ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


A história do amor no jardim bifurcado    

Qual é a relação do pensamento quando cai o corpo? Ele entra num jardim circular onde cada pavimento de chão vai se dirigindo ao centro do jardim, o olhar é sempre reprimido pelas árvores que irmanam juntas fazendo deste: o lugar circular. Existe uma abertura na folhagem em cada volta que dá no jardim. Por isso a cada nova abertura nas folhagens, o homem deseja.

Como se a cada volta, o pensamento emergisse ao corpo fazendo o corpo ter ações de um objeto que o homem ainda não compreende, pois ainda se encontra perdido. Mas o corpo não pode agir, pois nas árvores há apenas frutos numa posição muito alta, e para isso o homem teria que subir, e portanto trair seu referencial enigmático que tem de posição de lugar. Entra em mais uma entrada nas folhagens e o desejo agora é de espera.

Que chegando lá, ele encontre ela, talvez colocando água num poço fundo, assim como a memória vai armazenando as circularidades por qual já passou. Ele pensa que este poço pode ter uma relação com esta camada densa de ramagens e folhagens, portanto ele admite que se existir uma mulher colocando água no poço, seu referencial estará perdido se não achar mais entradas, pois as ramagens com a água tendem a se fechar?  Ele encontra a penúltima passagem, só restando mais um pavimento do chão. Seu corpo está fremido de desejo e tensão, pois está sem beber água há muito tempo. É sabido que uma pergunta abre um contato amoroso entre desconhecidos, e ele pensa na pergunta que fará a mulher para conhecê-la.

Neste instante a mulher para de colocar água no poço. Talvez algo a tenha chamado sua atenção, ou uma parte de seu corpo tenha emitido um sinal fortuito. Tomada por desejo  abundante, a mulher toma a água do poço para se saciar. E vai se deslocando no espaço pequeno do poço, vai matizar-se as ramagens, aos poucos ela vai se incorporando à mata, o homem entra na última entrada e não sabe se o que toca é um pouco da tensão sexual que ali se está pelo jardim todo.

 

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


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