trabalho.

Minha mãe costurava vestidos que ela mesma desenhava. A maioria era curto... se fosse mais comprido, tinha fendas e os decotes eram generosos. Eu cheguei a ser modelo ao experimentar os vestidos dessas madames.

A maioria dos vestidos era vermelho, com rendas, laços e bordados em pedraria. As lojas não gostavam de vender para elas. A ida das mulheres da chamada "vida fácil" ao comércio da cidade causava frisson aos proprietários de lojas de calçados, roupas, lingeries e outros produtos.

Quando minha mãe atendeu a primeira prostituta, ficou comovida com a história: havia sido colocada para fora de casa por ter tido relações sexuais com o namorado. Naquela época as moças ditas como perdidas ou iam para o convento ou para a zona. Julieta optou pela zona. Indo morar na cidade, nasceu a relação cliente e costureira. Outras mulheres do Cabaré foram buscar a costura de minha mãe e ela já nem precisava mais costurar para as beatas da cidade.

Um dia, uma recém-chegada ao cabaré chegou correndo e chorando em casa. Contou que sua filha de 16 anos tinha feito um parto difícil e que o bebê morrera. Ela queria um vestido de anjo para enterrar a criança. Ela enfatizou bem a cor: quero um vermelho! Minha mãe ficou chocada, mas tinha um resto de um cetim cor de carmim e fez a túnica enquanto entoava canções de ninar. Nem cobrou pelo serviço.

No dia seguinte vimos o pequeno enterro passar perto de casa. Só as mulheres do cabaré marcaram presença e entoavam o cântico “a nós descei divina luz”.

Minha mãe derrubou uma lágrima.

Minha mãe passou a costurar para prostitutas e anjos.

 

 

Angela Maria Zanirato Salomão

Professora de História, Pós-Graduada pela UNESP de Assis e pela UEM, Maringá.

Participou do Mapa Cultural Paulista versão 2015/ 2016, onde foi classificada para a fase final na modalidade conto. Participa da Associação de Escritores e Poetas de Paraguaçu Paulista- APEP. Tem poemas publicados em três Antologias: “Um olhar Sobre” coletânea da APEP em 2014, “Filhas de Maria e Valentim”, 2015 e “Um Olhar Sobre”, coletânea da APEP 2017. Possui poemas publicados nos sites Blocos Online, Parol, Movimiento Poetas del Mundo, Antologia do Mapa Cultural Paulista edição 2015/2016, versão ebook, Revista de Ouro, Revista Ver-O-Poema,  InComunidade e Revista Mallamargens.

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