ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Afetos    

A pandemia vem mudando as pessoas. Ficar fechado dentro de casa, muitas vezes isolado, faz com que percamos o traquejo nos relacionamentos sociais. Tenho observado com curiosidade certo exagero nas reações, o ser humano vem se tornando mais susceptível, facilmente é capaz de reagir fora do razoável. De repente, assim meio sem perceber, encontrei-me gastando parte de meu tempo procurando os viventes de meu convívio mais próximo, justificando atitudes dos outros, tentando impedir rompimentos. É uma característica minha, não sei se boa ou ruim, a de tentar manter os amigos próximos convivendo dentro de limites adequados, preocupo-me quando percebo estarem estremecidos uns com os outros. Acabo mergulhado em negociações às vezes complicadas. Falo com um, procuro o possível desafeto, justifico a atitude do primeiro e vice-versa, fico feliz quando percebo estarem novamente se falando, dificuldades superadas. E quando analiso as razões do estremecimento encontro, invariavelmente, relevância de pouca monta, carências afetivas, ausência de um olhar um pouco mais cuidadoso, carinhos parecem ser esperados em maior dose. Um abraço, mesmo que simulado à distância, palavra gentil, elogio, tudo isso tem feito falta, as gentes ao meu redor parem ter regredido, anseiam por serem mimadas.

Estranho estarmos aqui pensando a metafísica do afeto. Contudo, visto perceber certo desequilíbrio nas atitudes, tendência a mágoas extemporâneas, creio ser importante analisarmos as razões, mesmo sendo tênues, para o acréscimo de estremecimentos, mal-estares, rancores.

Uma palavra talvez justifique as nuvens chuvosas sobre as amizades: sofrência. O cotidiano permeado pelo constante medo de contrairmos enfermidade fatal tem nos debilitado. Metemos os pés pelas mãos, assustados, alguma coisa dentre de nós frequentemente se quebra, é solitário pensar tanto em nossa própria finitude. Não fomos feitos para viver preocupados com a morte. A higiene extrema necessária, finalizada depois do sabonete com álcool gel, nos faz retornar invariavelmente ao mesmo tema: precisamos nos proteger, alguém pode nos infectar. Tudo isso nos faz ásperos.

Nas raras vezes em que saímos às ruas o desconforto das máscaras nos alerta para o perigo iminente. De certa forma os rostos cobertos dão relevo maior aos olhos. E eles nos observam desconfiados, escondidos, assustadoramente contidos. Os exteriores passam a impressão de estarem mais silenciosos. Incógnitas sentimos o mistério ao nosso redor. Não há mais encontros nas calçadas, balcões, pracinhas. Atrás dos panos estamos totalmente solitários. As identidades escondidas não nos permitem espontaneidade. Os sorrisos estão mais nos lábios cobertos, menos no olhar. Sobram contenção e medo. Pior, culpamos o outro por nossa situação. Se fossem mais responsáveis, seguissem os protocolos à risca, acreditassem efetivamente nos riscos escondidos em cada esquina, não teríamos superado 150.000 mortes. É deles, nossos vizinhos, toda a culpa. Por que preciso ser manso, engolir sapos, se a vida já me tem cobrado tanto?

Mergulhados nostalgicamente na falta de abraços, beijos, e até apertos de mão, sentimos a dor do abandono.

Ontem, mais uma vez, encontrei meu irmão. Roçamos os cotovelos nos cumprimentando. Não há afeto na aspereza insensível da dobradiça de um braço. A saudade continuou presente, mesmo ele estando ali. Entregou-me um documento que precisava assinar, subiu no carro, foi embora. Tomei o elevador esfregando as mãos molhadas uma na outra, o cheiro de cachaça tomando o ambiente, lembrando festa. Não era. Apenas material de limpeza e esterilização. Cheguei em casa, passei pelo quarto de minha mãe deitada, dormindo. Estirei-me também na cama, peguei um livro. A vida em câmera lenta. Mais tarde estive presente em mais uma live. Presente?

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior.  Professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Paginação:

Nuno Baptista


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