ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Elisa Scarpa


Musa-satélite    

O melhor cultivador é o diabo de asas repenicadas. O terreno junto dos rochedos é no vale aconchegado, a pedra quebra o vento e do outro lado as casas baixas e de xisto criam outra cortina contra as intempéries. Dorme-se bem, dentro destas casas de xisto, dão a sensação de se estar dentro de uma caixa de algodão.

Cada vez que a chuva cai no telhado, o diabo sai de espada em punho e percorre o vale até ao centro, aí chegado espeta a espada e as flores começam a florir, especialmente as rosas que se debulham em filamentos de pedra rastejando sobre a terra e dando corpo aos já encorpados rochedos que protegem o vale. O diabo olha para elas de cima, de soslaio, e as asas, semelhantes às do vampiro, grandes construções arquitectónicas da criação diabal libertam gotas de fertilizantes. Entre as flores só uma árvore é árvore, pequena e verde que serve para alimentar de seiva a espada do diabo.

Como foi parar este diabo cultivador a este vale escondido?, paraíso de folhas nunca abertas de sol, mais brilhantes que o ouro e a humidade deslambida que se oferece à terra num sentido de desbunda completamente anormal. Humidade de dádivas francas sem ataques de asmática repulsa pela terra nem ímpados de paixão obsessiva que estrangule os grãos do solo e os transforme em secos torreões de abismos incandescentes de calor. Calor letal que faria do vale uma triste insolência, o tornaria na pior das insolências, a insolência dos temerários. Estão os temerários amarrados às árvores de fruto com as vestes rasgadas, e a debitar comentários à natureza natural. A noite cai, os lobos aproximam-se, o fantasma do senhor de Vauru veste a camisa de dormir e penteia  os cabelos preparando-se para sair.

Os lobos comandados pelo fantasma do senhor de Vauru já farejam a insolência dos temerários e quando lhes sentirem a imundície, de narinas dilatadas mandar-se-ão aos seus ventres e farão das suas vísceras exposição pendurada nas árvores de fruto.

Os vales odeiam a insolência dos temerários. Mas ainda mais odeiam a radicalidade estrepitosa dos lobos. O vale deixa de ter vegetação visível após o esventramento dos temerários pelos lobos.

O bom cultivador diabo veio para aqui. Veio em chamada de exílio. Veio em chamada de exílio por ter escrito o opúsculo: “Alguns de entre vós sabeis...”.

O opúsculo desagradou às temáticas servidoras, desrespeitou os pecados articulados, reafirmou os conteúdos negativos, insurgiu-se contra as subtilezas controversas e elas quiseram-lhe roubar a espada. Antes o exílio!

A espada de um diabo não é qualquer letargia obscura eivada de ressentimentos hipocondríacos que pode ser banida assim pelas subtilezas controversas. A espada de um diabo é a articulação expiatória por excelência, o rebento sublime da terra debitante, e o Hei com o qual se pode formar uma linguagem nova. Não é um percalço infeliz dos operários siderúrgicos que, banhados em suor, aos fornos escaldantes no fim de 12 horas de trabalho, se enganaram e deram lâmina e punho à espada do diabo.

Ele não podia partir com as suas asas repenicadas e esquecer as campas dos seus familiares e os beijos das flores que os redimiram e ficar sem espada.

Ao quarto telefonema descobriu este vale. Do outro lado, o telefone emitiu a frase:” eu verdadeiramente nunca olho a paisagem”. O diabo cultivador correu a fazer a mala; nela colocou o molho de chaves das campas, 7 pares de cuecas, uma escudela com rosas secas, uma bobine de 8 milímetros com meia hora de filme, uma caixa de preserva-tivos, pó de aguarela misturado com óleo num frasco de tintura de iodo, uma caixa de pombas assassinadas e um saco de andorinhas que em tempos haviam pensado terem sido a primavera.

A mala não pesava muito, o fecho estava lasso, e mesmo assim, quando ele pegou nela, a mala não se abriu. Levou também o chapéu de caracois. Dos belos caracois de Nepomuceno que a mãe havia talhado para si há tantos anos. Nepomuceno havia sido seu sobrinho, julgara um dia ser uma carrinha verde alface, daquelas abertas atrás para levar fruta ao mercado, e carregou-a com tanta laranja, que pereceu esmagado sobre o seu peso.

Uma carrinha, logo verde alface, que triste instância te debelou a vida?!

Mas foi a Musa-Satélite que permitiu esta chegada ao vale. A musa vivia no plaino adormecido por detrás das casas de xisto, a sua esférica mente observava diáriamente as plantas invisíveis do vale. Quando é que seriam visíveis? Uma terra debitante precisava de flores visíveis ou cingiria o antagónico e tornar-se-ia uma terra antagónica.

As plantas invisíveis faziam-se escutar através das torneiras das casas de xisto. Torneira aberta era torrente de chorrilhos. Chorrilhos que para serem visíveis precisavam de olhos que tivessem olhado Nepomuceno. Dificilmente seriam visíveis sem olhos que houvessem conhecido Nepomuceno, sem caracois titilantes que acima das suas cabeças fossem acariciados pela aragem, sem humidade que se pudesse ver ao espelho numa lâmina bem afiada de espada.

Os painéis solares da Musa-Satélite perceberam. Ou arranjavam um diabo cultivador, boi doméstico de alma que houvesse conhecido, não só conhecido, mas amado Nepomuceno, ou então nunca o vale poderia observar as plantas invisíveis. Como poderia cumprir a sua sorte de satélite, ser uma metafísica comentada, adormecer num excerto de clarificação se não pudesse ver as plantas invisíveis?

Permitiu sentar-se encostada ao rochedo e rememorar  os Libertinos do Adubo que conhecera em tempos, quando fora prostituta de luxo em Nepasoublier. Qual deles é que poderia conhecer o diabo cultivador? A ilha Nepasoublier ardera e estava agora desabitada, os coelhos da cinza grassavam e a atmosfera cheirava a canídeo chamuscado, porque em tempos Nepasoublier tivera tantos cães como homens.

Simpatia do mundo, combinação feliz do acaso, na semana seguinte um dos Libertinos do Adubo telefonava-lhe para lhe contar como perdera a sua bola de berlinde num casino de Antuérpia. Homem de decisões radicais não podendo aceitar aquela perda do berlinde, queria ter uma tarefa. Procurava em desespero frenético arranjar uma tarefa. Visto que havia terminado de cumprir a última tarefa que lhe haviam dedicado. Este Libertino do Adubo havia perdido o berlinde num dos casinos de Antuérpia. Ele tinha conseguido, e não havia sido fácil. Ele tinha conseguido  apesar das reservas formuladas, das condições inevitáveis, da existência do absolutamente útil, do recurso ao abandono da originalidade, e sobretudo ao convívio forçado com a familiaridade vulgar.

Ele tinha conseguido! No cumprimento dessa tarefa árdua havia encontrado o sentido autêntico, tinha bebido um copo com a necessidade recíproca, e outro com o sentimento de vergonha, havia-se banhado com o triunfo da fraqueza, e descoberto quão adulantes são as tarefas que se fixam. Fora amado pelas reservas formuladas, perdera-se na suspeição para se reencontrar frente à doce fachada do grande monumento ao dever cumprido. E agora procurava outra tarefa, preencheria todo o anexo 2 de 300 páginas, se fosse preciso, falaria com o campónio Richter Land que o havia feito perder o ouvido com o seu violino almice, partiria para a obstinação mais profunda, sem contemplações pela compreensão mútua só para arranjar uma nova tarefa. Ou havia mediação recíproca ou a pouca lucidez que lhe restava perder-se-ia e ele não responderia pela hora actual. Onde estava a reciprocidade do povo, o espírito de missão histórica, onde se havia perdido o odor da justificação inovadora, o amplexo da vontade de renovação?

Eu Musa-Satélite revia-o e ao mesmo tempo urdia o meu plano, era ele, que haveria de encontrar o diabo cultivador que amara Nepomuceno e que haveria de tornar visíveis as plantas do vale. Era ele.

Era ele aquele Libertino do Adubo. Mas apesar de me ter telefonado a implorar uma tarefa, nunca aceitaria uma que eu lhe propusesse. Nada melhor que Richter Land para lhe propôr a tarefa, para lhe obnubilar o juízo com a tarefa perfeita, a mais díficil tarefa: encontrar um diabo desejoso de exílio e conhecedor de Nepomuceno.

Richter é um enfermo do vale, velho terno, distinto valista desta terra sóbria, padrinho incógnito da minha filiação. Quando lhe falei em tal plano, caiu de quatro de alegria, com o maior prazer convenceria o Libertino do Adubo, de que aquela não era coisa dubitativa. A dúvida não cabe no cerne da questão, a dúvida é um empório de barreiras in/off excessivas, cujo interesse indefectível é nunca ultrapassar. Da minha boca nenhuma hipótese de tarefa saiu possível de cair na rede dos ouvidos daquele libertino. Confidências houve muitas, das terríveis angústias que também me deflagravam por querer cumprir a vocação da minha singularidade. Evoquei-lhe inclusive a invocação do primado da distinção e li-lhe aos pés da cama o que é o lamento imarcescível da conservação do renunciado. Durante diversas semanas deixei de ser Musa-Satélite e entreguei-me à concupiscência! Foi bom!, nada como juntar o útil ao agradável! Ele cada vez estava mais embrenhado e dilacerado pela interrogação nova, de ter que se perguntar pela primeira vez se tinha que viver sem ser tarefeiro.

A sua proveniência adubal não o ajudava nesta questão, havia muitas gafes na representação racional que tinha do mundo e nunca conseguiria compreender o alcance da denúncia de uma investigação. Era um bronco, parecia dar agora os primeiros passos na essência primeira das compleições fortes e ignorava por completo a aromoterapia, técnica que permite desde sempre transformar o aro em mote e pia. Sempre transformar o aro em mote e em pia. Como pode uma criatura desconhecer esta técnica!, que no fundo é a estrutura que permite compreender como tudo no início é invisível e, depois, num mote de recriação profundo, complexo, se torna visível. Uma hora conseguia recuperar do seu desalento espectral mas na seguinte desrecuperava e passava o resto do dia a inalar raízes de cenoura para ver se com elas conseguia combater o tumor da interrogação. Mas é o recuperas! , eu fui a fiel guardiã do seu desalento!

Na semana seguinte o Libertino do Adubo plantou-se à porta de Richter Land, ansioso e silencioso transeunte imóvel da rua, olhando com olhos espectrais a porta da casa. Richter fê-lo esperar: ou esperas ou perdes.

Richter calafetou a porta e até as janelas para que ele quando se abeirasse nada pudesse discernir. Nada do conteúdo daquela casa. Foi uma manobra inútil, é claro, Richter esquecera-se que ele havia ensurdecido há muito. Mas Richter era um terno velho que nada gostava de deixar ao acaso. A fragilidade emocional de um Libertino do Adubo não conseguia atingir a percepção do que é um verdadeiro amor próprio, bem levedado, capaz de um texto integral, sem ou com depósito legal! Passada a conversa entre Richter e o libertino foi imediato o início do processo de procura do diabo cultivador. Não há pai para a Musa-Satélite e para o Richter Land!, os valistos são validos!

O diabo das asas repenicadas onde estava? Perdido no sertão brasileiro? Escondido nos matadouros da pampa argentina? Dançava foxtrot nos anos trinta? Ou era o evangeliário das irmãs Brönte?  Houve boatos de que era o último dos von Trotta e que todas as noites prestava vigília aos imperadores na Cripta dos Capuchinhos. O Libertino do Adubo acabou por descobrir que ele era ancoradouro na Austrália aborígene. E como o descobriu ele? Era ele um grande investigador? Isso era! No entanto ajudou muito os hábitos regulares deste diabo de asas repenicadas, lavrador exímio que o vale desejava. Ele mergulhava nas águas e perguntava aos peixes: onde estava Nepo?, e os peixes têm a língua grande e não demoraram muito a propalar.

Falavam da loucura deste diabo de asas repenicadas. – Vê lá tu, noite cerrada mete-se adentro das águas e balbucia lamento sempre igual: Onde estás Nepo? Querida criança que nunca chegaste a ter asas repenicadas? Se soubesses como é bom ser o transportador de tal arquitectura? Nada que se compare ao transporte da fruta!

Tanta pena temos dele, diziam os peixes, tanta pena. Que construímos em sua homenagem, do pobre Nepo esmagado pela bruta fruta, uma câmara chorosa. Pingos de cera caem dos tectos do mar e constroem pequenas carrinhas abertas, verde alface, para que ele, chegado à água, possa brincar. O peixe Salomão ditou uma lei que proíbe a entrada de fruta no aeroporto, muita em tempos chegava, agora nem uma peça!, nem um gomo!, nem uma fatia!, nem uma casca!, nem uma pevide!, nem um cascavulho!, nem um caroço!, nada que da fruta lembre a fruta!

Pobre Nepo, ondes estás Nepo que nunca chegaste a ter asas repenicadas? E tem razão o teu tio, como são arquitectura bela, relento para os olhos num dia de Verão, beijos com mel, olfacto de borboletas livres num campo coberto de flores, e sem qualquer fruto.

Nepo,  Volta Nepo, Nepomuceno, as asas do teu tio, arcadas de vampiro proteger-te-ão para sempre. Volta e prometemos que só batemos nos nossos filhos, e talvez na tua mãe, porque alguém da tua família que te deixou morrer, tem de levar. Temos lírios, lírios e rosas também e costureiras que morrem de tuberculose mas que nunca te deixarão pegar em fruta. Volta Nepomuceno, volta Nepo, os nossos beijos são mais fluentes que os da morte. Nepomuceno como enceramos a tua câmara? Como cheiram bem as tuas carrinhas abertas atrás, e sabem, sabias?, sabem a bonbons de licor e algas.

Nepo querido, volta. Tu não és uma distinção dadaísta da nossa mitologia antiga, és uma impressão confirmada da nossa vontade de te amar. Onde estás Nepomuceno? Vem para aqui. O teu tio, diabo de asas repenicadas, cultivador exímio, foi para o vale e não mais vai voltar. Não chores mais Nepo. Não chores agora. Não chores mais que vais chegar para não mais ansiar.

A espada do diabo de asas repenicadas entrou no centro do vale: Sholem aos valistas de boa vontade.

Mal a espada tocou o centro do vale logo a pequena árvore, verde LP (long play) cresceu de folhas lustrosas impregnadas de uma mistura de algodão e seda, frescas como aroma de tabaco amendoado. E a geometria das folhas de uma trigonometria louca, irrompeu endemicamente desruptiva capaz de percorrer todos os padrões numa só nervura ou rebordo. Os insectos todos do vale serviam-se destas folhas como alvo e pista para os seus vôos e aterragens e não importunavam jamais as flores  invisíveis que corriam agora o vale.

Examinando aquela terra a Musa-Satélite sentia que estava no sítio mais transparente do universo. Ela podia ver a forma como as raízes dispersavam na terra e chegavam até aos cabos de telefone e interferiam nas conversas do vale.

O diabo, exímio lavrador, arranjara para o Libertino do Adubo uma tarefa regular, e ele por ali ficara falando das futuras gerações e do benefício de se cumprir uma rotina. As asas, arcadas de vampiro, encolhiam-se quando ouviam estas sórdidas palavras. O diabo teve que convencer as suas asas, a dormitarem durante o período do dia em que o Libertino do Adubo discursava.

A tarefa regular do libertino era alimentar a espada, o tranquilo instrumento do exímio cultivador diabo, o instrumento cadente que concentrava as gotas de humidade e as transmitia à terra.

Plantas escondidas corriam em vertigem para a luz, bastava a mão daquele exímio diabo pousada sobre o punho de tão encantador instrumento para se ouvir o prazer da terra, em movimento para a expulsão das plantas que nela ancoravam.

A espada alimentava-se da seiva, a seiva era compilada pela árvore verde, pedrinhas duras e minúsculas cresciam nas folhas irregulares, mil padrões, milhões de padrões e o peso delas era tamanho que fazia a árvore dobrar-se.

O Libertino do Adubo tinha que levar a espada até à árvore, e tocar com a sua ponta nas folhas. Mas só uma de cada vez!, e a espada bebia aquelas pedrinhas duras e minúsculas de seiva. Bebia-as lentamente. Duas horas por cada folha e precisava pelo menos de vinte folhas! O libertino, homem de paciência aturada, executava a tarefa com redobrados cuidados para que nenhuma folha caísse, nenhum galho se partisse, para que o fio da espada não ferisse o tronco da árvore verde, para que a seiva continuasse a ter ali um limbo inatacável. O peso da espada de três metros era uma das dificuldades com que ele tinha de lidar. Se a deixasse caír, ou mesmo, só derrapar, os resultados seriam catastróficos.

A espada destruíria a árvore, o mesmo é dizer que a espada destruíria a espada. A espada, no espaço de duas a dez horas, conforme o alimento que já houvesse tomado, feneceria de fraqueza. Por isso ele primeiro tinha que libertar a energia da espada dando-lhe uma massagem com manteiga de amendoim e após esta um banho de gema de ovo misturado com canela ameríndia.

Libertada a energia da espada, tinha que conseguir concentrar-se. Não poderia de forma alguma distrair-se com alguma aberração da realidade enquanto estivesse com a espada na mão. Só assim atingiria o quantum possível da energia da lâmina e da energia própria. Liderar aquele reservatório de energias exigia uma concentração de esgrimista, um apurado sistema de músculos, uma aturada aprendizagem constante das capacidades da lâmina enquanto objecto de cálculo.

E a lâmina era um ábaco genial!, uma devoradora do tempo poderosa!, e todas as operações de ingurgitamento de seiva foram perfeitas, milimétricas. Porque, para além do mais, havia que ter em conta a doadora da seiva, a árvore verde, havia que a olhar atentamente e perceber quando é que ela exigia prioridade.

Não podia acontecer a árvore sentir-se afogada sobre a superfície da lâmina. O punho da espada era um calibrador importante e sentia a árvore com requintada precisão. Ao mínimo sintoma de desapego, o punho da espada fazia vibrar toda a espada e as mãos do Libertino do Adubo tremiam. Se fosse necessário a refeição era interrompida.

Quando acabavam as refeições, ele pousava a espada numa tina de água tépida e depois abeirava-se do tronco da árvore.

Encostava com suavidade a boca a este, abeirava os lábios de uma falha no tronco e dizia mansamente: “A árvore é a árvore.”

E a árvore respondia: ”Desejo-te muitos Fichtes e que Hegel nunca te abandone.”

A Musa-Satélite captou na redoma da esférica mente a aproximação de uma missiva do guardião dos peixes. Exigiam a entrega da cabeleira de Nepomuceno, ou seja, o chapéu do diabo exímio cultivador feito com os caracois do Nepomuceno. Ora tal não podia ser porque as suas asas repenicadas não conseguiam viver sem este chapéu. A missiva falava de direitos mitológicos, da legitimidade da supressão de um bem pessoal em favor do mito colectivo, do fundo transcendente do desejo por Nepomuceno.

As asas repenicadas sabiam o que significava a unidade da herança, a constatação próvica daqueles caracois trabalhados tão agilmente pela mãe do diabo, conheciam o fundamento sistemático do poder fundador, ventre que havia gerado caracois, que havia costurado caracois tinha direito a entregá-los a nado vivo da sua família. Mais ainda porque aquele chapéu de caracois havia sido urdido para proteger a calva do diabo, que por desgosto provocado pela  morte de Nepomuceno havia perdido os seus própios caracois. Toda a família era uma património de caracois e assim remediou a mãe a consequência daquele desgosto.

O guardião dos peixes falava do Nepo venerado, da fonte construída para a sua passagem, da pacificação de todos os peixes em volta daquele símbolo vivo, que havia saído do vale dos mortos, quebrando as grilhetas da eternidade para ouvir os chamamentos: Vem Nepomuceno, vem Nepo.

E Nepo tinha vindo, vestido de vestes orientais, disfarçado primeiro, para ver se realmente os corações dos peixes falavam verdade. E depois de tanta conversa escutada, de tanta ânsia inquirida, deu-se a conhecer.

Os peixes queriam falar daquela associação surpreendente entre dedicação e homenagem: os caracois do Nepomuceno.

As asas repenicadas lembraram-se de perguntar:
- Mas está Nepo calvo?

- Não, foi a resposta do guardião dos peixes.

– Então, para que quer ele o chapéu de caracois?

– Não sei.

– Não?, então para quê esta exigência?

– O chapéu não é dos caracois de Nepomuceno?

– É.

– É isso. Os caracois pertencem-lhe.

– Os caracois são agora chapéu, caro senhor.

– Assim sendo ele quer o chapéu de caracois.

– Ele pediu-o?

– Não, mas sabemos que isso lhe daria prazer.

– Ele gostaria de falar com o seu tio?, não é?, que o chorou tanto!, que ainda o ama assim, de um modo, que não sei.

– Ele não sabe que o seu tio ainda vive.

– Não sabe?, escondeis de Nepo a existência de um ente amado?

– Não, não.

– Como, não escondeis? Então ele sabe?

– Não sabe porque ainda não perguntou.

– E não tencionais dizer-lhe?

– Para quê lembrar tanto sofrimento?

– Assim é.

– Ele tem lindos caracois...

– Para quê então levar-lhe outros que só lhe farão lembrar antigas dores?

– Assim é.

A Musa-Satélite desligou as câmaras e arrumou os auriculares numa cápsula junto aos comandos sinusoidais triunviratum de audição.

O guardião dos peixes ficara satisfeito, fizera os possíveis para recuperar os caracois antigos de Nepomuceno.

A arquitectura das asas repenicadas resplandecia de brilho.

Nepomuceno vivia com os peixes nas águas da Austrália aborígene.

O vale tonitruava de flores visíveis.

O diabo esquecera as autoestradas e gostava de falar com Richard Land.

O Libertino do Adubo cuidava da espada do diabo. The Lost Highway deixara de ser uma autoestrada. As asas repenicadas de vampiro sorriam para as suculentas portas do vale.

A árvore é verde e continua a ser verde.

As flores visíveis não dormem.

A Musa-Satélite suspira, pedante.

 

 

NOTAS

 

A cripta dos Capuchinhos - romance de Joseph Roth, onde a personagem principal “visita” a cripta dos Capuchinhos, num acto sentimental e nostálgico de uma era perdida, a do fim do império Austro-hungaro. Nesta cripta estão enterrados os imperadores. Escritor austríaco (....).

Aromoterapia- terapia que usa as capacidades curativas do aroma.

Nepomuceno- personagem do romance O Doutor Fausto de Thomas Mann. Nepomuceno é sobrinho do Doutor Fausto e morre na infância. É uma espécie de “vítima” do seu tio, que faz um pacto com o Diabo para atingir entre outras coisas a glória. Escritor alemão (1875-1955). Mann foi extremamente sensível aos sintomas psicológicos da decadência, dos quais se tornou o “cronista e o analista”, mostrando predilecção pela patologia da morte.


Fichte- Johann Gottlieb Fichte filósofo alemão (1762-1814). Filósofo da liberdade, expõe na obra “Princípios da teoria e da Ciência” um “idealismo absoluto” procurando justificar dialéticamente a existência do “não-eu” (objecto/natureza) a partir do “eu” (sujeito/espírito) e pondo a sua identidade como ideal de acção.

Hegel- Georg Wilhelm Friedrich Hegel filósofo alemão (1770-1831). O objectivo da sua filosofia foi o de reconciliar a história na sua positividade e nas suas contradições, a razão na sua essência de unidade e de universalidade. Resolver a oposição entre o real e o pensamento.

Lost Highway- The lost Highway de David Lynch, realizador contemporâneo americano. Filme em que a auto-estrada de alguma forma significa o percurso de vida de pessoas que se “perderam” nos meandros das suas personalidades.

 

Nepasoublier –(não esquecer) ne pas oublier (francês).

Temos lírios e lírios e rosas também- verso de Fernando Pessoa (1888-1935).

O senhor de Vauru- de texto da Idade Média que conta como um proprietário de terras, entregava à morte os que estavam sobre o seu jugo (atava-os a uma árvore e deixava que os lobos cumprissem a sua vocação predadora).

 

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Paginação:

Nuno Baptista


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