ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Caio Junqueira Maciel


"O espelho", de Machado de Assis: um conto de farda    

“O espelho” é um dos doze contos que fazem parte do livro Papéis avulsos, de 1882. Trata-se, portanto, da primeira coletânea de narrativas curtas publicada no contexto da fase madura ou dita “realista” de Machado de Assis (1839-1908), levando em consideração que no ano anterior veio a lume o romance Memórias póstumas de Brás Cubas, que inaugura essa nova fase machadiana.

         Na advertência do livro, Machado recorre a uma metáfora de paternidade para caracterizar a aparente diversidade desses doze textos: “São pessoas de uma só família, que a obrigação do pai faz sentar à mesma mesa.” Não é difícil perceber uma analogia com Cristo e seus doze apóstolos na última ceia. O intertexto bíblico se faz presente desde a nota introdutória, onde há citação do evangelista São João sobre a besta apocalíptica, afirmando que “aqui tem há sentido, que tem sabedoria”; o conto “Na arca” é uma paródia do que ocorre com Noé e seus filhos, após o Dilúvio; e é possível perceber, no último conto, “Verba testamentária”, uma certa identidade entre o protagonista Nicolau e o traidor Judas.

         “O espelho”, estruturado basicamente num diálogo entre o protagonista e seus ouvintes, é uma narrativa que sustenta uma teoria (a de que temos alma interior e exterior), perpassada por uma ironia satírica que não perdoa a filosofia, a política e a ciência. O subtítulo da narrativa é “Esboço de uma nova teoria da alma humana.”

         Se designo essa abordagem sob o título trocadilhesco de “conto de farda”, é que jogo com a farda do alferes (antigo posto militar) e me apoio em uma passagem em que o protagonista Jacobina, após sentir que perdera sua alma exterior, isolado que estava em um sítio, cita, em francês, uma frase de Charles Perrault (1628-1703), célebre autor de contos de fadas. A frase é esta: “Soeur Anne, Soeur Anne, ne vois-tu rien venir?” (p.170), cuja tradução é: “Irmã Ana, irmã Ana, não vês nada vir?” O trecho é da narrativa “O Barba Azul”, e a frase é enunciada pela esposa do famigerado assassino, indagando à irmã sobre os seus irmãos que viriam para salvá-la da ameaça de morte. Jacobina não vê ninguém chegar ao sítio, busca escrever textos literários para livrar-se do medo. A sentença de Perrault gira em sua mente assim como o tic-tac do relógio que lhe traz um verso do poeta americano Longfellow (1807-1882) “Never, for ever!  - For ever, never!” (p.169), ou seja, “Nunca, para sempre! Para sempre, nunca!”. Esse verso tem estrutura espelhada, ratificando o título do conto. O espelho antigo que há no sítio da tia de Jacobina reflete sua imagem esvanecida, à medida em que sua solidão aumenta. Mas, ao usar a farda imponente e vistosa de alferes da Guarda Nacional (milícia criada pela oligarquia escravocrata em 1831), foi como se recuperasse a alma exterior e sua imagem aparece nítida no espelho.

         Comentando o enredo, podemos observar que a narrativa inicia-se na terceira pessoa, enfocando cinco pessoas no bairro de Santa Teresa, do Rio de Janeiro. Eles debatem sobre a alma humana. Jacobina, que até então estava calado, instado pelos companheiros, decide desenvolver sua teoria sobre a existência de duas almas. Segundo sua teoria, a alma exterior pode ser um objeto, um homem, a pátria...E conta sua história: quando tinha 25 anos, era pobre, mas fora nomeado alferes da Guarda Nacional, provocando orgulho em seus familiares. Ganhara dos amigos a vistosa farda. Sua tia Marcolina (nome ligado à Marte, deus da guerra), viúva de um capitão, morava num sítio distante e solitário, e desejava muito ver seu sobrinho alferes. Jacobina vai e é muito bem recebido pela tia, que idealizava os militares. Em seu quarto é colocado um imponente espelho, peça que viera de Portugal, com a corte de D. João VI, em 1808. Esse detalhe não pode passar batido: a relação entre o objeto e a família real impõe uma conexão entre psicologia e história, um paralelismo entre o eu e a nação, como viu o ensaísta John  Gledson em sua obra Por um novo Machado de Assis.

Com todos os agrados recebidos, Jacobina sofre uma transformação: o alferes elimina o homem, como se depreende pelo texto: “Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no passado”. (p.167)

         Sucedeu que a tia Marcolina e o cunhado que morava com ela tiveram de viajar, para ver uma filha adoentada. Jacobina fica sozinho no sítio. Os escravos, que também paparicavam o alferes, acabaram por fugir. O alferes, então, se vê como um boneco, um defunto, sem conseguir escrever, sem mesmo enxergar a imagem no espelho. Antes que enlouquecesse de vez, tem a ideia de mirar-se no espelho usando a farda: “O vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa com a fuga dos escravos, ei-la recolhida no espelho. […] Não era mais um autômato, era um ente animado”. (p.171) Em relação a essa fuga dos escravos, John Gledson acena para a realidade brasileira nos tempos finais do Império.

         Jacobina, uma espécie de paródia de São Tomé, viu e acreditou. Fardado, atravessa mais seis dias de solidão, sem os sentir, pois tinha, agora, a companhia de sua alma exterior. E assim que findou sua história, sem esperar a opinião de seus atônitos companheiros, desce as escadas e parte.

         Quem é Jacobina? Pelo texto, sabemos que se trata de um homem de cinquenta anos, inteligente, cáustico, capitalista. Na juventude, era tratado por Joãozinho. Não tinha pai; a mãe e os primos tinham orgulho de sua patente, mas isso causava inveja em muita gente: “Na vila, nota-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura”. (p.165) De fato, há várias passagens bíblicas em que é recorrente essa expressão. Cito apenas uma, extraída do Evangelho de Lucas, 13:28: “Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.”

         Na linguagem do narrador, o texto bíblico, isto é, a Escritura do Pai, a voz da autoridade maior, ratifica a importância de um título, que será corroborada pela farda, condão que possibilita a farsa do poder. Há, ainda, outra passagem em que a Bíblia é evocada: ao falar de certa senhora que muda a alma exterior várias vezes por ano (como a protagonista do conto “D.Benedita”), Jacobina afirma que o nome dela era Legião, assim como se lê no episódio do endemoniado, em Marcos, 5:9: “Todavia, Jesus o interrogou: ‘Qual é o teu nome?’ Respondeu ele: ‘Meu nome é Legião, porque somos muitos’”. O ensaísta André Luís Rodrigues, em seu texto “Um jogo de espelhos ou Jacobina desce aos infernos”, afirma que Jacobina, ao viver mais da aparência do que da essência, presta-se a um tipo de endemoninhamento capitalista: “No mundo capitalista, o homem não só vende a sua alma ao demônio como é ele que paga adiantado.” (RODRIGUES, 2006:249)

         Por sua vez, o crítico Augusto Meyer cunha a expressão “alferismo inebriante” para caracterizar a alma exterior de Jacobina, cuja farda é “rutilante de ilusões e agaloada de vaidades”. Acrescenta Meyer que “a farda representa, para ele, uma sublimação de si mesmo. […] Ora, Jacobina somos nós. Botamos a farda e representamos a paródia do nosso eu autêntico – não na vida profunda do espírito, que anda quase sempre fardado.” (MEYER: 1975: 65)

         Deixamos para o final a questão do nome de Jacobina. Pode ser associado a “jacobinismo”: o republicanismo radical da revolução francesa. Jacobina é também um terreno de cascalhos, impróprio para lavoura; é partidário radical da democracia; é nacionalista extremado e inimigo de estrangeiros. Também se associa ao nome de Jacó, que significa astucioso, enganador. André Luís Rodrigues atenta para a etimologia da palavra “espelho”, que relaciona-se à especulação, como também a de “Jacobina”: “[…] uma das ironias mais terríveis de Machado é atribuição ao personagem do nome de Jacobina. Os intransigentes revolucionários surgem surgem assim no nome daquele que encarna a aceitação passiva do status quo, de que, por sinal, tira largo proveito.” (RODRIGUES, 2006: 248)

         Também não é fora de propósito observar que o dicionário registra o termo “alferesia”, epilepsia infantil. Machado era epiléptico, não teria ele aproveitado dessa doença nervosa que provoca distúrbios na consciência como assunto incidente do conto, cujo sentido, evidentemente, está além de um retrato naturalista da enfermidade? A questão ultrapassa o fisiologismo, mescla o psicológico, o histórico, o político e o social, tudo no tempero da sátira e da ironia. Esse é o afiado Machado de Assis.

Referências bibliográficas:

Machado de Assis. Papéis avulsos. Rio de Janeiro: Garnier, 2006.

John Gledson: Por um novo Machado de Assis. São Paulo: Companhia das Letras, 2006,

Augusto Meyer: Machado de Assis. Rio de Janeiro: Presença, 1975.

André Luís Rodrigues. “Um jogo de espelhos ou Jacobina desce aos infernos”, in Teresa. Revista de Literatura Brasileira 6/7. São Paulo: USP, 2006.

 

 

Caio Junqueira Maciel é professor de literatura e escritor.

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