ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Cláudio B. Carlos


A geringonça e outros textos    

Me aparece, esbaforido, o Romualdo – 20h45: entra no bar com a camisa arremangada, apesar do frio.

(...)

Romualdo era um tipo magrizel, aloirado, lábios finos e boca murcha – típico teuto-rio-grandense. O risco e o fedor. A boca murcha lhe rendeu o apelido de “Cu de Galinha”, que foi sofrendo alterações até chegar no afrancesado “Dirrã” – diminuição de “Cu di Rã”. O Romualdo, naturalmente, não gostava de ser chamado de Cu de Galinha, nem de Dirrã, nem de Cu di Rã, e, evidentemente que por isso mesmo, os apelidos, todos, pegaram. Eu, por sermos mui amigos, não o chamava assim. Pensava, às vezes, mas não falava. Outra coisa, que de vez em quando pensava, é que se o Romualdo soubesse o verdadeiro significado de “dirrã”, poderia adotar o apelido, e, ainda se sair bem. Mas é claro que ele não sabia. Eu mesmo só descobri por acaso, quando folheava uma revista na sala de espera do dentista. A publicação apresentava uma matéria sobre as moedas do mundo, e, aí entrou o “dirrã”: moeda de prata usada em Portugal no início do domínio mouro – ou qualquer coisa assim. Bueno, o fato é que, me aparece, esbaforido, o Romualdo. Entra no bar com a camisa arremangada, apesar do frio. 20h45 – eu já disse, né?

Vem direto à minha mesa, se acotovelando no adensado de gente. Diz:
         — Oi.
                                                                                 
         Respondo:
         — Oi. 

Romualdo se senta, e com um gesto, pede um copo. Acendo um cigarro, em silêncio. Naquela época eu só fumava Carlton, ou Free (era a modinha do momento). Estava estranho, o Romualdo: os olhos esbugalhados, mais quieto que guri cagado. Dou uma longa tragada no careta e pergunto:   
— E aí? 
                                                                                 
         Olha para os lados, e responde:
— Cara, que foda, meu.

         Indago:
         — Hã?                                                                               

         — Nem te conto – ele disse.

Pego o maço de cigarros com a mão direita e bato-o levemente no indicador esquerdo para que se afrouxem dentro da carteira, e lhe ofereço um. Ele pega. Acendo (eu só acendia cigarros com isqueiro Bic, ou com fósforo: era o que se tinha para o momento). Romualdo dá uma tragada nervosa, soltando a fumaça pelo nariz. Com o copo na mão, olha para os lados (mais uma vez) e dispara:                                                                                                           
— Acabo de matar um cara.                                                               

        
— Quê? – pergunto.
                                              
         — Um cara – responde. — Acabo de matar um cara – reforça.

         — Como? – quero saber.

— Atropelado – diz.

         — Quem? – interrogo.

         — O Maravalha – fala.

         — O Maravalha? – digo.

 

 

 

Saraquá Edições
Cachoeira do Sul, RS
saraquaedicoes@gmail.com
www.saraquaedicoes.com

Editor da Editora Coralina e da Saraquá Edições lança o romance Maravalha – uma novela grunge gaudéria.

A obra é publicada treze anos após o lançamento de seu livro de contos O uniforme.

O livro conta com um lindo projeto gráfico assinado por Angel Cabeza (que também é o editor) e com ilustrações de Thassiel Melo.

O livro está em pré-venda no site da Editora Coralina: www.editoracoralina.com.br

 

SOBRE O LIVRO

Seja num diner à beira da Route 66, num pub na Finlândia ou no bar de uma pacata cidade no interior do Rio Grande do Sul, se prestarmos atenção, aquela atenção verdadeira que está lá nos olhos da alma, sempre veremos heróis, de constituição variada. Em Maravalha, o nosso “herói sem testículos”, que atravessa uma noite fria negociando com a fome para não faltar o dinheiro da cerveja e negociando com a sorte para não se enrascar de carona nos problemas alheios; ele que só quer paz, mesmo que à custa do entorpecimento.

Para nos contar esta história de resistência, nosso autor maneja, com a habilidade de quem conheceu o ambiente real, um tabuleiro onde interagem personagens típicos e ao mesmo tempo peculiares que compõem aquela fauna urbana: o delegado de polícia tomando um bíter após outro para se aquecer no meio do plantão, o locutor da rádio AM que cumprimenta a todos sem reciprocidade, o valente da moto que passa a mão na bunda das noivas alheias, as noivas alheias que talvez não se importem muito com isso, o amigo que consegue um carro emprestado com o cunhado dele para comer alguém, a filha ruivinha do delegado que “merece uma homenagem”... e o frio, sobretudo o frio. E a dureza.

Somos brindados ainda com um repertório de adágios gaudérios (máximas do saber ancestral e popular do Sul) e momentos de pura sociologia, como naquele em que nosso herói eunuco, em frente ao vaso sanitário, espreme os olhos para ler os versos na parede: “Neste lugar apertado / onde toda vaidade se apaga (...)”

Some-se e sinta-se tudo isso, e os amantes da prosa honesta, direta e contundente dirão que Maravalha (o livro) merece uma homenagem...

(Leonardo Brasiliense)

 

Maravalha é uma narrativa minimalista e inovadora. Num bar onde desfila a vida medíocre de cada dia, uma tensão se instala: será descoberto o que aconteceu ou não? E assim, numa cena aparentemente corriqueira, a inquietação se infiltra a cada instante, acentuando a decadência e trazendo à tona a face sombria do humano viver. Regional e universal se encontram em mais esta ousadia que só poderia vir do talento do escritor Cláudio B. Carlos.

(Cleber Pacheco – crítico literário)

SERVIÇO

Maravalha – uma novela grunge gaudéria
154 páginas
12 x 18 cm
R$ 38,00
Saraquá Edições (2020)

 

 

Cláudio B. Carlos – poeta, prosador e comunicador. Nascido em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, RS. Atua no mercado literário como editor, preparador e revisor de textos. Apresenta o podcast “Balaio de Letras” (anchor.fm/claudiobcarlos). Vive em Cachoeira do Sul. Escreve para sites, revistas e jornais – do Brasil e de Portugal. Leia também do autor: “Um arado rasgando a carne” – narrativas (Editora Maneco, 2005); “O aprendiz de poeta” – infantil (Editora Maneco, 2005); “O uniforme” – narrativas (Editora Maneco, 2007); “Maravalha” - novela (Saraquá Edições, 2020).

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Paginação:

Nuno Baptista


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