ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Danyel Guerra


Carmen em dose dupla nos ecrãs    

«O cinema brasileiro vem de longe: Adhemar Gonzaga, Humberto Mauro e Carmen…»

Vinicius de Moraes

 

Siim, Carmen. Eis o operático prenome da cidadã portuguesa mais ilustre, impetuosa e poderosa na História do Cinema Brasileiro. Se você disparar que seu sobrenome é Miranda, será porque julga que o tiro vai acertar em cheio no “álvaro”, como ironizava o Adoniran Barbosa. Dispare…porque mesmo se errar, não vai cometer nenhum disparate.

Na ‘InComunidade’ de setembro foi publicada a primeira parte de uma breve memória histórica da gesta dos migrantes portugueses no cinema brasileiro. No número deste mês impõe-se a devida referência, com toda a deferência e cavalheirismo, ao desempenho, nos mesmos sets, de um par de atrizes lusitanas.

Pela sua popularidade, a prioridade deve ser atribuída à esfuziante Carmen Miranda, “a mulher brasileira mais importante do século XX”. A mítica porta-bandeira planetária da música do país tropical estreou em um filme intitulado ‘A Voz do Carnaval’ (1933), sob a direção de Adhemar Gonzaga, uma produção da Cinédia. Lançado em vésperas da reinação de Momo, neste “semidocumentário”, ela “se limita” a cantar ao… microfone. Pertence hoje aos anais do antológico, a sequência em que a câmera irrompe nos estúdios da Rádio Mayrinck Veiga e surpreende a embaixatriz do samba cantando  ‘E Bateu-se a Chapa’, ‘Moleque Indigesto’ e ‘Good-bye’.

De acordo com Ruy Castro na biografia ‘Carmen’, editada em 2005, a “pequena notável”, antes de embarcar para os States e se radicar em Beverly Hills, atuaria nos filmes ‘Alô, Alô Brasil’ (1935), coprodução de Wallace Downey e Gonzaga –,o primeiro grande êxito do sonoro-, ‘Estudantes’ (1935), de Downey, ‘Alô, Alô Carnaval’ (1936), de Gonzaga e ‘Banana da Terra’(1939), de Ruy Costa. Nesta fita (visualize o vídeo abaixo), aparece, pela primeira vez, vestida de baiana, cantando ‘O que é que a baiana tem’, de Dorival Caymmi, que se tornaria sua imagem de marca.

 

São musicais enxutos, com salpicos de comédia, descontraídos,  delineados e concretizados com seriedade artística e eficácia comunicativa, isentos da ligeireza e da leviandade inoculadas nas famigeradas chanchadas  das décadas de 40 e 50.

Na biografia da filha de Marco de Canaveses, Castro sustenta, porém, que Carmen debutou, em 1932, na média-metragem ‘O Carnaval Cantado de 1932’, de Vital Ramos de Castro, em que ela é filmada cantando o samba ‘Bamboleô’, de André Filho..

O legado da Brazilian Bombshell ao cinema do Patropi não pode obviamente ser subestimado. Contudo, seria um erro de avaliação sobrestimá-lo, por força do brilho ofuscante da sua auréola mítica. D. Maria do Carmo nunca foi uma atriz no rigoroso sentido do termo. Atuou em dezenas de musical movies representando elle-même. NosEUA, suas aparições tropicalientes em 14 filmes tangem, por norma, o limite do pitoresco. Os produtores acentuavam o viés da caricatura da exótica chiquita banana girl, uma réplica tropical da cucaracha mexicana.  

Ela é a outra

Para surpresa de muita gente, revele-se haver uma outra Carmen no plateau. Pequena na altura, ela se tornou uma elevada e notável protagonista da sétima arte brasileira, na primeira metade do século XX. Quando em 1933, a Miranda foi coroada rainha na pré-carnavalesca fita da Cinédia, a Santos terá interagido com ela, incumbida  das funções de diretora de produção.

Todavia, seus créditos e méritos estavam já bem afirmados, numa época em que o empoderamento feminino apenas começava a pleitear respeito e reconhecimento num meio onde se impunham as nomenclaturas e as prerrogativas do poder masculino, esmaltado de machismo.

A pertinácia da indomável Carmen, em superar o fútil estatuto das divas inebriadas pelo ignis fatuus do estrelismo, aparece bem plasmada nesta declaração de princípios confiada, numa missiva a Getúlio Vargas, presidente da República do Brasil nos anos 30 e 40.

“No cinema brasileiro, eu ficaria profundamente magoada se me dessem o título de estrela. Eu sou um cérebro que trabalha desabaladamente das oito às 24 horas, que luta pela organização da indústria cinematográfica no nosso país, com a máxima sinceridade e, por isso, quase sempre sozinha. (…) quero é trabalho, produção conscienciosa”, desafiava.

Sem se deter, garantia querer um cinema na “nossa língua, costumes, ambientes, técnica, tudo bem brasileiro, absoluta, essencialmente brasileiro.”  A acreditar na sua sinceridade, Carmen terá sido uma cinemanovista avant la lettre. Acentue-se que ela foi a primeira mulher a integrar comissões reivindicativas que defendiam a ampliação do apoio estatal ao cinema nacional, num tempo em que a ditadura varguista decretava a reserva de mercado obrigatória.. 

Nascida em Vila Flor, na província de Trás-os-Montes, em 1904, Maria do Carmo Santos Gonçalves emigrou aos oito anos para o Rio de Janeiro. Após ter pregado botões numa oficina de costura, empregou-se  como balconista no magazine  Parque Royal. Aos 15 anos, participou num casting para o filme ‘Urutau’ (1919), de Willian Jansen, num elenco liderado pelo ator luso Alves da Cunha. Alcançou  seu primeiro papel e nunca mais se deteve. E só dormiu a primeira noite de tranquilidade a 24 de setembro de 1952, vencida por um câncer.

A hora H enquanto atriz soou ao ser escalada para o papel principal (Carmen)  em ’Sangue Mineiro’(1929), de Humberto Mauro. E ambas Carmens  não vacilaram nem muito menos desiludiram. A esbelta mignon rubricou nessa película uma das suas primorosas interpretações.
 
Em ‘Limite’, de Mário Peixoto

Perseverante, obstinada, a charmosa e insinuante star, recordista de capas de revistas, senhora de um marketing agressivo, vincaria, nos anos vindouros, uma personalidade intrépida, enquanto atriz, produtora, roteirista, directora e empresária.

Em 1930, desempenha, no único filme (terminado) de Mário Peixoto –‘Limite’-, o papel da moça  do cais, que come, grávida de malícia,  uma carambola. Película detentora de uma linguagem inusitada, plasmando uma imagética  sofisticada, apoiada numa erudita trilha sonora, a ponto de receber o aceno de simpatia de Orson Welles, numa projeção organizada por Vinicius de Moraes, no Rio de Janeiro. Na plateia encontrava-se  Falconetti, a atriz de ‘La Passion de Jeanne d’Arc’ (1928), de Carl Dreyer. Esta obra única de Peixoto continua sendo um  cult movie, para artistas tão díspares como David Bowie, Glauber Rocha ou Julio Bressane. 

O poeta tropicalista Wally Salomão contou aos ao jornal ‘O Globo’ um causo que evidencia o caráter indômito da portuguesa. Ela pediu para se encontrar com Peixoto. Apesar de ter ficado encantado com ela, também a achou vaidosa demais.

“Então, ele resolveu armar uma arapuca, dizendo-lhe que gostaria que ela atuasse em ‘Limite’, mas apenas numa ponta, sem direito a nome nos créditos. Um teste à sua vaidade. E Carmen topou a parada, com toda a afabilidade”, ilustra Salomão.

A “figurante” parece ter curtido o papel, degustando a carambola toda. Dois anos depois, Santos acende a luz verde para que Peixoto realize ‘Onde a Terra Acaba’, com ela como atriz protagonista e produtora. Projeto que se malograria, eivado por divergências insanáveis entre os dois. Tirando a luva de pelica, a Dama –como era chamada no milieu- assina, mão firme e decidida, a demissão do diretor, que é substituído por Otávio Gabus Mendes.

Em 1933, em sociedade com o empresário Antônio Lartigau Seabra, seu companheiro, ela tem ousadia suficiente para iniciar a instalação da Brasil Fox Filmes. Dois anos depois é forçada, pela ianque Fox, a rebatizá-la como Brasil Vita Filmes. E quando Humberto Mauro, à época o mais talentoso cineasta, abandona a Cinédia, será na produtora de Carmen que continuará seu meritório trabalho. Nos anos seguintes, ambos formarão um tandem veloz e vitorioso.

Na casa da grande dama, Mauro assinará três títulos marcantes: ‘Favela dos Meus Amores’(1935) – pela primeira vez, o cinema sobe o morro-, ‘Cidade Mulher’ (1936) e ‘Argila’ (1940), com Carmen liderando o cast . Neste filme, ela rubrica sua melhor prestação, conforme foi sublinhado pela crítica. Sua Luciana tende a agir como se fosse um alter ego da intérprete: uma mulher muito à frente do seu tempo.

Tenaz,  ela decidiu, a meio da década, investir num projeto ambicioso: a cinematização da Inconfidência Mineira. Uma grande produção minada por peripécias épicas, dramáticas e burlescas, que lhe consumiu 12 anos de dedicação e que só chegaria às telas em 1948. Como se já não bastassem os milhões de cruzeiros consumidos, por exemplo, na edificação da cidade cenográfica de Vila Rica na Tijuca.

Os atrasos, as dificuldades, as vicissitudes que toldaram a produção –redundando num doloroso revés financeiro- impediram que a trasmontana entrasse para a História como a segunda mulher diretora de cinema no Brasil. A pioneira foi Cléo de Verberena, autora de ‘O Mistério do Dominó Preto’ (1931). Distinção que acabaria pertencendo a Gilda de Abreu, que em 1946 apresentou ‘O Ébrio’, protagonizado pelo marido, o cantor e compositor Vicente Celestino.

Os obstáculos erguidos, nomeadamente os orçamentais, à conclusão da sua Inconfidência –onde encarnou a musa Bárbara Heliodora-, inibiram  Carmen de se tornar a artífice de uma outra primazia. Em 1945, a atriz lisboeta Bárbara Virgínia tornava-se a primeira realizadora portuguesa, ao estrear ‘Três Dias sem Deus’. Virgínia que, anos passados, tomaria o rumo do Brasil, ainda que, tanto quanto se sabe, não tenha adentrado nos sets e estúdios tupiniquins..

Espaços e ambientes que Carmen Santos se viu forçada a abandonar precocemente aos 48 anos, Seu passamento ocorreu enquanto decorria, no Rio de Janeiro, o I Congresso do Cinema Nacional, de que foi uma ativa mentora e incansável articuladora. 

The end

 

 

Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu em São Sebastião do Rio de Janeiro, no Brasil, num dia de Vênus  do mês de novembro, sob o signo de Escorpião. No ano em que Agustina Bessa-Luís publicava ‘A Sibila’. Guerra tem uma licenciatura em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

São de sua autoria os livros ‘Em Busca da Musa Clio’ (2004), ‘Amor, Città Aperta’ (2008), ‘O Céu sobre Berlin’ (2009), ‘Excitações Klimtorianas’ (2012), ‘O Apojo das Ninfas’ (2014), ‘Oito e demy’ (2014), ‘O Português do Cinemoda’ (2015) e ‘Os Homens da Minha Vida’ (2017).

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Outubo de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Adrian’dos Delima, Álvaro Alves de Faria, Álvaro José Silva, Ana Mafalda Leite, Angela Maria Zanirato Salomão, Antônio Roberto Gerin, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Carlos M. Luis, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Cruzeiro Seixas, Eurico Gonçalves ; Dalila d’Alte, org., Dalila d’Alte, Danyel Guerra, Dario Silva, Dennis Ávila Vargas, Deusa d’África, Elisa Scarpa, Fernando Andrade, Francisco Aurelio Ribeiro, Hang Ferrero, Hermínio Prates, João Almino, Lahissane, Lalau Simões, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Lino Mukurruza, Marco Antonio, Maria de Lurdes da Fonseca Marques, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, NILMA LACERDA, Osvaldo Spoltore; Rolando Revagliatti, entrevista, Otildo Justino Guido, Ricardo Ramos Filho, Robson Deon, Sebastián Rivero, Textos, Tiago Rabelo, Tony Marcelo Gomes de Oliveira, Vítor Burity da Silva, Waldo Contreras López, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Perto do leito da morte (febre)', 1915.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR