ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Carlos Eduardo Matos


SHOSHANA 2    

Vocês conhecem a continuação de Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas? Chama-se Vinte Anos Depois. Há ainda um terceiro livro na trilogia, O Visconde de Bragellone, que é o Pilatos do meu Credo. Numa comparação entre os dois primeiros, Os Três Mosqueteiros é infanto-juvenil, brilhante, colorido e efervescente, enquanto a continuação é meio cinza, mais adulta, mais séria, mais fiel aos fatos históricos. Também são assim os amores, perdem o brilho com o passar dos anos – e, quando os amantes têm sorte, como diria Drummond em Campo de Flores, e ganham de Deus ou do Diabo um amor no tempo de madureza, é porque o mereceram. No entanto, prosseguindo com Drummond, há que amar diferente um amor crepuscular. Costumo dizer que o tempo é uma pantera; pois bem, 20 anos é muita pantera reunida, todas afiando os dentinhos e as garrinhas. 

Tudo isso para dizer que reencontrei Shoshana no ano de graça de 1987, vinte anos depois de nosso delicioso (opinião minha) e tempestuoso (opinião generalizada) relacionamento. 

No início não a perdi de vista, tarefa facilitada por ela e o marido terem morado por algum tempo em São Paulo, onde eu vivia desde 1969. Depois do fim de seu casamento, ela voltou a Niterói e poucas vezes a reencontrei, mas as notícias sempre chegavam. Soube de um segundo casamento, igualmente desfeito em pouco tempo.  De minha parte, casei, passei mais de 3 anos na Europa, voltei, descasei, casei de novo, tive uma filha – tudo isso enquanto as panteras mostravam as garras e as presas.

Um reencontro perturbador ocorreu no início de 1972, quando voltei com minha namorada (e futura mulher) de uma viagem de férias na Europa. Desembarcamos no Galeão e fomos para Niterói. Passeando pelo Campo de São Bento, nos deparamos com uma exposição de arte organizada por Shoshana. Apresentações foram feitas, a conversa rolou tranquila, depois nos despedimos e continuamos a andar; pouco depois, um amigo da pinguinita chegou correndo, me chamou de lado e, esbaforido, tentou me segredar – na verdade, o elefante em loja de louça quase berrou – que Shoshana queria ficar comigo. Mais tarde, pra piorar tudo, ela ligou, bebaça, insistindo na proposta. É evidente que minha futura (e atualmente ex) mulher ouviu o suficiente pra ficar uma arara. 

O encontro clandestino (belo isso, não?) não se realizou, não tinha como. Mas foi o suficiente para comprovar que Shoshana continuava presente em minha vida, imprevisível e perigosa.  

Em 1986, quando eu trabalhava na Editora Rio Gráfica, brigas pelo poder no Editorial me lançaram de armas e bagagens na ponte aérea. Eu desembarcava no Santos Dumont no mínimo uma vez a cada 15 dias, ficava uns dois dias em reuniões e depois voltava a São Paulo. Claro que entrei imediatamente em contato com Shoshana.  No início de 1987, ela estava livre, leve e solta; já eu estava leve, mas nem livre, nem solto; apesar disso, não sentia um pinguinho de culpa por tentar conquistá-la ou, sejamos sinceros, seduzi-la. Era como se estivesse recuperando algo meu (a imagem é machista mas real). Só isso. Tudo isso.

A essa altura, para continuar a narrativa, recorro a um de meus filmes prediletos, O Ano Passado em Marienbad, de Alain Resnais. A trama de amor se desenrola em uma série de saltos no tempo e no espaço, mesclando cenários reais (para ele, para ela ou para os dois) e imaginários (para ele, para ela ou para os dois). É o que pretendo fazer em seguida. 

Primeiro cenário improvável: levei Shoshana a Paris para uma lua de mel de 5 dias. Isso quase me custou o emprego, mas valeu a pena. Segundo cenário improvável: consegui viajar a Buenos Aires a serviço e, claro, levei la pinguinita a tiracolo. Foi igualmente inesquecível. Terceiro cenário ainda mais improvável: ela e eu fomos abduzidos e mergulhamos de cabeça numa suruba com uma porrada de alienígenas. Terceiro cenário um pouco menos improvável:  ficamos em Niterói, onde ela ainda morava. Depois de minhas reuniões de trabalho – que, infelizmente, como expliquei, não tomavam mais que 2 dias –, eu a encontrava, falávamos (muito), bebíamos (muito) e transávamos (menos do que eu gostaria).

O que me lançou nessa marienbadagem toda foi uma falha na memória de Shoshana: descobri há alguns dias que ela simplesmente deletou grande parte do ano de 1987 de suas recordações. Especificamente, ela lembrava de ter me encontrado, mas não de ter transado comigo. Confesso, isso me causou uma profunda decepção. As panteras rolavam no chão de tanto rir.

Mas algumas memórias subsistiram. Em um de nossos primeiros encontros, estávamos na Praça XV, no Rio de Janeiro, os dois meio coisos, cheios de dedos, quando uma pomba cagou na minha cabeça. Ninguém consegue ficar enleado quando está coberto de merda, começamos a rir de tudo aquilo, e o gelo se quebrou. Ela lembra disso – mas, se pensa que fui ao Rio para ser esmerdeado, sem receber como recompensa um beijinho sequer, deve estar louca de pedra. 

Então, a partir daí, são os relatos de meu ano de 1987 em Marienbad. Quer dizer, em Niterói e no Rio de Janeiro.

Primeiro relato. Estávamos em Niterói, falando sobre o que fazíamos, eu todo pimpão com o jogo de sedução que me faziam na luta pelo poder na Rio Gráfica (que logo se transformaria na Editora Globo). Sem conseguir dar-me a dimensão do que estava fazendo, Shoshana, meio exasperada, sugeriu um passeio. Atravessamos a ponte Rio-Niterói e fomos ao Centro Cultural Banco do Brasil. Ela levou-me ao porão, e quase caí duro. Um rude aposento colonial, esquecido e negligenciado por séculos, havia se tornado uma encantadora cave, com peças de escultura e panos esvoaçantes. Era um espaço contemporâneo delicioso, que brotou por obra e graça de minha pinguinita. O local tinha ressonâncias da casa de Pendotiba, mas, na minha opinião nada imparcial, não chegava aos pés. 

Segundo relato. Casa de Shoshana, Niterói.  Conversamos durante horas. Ela me falou do nascimento de sua filha, do fim do seu casamento (nem lembro do nome do atleta) e que havia organizado uma exposição de fotos de si mesma, enquanto estava grávida. Lá pelas tantas, o filósofo francês Jacques Derrida entrou no local.

Estava no Rio e sentiu-se atraído pelo tema, declarou à expositora.
 
Sua presença despertou a admiração da tigrada e fez da exposição um enorme sucesso.

Ah, sim. Depois transamos adoidado.  

Terceiro relato. Centro do Rio. Fiquei de buscar minha musa no trabalho lá pelas seis, mas cheguei umas duas horas antes. Decidi fazer hora em um misto de boteco e restaurante, com uma atmosfera aconchegante. Paulistanamente, perguntei se era possível beber sem comer alguma coisa (em São Paulo, em muitos restaurantes não pode). Olharam-me como se eu estivesse louco. Claro que pode, mermão, respondeu o cara do balcão, com um sorriso largo. Nem bebi tanto assim. O suficiente para constatar que a happy hour no Rio de Janeiro começa bem antes das quatro; a rigor, nem começa, emenda com o almoço. E o suficiente para me apaixonar pelo centro da cidade.  Eu, claro, gostava do Rio de Janeiro, achava a vista da cidade a melhor coisa de Niterói, estudei na Faculdade de Direito da Universidade do Estado da Guanabara, que ficava no Catete, frequentei regularmente o restaurante Lamas e o Cinema Paissandu, mas o centrão, com seus botequins e bares que pareciam transplantados de Lisboa ou do Porto, era diferente. Era algo mágico. 

Quando peguei Shoshana, eu estava levemente embriagado e transbordando de amor não por ela, mas pela cidade. Terminamos jantando no centro mesmo, no restaurante Albamar (hoje Ancoramar, argh, uma aurora virou âncora), juntinho da baía de Guanabara.  Naquela noite não pecamos, mas foi inesquecível. 

Quarto relato. Motel no Rio. O nome passou batido, a decoração também, mas lembro da piscina no quarto, onde transamos que nem castores (coelhos, tanto quanto eu saiba, não fazem filhotinhos na água). Lembro-me também de termos jantado no quarto, mas nem uma brisa de memória do que pedimos, ou do sabor. Na verdade, nós dois éramos a entrada, o prato principal e a sobremesa.

Quinto relato. Casa de Shoshana, Rio de Janeiro.  Nada de especial, conheci a casa, conversamos, transamos. Não foi a mais erótica das casas dela, longe disso.

Sexto relato. Barzinho no Rio. Estávamos conversando, esquecidos do mundo, quando avistamos o primeiro marido dela, meu examigo. Ele se aproximou, sentou com a gente, e se formou uma nuvenzinha negra sobre a mesa. Lembro que contei que havíamos falado sobre ele horas antes (havíamos mesmo). Ele me encarou em silêncio, sem acreditar. Os silêncios ficaram opressivos.

Finalmente, ele se levantou e saiu, levando consigo a nuvenzinha. Que descanse em paz.

Fim dos marienbadismos. Não me recordo de outros encontros nem de outras transas (que certamente aconteceram). Minha memória é uma lama, embora não tanto quanto a da pinguinita. 

Em setembro, a Rio Gráfica/ Editora Globo me enviou à Feira de Frankfurt. Aproveitei a oportunidade para reencontrar em Paris meu grande amor francês. É melhor chamá-la, apoiando-me na Quadrilha de Drummond, de Marie Thérèse J. Pinto Fernandes, que não tinha entrado na história. Não nesta, pelo menos.

Era demais, até mesmo pra mim. Arqueólogo do amor, havia desencavado antigas paixões aquém e além-mar. Não sei se lembram, eu estava casado. Não que me faltasse o candor – ou a cara de pau – para reatar com Shoshana os laços cortados por Frankfurt. Mas o jogo pelo poder na Globo estava chegando ao final, e não houve mais viagens a trabalho para, nas horas vagas, eu pinguinear. Diga-se que meu time fracassou na luta pelo controle da editora e, meses depois, perdi o emprego. 

O fim da ponte aérea e minha demissão eliminaram um risco que vinha crescendo: o de minha relação com Shoshana virar rotina. Ainda pior, de transformá-la na outra.  Em 1967, a areia era demais para mim, eu não encarava os desafios de sair de casa, arranjar um emprego, morar com ela e depois casar. Vinte anos depois, a areia já cabia no meu caminhãozinho, eu havia saído de casa, trabalhava – e havia casado, mas não com ela. Se o esquema continuasse, eu viajaria para o Rio regularmente, participaria das reuniões e depois a encontraria, como vinha acontecendo. Mas não construiríamos nada juntos, não teríamos uma vida em comum. Era pouco, era pobre, minha musa merecia mais, e eu também. 

Com a demissão, tive de permanecer em São Paulo, às voltas com um casamento insatisfatório e em crise permanente. Isso, porém, preservou a imagem de Shoshana e meus sonhos (alguns eróticos, outros nem tanto) com la pinguinita.  

Passei décadas sem revê-la, 32 anos para ser exato, com apenas um breve encontro em Friburgo, em 1991. Ela e a filha, eu e minha filha, algumas outras crianças. Tudo bem civilizado. E depois, mais nada. As panteras já estavam enfastiadas. 

Outro ensaio de encontro ocorreu em 1995. Eu estava trabalhando em uma revista da Editora Globo (parafraseando Drummond, a Rio Gráfica era um retrato na parede, mas não doía quase nada) quando recebi um telefonema. Era Shoshana. Ela me falou que havia deixado de beber e que precisava se desculpar com as pessoas que nos gloriosos e tenebrosos anos etílicos havia prejudicado de algum modo. Não entendi muito bem, e naquele momento eu estava apaixonado, de amor novo. Resolvi me fingir de morto. Desconversei sobre a possibilidade de um encontro no Rio ou em São Paulo, e pouco depois aleguei um compromisso de trabalho e desliguei. Shoshana era um risco para meus relacionamentos, que na ocasião estavam mais que satisfatórios. Foi a última vez que nos falamos. 

No entanto, os deuses high-tech do amor e da memória decretaram que nossa história não estava terminada. Provavelmente ela os divertia. A mim também.

 

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Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


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Paginação:

Nuno Baptista


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