ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Dario Silva


Poemas    

Anselmo

Não me tereis, Anselmo,
os teus olhos!
Que Anselmo o teu olhar ligeiro
Vulto fez mia tez adestramento
E não bastasse o riso e o falsário
Cuspir nos montes o perdimento.

Não me tereis, Anselmo,
os teus olhos!
Que me visses, Anselmo, em tuas vistas
Não haverias o pecado adivinhar
Pois não oculto pecado algum teria
E não bastasse o pecar o deletério

Não me tereis, Anselmo,
os teus olhos!
Que me custa uma vista desapanhar
Caído nos pisos amasiado e romaria
Por uma prece menor d’algum mosteiro
Erguer o peito vil o cavalheiro e assomar.

Não me tereis, Anselmo,
os teus olhos!
Que bem lamento a tua face ofertada
Não ponho a mia como oferenda
Aparta, pois, desta razão o teu semblante
E caduca a voz tão fel e estabanada.
Não me tereis, Anselmo,
os teus olhos!
Que bem posso haver a amarga prenda
E cadeado algum partido inconstante
Não por isso saber algoz olhar ausente
Oh! Praticar a reza posta e caminhante.

15/04/2020


 

 

 

 

 

Afonso

Ofertou-me Afonso os botões
Cordeiro novo em campina
Que havia. Trás os montes
Que se eleva e se sublima.

Ofertou-me Afonso os botões
Rósea prenda sem jardins defronte
Tal escudo de mansa colina campesina
Que se eleva e se sublima.

Ofertou-me Afonso os botões
Jasmim da pele d’aroma espiralado
Que se cultiva na alvidez o demonstrado
Que se eleva e se sublima.

Ofertou-me Afonso os botões
Rósea prenda sem labores palatável
Posta a mi glutão de língua afável
Qual se eleva e se sublima.

07/06/2020


 

 

 

 

 

Joaquim

Um Joaquim casto e cabritoso
Pôs o riso parco a meu alcance.
Despairecido, em desfavores
Ofertou-me esta comenda.

Um Joaquim casto e cabritoso
Numas tantas léguas de caminhar que eu vinha
Ali na beira dum encalço que faltou-me
Dei-me um Joaquim, amigo alheio.

Um Joaquim casto e cabritoso
Que roda para balançar que ali nem via,
Um malquerer calado e em semblante
Ria castiço um querer os dentes.

Um Joaquim casto e cabritoso
Pio andarilho a sombrear o canto
Gesta o riso palmado sutilmente.

06/06/2020


 

 

 

 

 

Izaia

Lembro-me de ti, Izaia
Que vi pelegrino
De peito a peito
Desmamar o verbo.

Na ladeira baixa
E sem viga
Das palmas da ribeira.

Lembro-me de ti, Izaia
Berreiro de novilho agudo
Que trota a ladainha
De curral apeada na ribeira.

Que valem os touros,
Senão uns dous vinténs?
Se do novilho alto o peito choram
E reclamam prece adornada e vil?

Lembro-me de ti, Izaia
A rezar o terço
E a berrar o salmo
A açoitar o touro
E a desmamar o verbo

Na ladeira baixa
E sem viga
Das palmas da ribeira.

 

23/09/2020

 

 

Dario Magalhães Sucupira Barradas Lima e Silva (Brasília – DF, 15 de dezembro de 1992) é poeta e habita a cidade de Braxília. Nasceu entre os pilotis e o verde da 308 Sul. Prestou vestibular para Geografia, na Universidade de Brasília, qual obteve aprovação. Todavia, abandonou o curso no 2º período, para dedicar-se à profusão poética.

Fabrício (Editora Patuá, São Paulo, 2018) é seu primeiro livro de poemas.

Site: https://silvadario.wordpress.com/

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Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


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Paginação:

Nuno Baptista


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