ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Francisco Aurelio Ribeiro


Amâncio Pereira, o Pestalozzi capixaba    

RESUMO: Amâncio Pinto Pereira (1862-1918), professor, jornalista, historiador, escritor, foi o mais importante escritor de sua época, tendo escrito poemas, contos, novelas, romances, artigos, almanaques, didáticos, e se consagrou como dramaturgo, por suas comédias, dramas, revistas e operetas, encenados nos teatros de Vitória por mais de trinta anos, de 1890 a 1920. Participou da vida cultural de Vitória em toda a sua existência e formou uma geração de capixabas amantes da história e da cultura do Espírito Santo. No entanto, seu nome e sua obra estão, hoje, desconhecidos pela maioria da população capixaba. De sua vasta obra literária, informativa e didática, só se encontram algumas poucas em nossas bibliotecas, sobretudo as últimas. Nenhuma antologia de poemas contempla sua obra poética, nem mesmo a de prosa. Por sua origem humilde, sem ter escolarização superior e ser descendente de negros, sofreu discriminação social, cultural e racial e, talvez por isso, sua obra, sobretudo a literária, tenha sido menosprezada pelos historiadores da literatura produzida no Espírito Santo, em todos os tempos.

"A vida educa. Mas a vida que educa não é uma questão de palavras, e sim de ação. É atividade." (Johann Heinrich Pestalozzi)
                      

 

(Amâncio Pinto Pereira. 1862-1918)

   Amâncio Pinto Pereira nasceu em Vitória, ES, em 08 de abril de 1862 e também faleceu em Vitória, em 13 de agosto de 1918. Foi Professor Primário. Ainda estudante, isto é, aos 16 anos de idade, fundou, juntamente com outros colegas, o Clube Saldanha Marinho, de feição republicana, manifestando-se, desde moço, em favor da abolição da escravatura através da imprensa de sua província. Foi fundador e redator de dois jornais: Sete de Setembro e a Gazeta Literária, além de haver colaborado nas seguintes folhas: O Espírito-santense, Gazeta da Vitória, Gazeta do Itapemirim, Pyrilampo, Comércio do Espírito Santo, Echo da Lavoura, Autonomista, A Tribuna, Jornal Oficial, Diário da Manhã, Nova Senda, Regeneração, Meteoro, O Semanal, O Lidador, O Combate, Alvorada, A Ordem e na revista humorística O Olho, de Luiz de Fraga Santos e Aristóteles da Silva Santos. Publicou, abrangendo desde trabalhos didáticos até peças teatrais, os seguintes livros: Noções abreviadas de Geografia e História do Espírito Santo, em cinco edições, a primeira datada de 1894 e adotada, como as demais, pela Diretoria da Instrução Pública do ES; Almanaque do Espírito Santo, o primeiro em 1899, o segundo, em 1918 e o terceiro, edição póstuma, em 1919; Traços biográficos, 1897; Folhas avulsas, 1895; Folhas dispersas, 1896; Humorismos, contos, 1897, Benevente, cidade de Anchieta, c.1900; Na lua de mel, comédia,  1895; O tio Mendes, comédia, 1897; O  engrossa: Virou-se contra o feiticeiro, comédia,  1890; Apuros de um marido, comédia em  um ato; Jorge ou perdição de  mulher; novela; Homens e coisas do  Espírito Santo, em dois volumes, o primeiro datado de 1897 e o segundo em  edição póstuma; Datas espírito-santenses, em dois volumes, o primeiro publicado em 1909 e o segundo em edição póstuma. Deixou vários trabalhos inéditos (peças teatrais, operetas infantis e um romance). Pertenceu à Societé Academique de Histoire Internacionale de Paris, ao Instituto Histórico da Bahia, ao Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, ao Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba e ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Segundo Oscar Gama [Filho, em Teatro romântico capixaba {1987}], foi o primeiro dramaturgo brasileiro a escrever peças teatrais dedicadas ao público infantil. (Verbete do livro Patronos & Acadêmicos da Academia Espírito-santense de Letras).

   Lê-se em “História do Espírito Santo”, de Maria Stella de Novaes, referindo-se ao ano de 1918: “A 18 de agosto, faleceu o Prof. Amâncio P. Pereira, educador emérito e devotado cultor da História do Espírito Santo, sempre referido neste trabalho. Raramente, verificou-se préstito fúnebre tão numeroso e comovente, justa homenagem aos predicados do extinto”. Naquele ano, tinha saído a última publicação em vida de Amâncio Pereira, o “Almanack do Espírito Santo”, obra que lhe custou muito trabalho, consumindo-lhe muitas energias. E o incansável professor, que estivera regendo turmas durante 35 anos, desde o longínquo 1882, quando foi nomeado para regente de turma em Muqui, mas só tendo assumido sua primeira cadeira de docente primário em Benevente, a atual Anchieta, em 1883, já estava em campo para conseguir fazer o “Almanack de 1919”. Um almanaque, na época, escrevia-se Almanach, é uma publicação, originalmente anual, que reúne um  calendário com datas das principais efemérides astronômicas como os solstícios e as  fases lunares; atualmente, os almanaques englobam outras informações com atualizações periódicas específicas a vários campos do conhecimento.  A cultura de usar almanaque existia em Portugal desde o século XV e aumentou no século XIX, com o crescimento e a popularização da imprensa. Em 1899, surgiu, em Portugal, o Almanach Bertrand, muito popular lá e cá, sendo publicado até 1969. No Brasil, o “Almanaque do Pensamento” é publicado desde 1912. Meu avô o assinava e o consultava para tudo, a lua certa para plantar e o que plantar em cada lua. Era minha leitura predileta quando o visitava. Um Almanaque tinha público certo e venda garantida.  O professor Amâncio Pereira complementava seu parco salário de professor primário com a venda de suas obras. Sua família era grande, tinha vários filhos pra criar, além de idosos familiares a quem cuidava e não podia se dar ao luxo de publicar por vaidade, para deleite próprio ou dos amigos. Ele precisava vender suas obras para sobreviver e criar sua família. Desde 1888, quando publicou sua primeira peça teatral, “Deomar”, drama em três atos com temática política, Amâncio Pereira fez da literatura uma aliada para expressar sua imensa criatividade, sua visão de mundo abolicionista, republicana e crítica da burguesia no poder, e, também, seu ganha-pão.

 

 

   Pode-se dizer que a obra escrita e publicada do Prof. Amâncio Pereira, de 1888 a 1918, foi um grande “Almanaque do Espírito Santo”, pois ela compreende de tudo um pouco: teatro, romance, biografia, geografia, história, poesia, crônica, moral e civismo, o que o fez o principal escritor de sua época. Afonso Claudio, em História da Literatura Espírito-santense, publicado em 1912, assim afirmou sobre Amâncio Pereira, seu contemporâneo de “Ateneu Provincial”: “Como quer que seja, parece-me que é de justiça conferir a Amâncio Pereira o mérito de haver iniciado em sua terra a aclimação do romance e da novela e continuado a desenvolver a cultura da arte teatral pelo drama e pela comédia”. Oscar Gama Filho, estudioso de sua obra teatral, afirma ter sido Amâncio Pereira “o primeiro dramaturgo brasileiro a escrever peças teatrais especificamente dirigidas ao público infantil. O que caracteriza esta especificidade do texto é pura e simplesmente o fato de o próprio Amâncio ter se valido da expressão “revista infantil” para classificar as peças Ano Novo (escrita e encenada em 1915) e Vitória de Relance (escrita e encenada em 1916”. (In: Teatro Romântico Capixaba, 1987, p. 157).

   Todavia, apesar dessa laboriosa e multifacetada produção literária, a obra do Professor Amâncio Pereira caiu no olvido e, hoje, poucos capixabas, mesmo os acadêmicos, pouco conhecem dessa vasta produção. Seu nome foi dado a uma escola em São Mateus e a uma das ruas do bairro Jucutuquara, em Vitória; em 1962, no centenário de seu nascimento, a Assembleia Legislativa fez sessão solene em sua homenagem e a deputada Judith Leão o chamou o “Pestalozzi Capixaba”, bem como o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, do qual foi um dos fundadores; a Academia Espírito-santense de Letras fez exposição de suas obras na Livraria Âncora, com palestra do Prof. Nelson Abel de Almeida; no jornal “A Gazeta”, saiu o artigo “Amâncio Pereira e o nosso folclore”, do Prof. Guilherme Santos Neves. Na década de 1980, sua obra teatral foi trazida à luz pela pesquisa do psicólogo e estudioso da literatura do Espírito Santo, Oscar Gama Filho, em “Teatro Romântico Capixaba”. Também na década de 1980, em 1988, paralelamente ao IV Festival Capixaba de Teatro Amador, organizado pela Fecata- Federação Capixaba de Teatro Amador- desenvolveu-se o Projeto Amâncio Pereira, de leituras dramáticas de duas obras de Aristides Freire e uma de Amâncio Pereira, O Tio Mendes, de 1890. Daí pra frente, não mais se ouviu falar o nome de Amâncio Pereira no ES, lacuna que buscamos preencher, agora, com nossa pesquisa.

    Certamente, o principal mentor intelectual do jovem Amâncio Pereira foi o também professor e dramaturgo Aristides Freire (1850-1922), pois foi com ele que Amâncio Pereira fez o curso primário e, de quem recebeu aulas de Português e Literatura, no Ateneu Provincial, escola de ensino médio criada em 1873 em substituição ao antigo Liceu de Vitória e destinada ao preparatório para o ensino superior, sobretudo as “ciências jurídicas”. Aristides Freire foi o criador do teatro de costumes, em Vitória, sobretudo as comédias e dramas que tanto agradavam à elite capixaba, com a comédia em um ato “Surpresas de um Tio”, encenada em 1876. Seu principal discípulo foi Amâncio Pereira que, dez anos depois, revezaria com ele na criação, produção e encenação de peças teatrais nos palcos da capital capixaba. Também foi a ele dedicado o seu primeiro poema, escrito aos dezoito anos e publicado em “O Baluarte” em 01/09/1882: “Vozes d”Alma”, aludidos aos trabalhos dramáticos de Aristides Freire.

 

(Prof. Aristides Freire- 1850-1922)

   Todavia, “obscuro por nascimento”, como dele afirmou Afonso Claudio, pois era filho natural de Maria Teresa dos Remédios, provavelmente uma mulher negra, não se sabe se escrava ou liberta, nasceu em Vitória, em 08 de abril de 1862. Não se lhe conhece o pai, e, provavelmente, o nome foi herdado de Antônio Rodrigues Pereira, casado com Francisca Pinto Pereira, sua tia, falecido em 30 de agosto de 1884. Nessa época, Amâncio Pereira era Professor Primário em Anchieta, antiga Benevente, e não conseguiu chegar a tempo para o sepultamento dele. No entanto, cuidou da tia como filho, até a morte dela, em 10 de fevereiro de 1909. Mesmo sem ter um pai reconhecido, o certo é que Amâncio Pereira teve a mesma educação dada à elite capixaba da época, tendo estudado nas melhores escolas e com distintos professores, juntamente com Afonso Claudio, Moniz Freire e tantos outros que mais tarde se destacariam na política capixaba. Sabe-se, também, que ele pretendia seguir a carreira jurídica, mas, para isso, precisava de recursos financeiros para estudar em São Paulo ou Recife, como seus colegas, mas não os tinha. Por causa disso, interrompeu os preparativos à carreira jurídica, no Ateneu Provincial, e cursou o Colégio Normal, criado em 1871 e se formou mestre-escola, como tantos outros oriundos de sua classe social e de origem negra. Também em 1871 criou-se o Colégio Nossa Senhora da Penha, para formar professoras primárias, o que passou a ocorrer a partir de 1878, conforme Maria Stella de Novaes em “A mulher na história do Espírito Santo”. Todavia, antes de as mulheres ocuparem a maior parte da educação primária, foram os homens os primeiros professores, a maioria proveniente de classes mais pobres, visto que à elite eram resevados os cursos superiores, inexistentes no Espírito Santo até 1930, quando se criou a Faculdade de Direito, tendo como um dos fundadores um dos filhos do Prof. Amâncio Pereira, Heráclito Amâncio Pereira (1894-1957). 

    De acordo com Eurípedes Franklin Leal, ao final do Império, contava o Espírito Santo com mais de 100 professores de ensino primário e o presidente da Província Inglês de Souza, nomeado em março de 1882, interessado na reforma da Instrução Pública no ES, convidou de São Paulo o Dr. Antônio da Silva Jardim, professor da Escola Normal de Santos, São Paulo, para divulgar, no Espírito Santo, o método de ensino João de Deus ou “Cartilha Maternal”. Ele chega a Vitória em 13/06/1882 e ministra um curso de Pedagogia, com diversas conferências, no Colégio Nossa Senhora da Penha às professorandas e às pessoas interessadas na carreira do magistério. Amâncio Pinto Pereira fez esse curso e se habilita a ser professor primário dentro dos métodos ‘modernos’ que se ensinavam, naquela época. O curso termina em 01/08/1882 com a volta do Prof. Silva Jardim a São Paulo e, ao final de 1882, Amâncio Pereira é nomeado para assumir sua primeira cadeira na Povoação de Muqui, na época pertencente ao município de Itapemirim, no sul do Espírito Santo. Em 1883, começou a lecionar como mestre-escola em Anchieta, onde casou, teve os primeiros filhos e permaneceu de 1883 a 1888. Sua primeira esposa foi Leonídia do Nascimento Pereira, com quem teve dois filhos: Inistella Leonídia do Nascimento Pereira, nascida em 1884, em Anchieta, e Nino Amâncio Pereira, também nascido em Anchieta, em 1885, e que se tornou farmacêutico. Com a morte da primeira esposa, anos depois, casou-se com a cunhada, Joana do Nascimento Pereira, com quem teve os filhos Heráclito Amâncio Pereira, nascido em Vitória, em 1894 e falecido em 1957, e as filhas Maria Leonídia Pereira e Maria Eleonora Pereira, dentre outros falecidos ainda crianças.

   O Curso Normal para Formação de Professores Primários foi regulamentado após a proclamação da República. Ainda citando Leal, ”Com o advento da República pouco ou quase nada se alterou na educação do Espírito Santo. Inicialmente, apenas o primeiro presidente do Estado, Afonso Cláudio, procedeu, em 1890, a uma reorganização da Instrução Pública. Regulamentou ele o tempo para acesso, a preferência dos professores com comprovação de habilitação, melhores salários, distribuição de livros e declarou vagas as cadeiras primárias interinas, que passaram a ser preenchidas após o professor atender a algumas exigências legais. Já no governo Muniz Freire, em 1892, alterou-se o ensino secundário, com a substituição do Ateneu Provincial e do Colégio Nossa Senhora da Penha pelas Escolas Normais, com cursos masculino e feminino. O curso masculino preparava o aluno para ingressar em curso superior e tinha a duração de cinco anos. O curso feminino, com quatro anos, formava apenas professoras. Foi Henrique Alves de Cerqueira Lima o primeiro a dirigir as "Escolas Normais". (Id.ibid.) Amâncio Pereira inicia a docência como professor normalista anterior a essa reforma, lecionava em sua própria residência e viveu no interior de 1882 a 1888. Certamente, com o advento da República, em 1889, e a nomeação de Afonso Claudio, seu colega no Ateneu Provincial e companheiro de campanha abolicionista e republicana, como primeiro governador republicano do Espírito Santo, ele pôde se transferir para a capital, Vitória, e mais tarde, em 1908, tornar-se-ia um dos docentes das escolas-modelo criadas anexas à Escola Normal.

   Amâncio Pereira foi um abolicionista e um republicano de primeira hora. Maria Stella de Novaes conta que, em 23 de junho de 1879, foi organizado pelos estudantes do Ateneu Provincial, o Clube Saldanha Marinho, cujo programa estampava uma poesia do jornalista Peçanha Póvoa, um dos mestres daquele educandário, dedicado à República : [...] “Salve! República esperada! / Tu és o horror do verdugo, / Vem vingar o Tiradentes, /Ouvindo os versos de Hugo!...” Ainda segundo Novaes, “O Clube era uma sociedade literária que se tornaria a célula-mater dos abolicionistas de escol, jornalistas e eruditos, e fortes. Eram os abolicionistas, na maioria, republicanos; mas absorvidos pela grandiosa causa dos escravos, davam à propaganda republicana o que podiam”. E continua: “Na noite de 23 de junho referido, os sócios do Saldanha Marinho organizaram uma grandiosa manifestação ao Inspetor Geral da Instrução Pública, puxada a Banda de Música e um “discurso inflamado” do estudante Lídio Mululo. E Vivas!... Falaram ainda os estudantes Chapot Prévost, Amâncio Pereira, Cândido Santana, Antônio Ataíde e outros”. Por último, descreve: “Saíram os estudantes, precedidos da Banda de Música, a fim de distribuir a poesia ao povo; mas, ao chegarem ao Cais do Imperador, a polícia barrou-lhes a passeata. Voltaram à sede do Clube, localizado onde se construiu, no século XX, o edifício do Banco do Brasil. Em resposta ao telegrama passado a Saldanha Marinho, receberam a resposta de que “Nossa Legenda”, era “um hino de glória, que se imortalizaria pela coragem e civismo dos moços”. (In:  História do Espírito Santo. s/d. p.275-6).(Joaquim Saldanha Marinho (1816-1895) foi jornalista, sociólogo, político e um dos líderes republicanos. Foi signitário do Manifesto Republicano de 1870. Com a proclamação da República, foi um dos autores do anteprojeto da  Constituição da República de 1891 e senador da República pelo Distrito Federal de 1890 até a sua morte. Informações da Wikipédia). 

   Certamente, o jovem abolicionista e republicano Amâncio Pereira deve ter tido dificuldade para trabalhar, ainda no período monarquista, mas sabe-se que foi colaborador no Tesouro Provincial, antes de se formar, e que, “Aos vinte anos, manifestava-se abertamente a favor da Abolição da Escravatura pelo jornal O Baluarte, fundado em 1882 pelo ilustre Tibúrcio de Oliveira”, conforme Lea Carvalho Ferreira. (In: A Casa Paterna, 1979. P.59-60). Além desse jornal, Amâncio Pereira fundou e dirigiu “O Sete de Setembro” e a “Gazeta Literária”, e colaborou nos principais jornais capixabas: “Espírito-santense”, “Gazeta de Vitória”, “Pirilampo”, “Comércio do Espírito Santo”, “Eco da Lavoura”, “Autonomista”, “A Tribuna”, “Jornal Oficial”, “Diário da Manhã” e na revista humorística “O Olho”, criada por Luiz da Fraga Santos e Aristóteles da Silva Santos” (In: Almanack do Estado do Espírito Santo. 1919. p. III). Suas primeiras publicações foram em jornais e trata-se de poemas românticos, artigos abolicionistas, crônicas e críticas de teatro e primeiros contos como “Leonina”, publicado em “O Baluarte”, em 1882 e, provavelmente, autobiográfico. Também na década de 1880, ainda em Benevente, inicia-se na produção dramatúrgica, inicialmente com comédias e dramas, processo que vai durar toda a sua existência.

 

(Bico de pena de Amâncio Pereira publicado no Almanak de 1889)

       Afonso Claudio afirma que seus primeiros escritos apareceram nos jornais em que colaborava, principalmente em O Espírito-santense e nos periódicos que veio a dirigir, o Sete de Setembro e O Baluarte.  A respeito de seu início de carreira no magistério, afirmou: “Depois de haver feito a peregrinação a que está sujeito o professorado em nosso país, por efeito de remoções nem sempre justificáveis quando não provêm diretamente de mal entendidos caprichos partidários, passou a exercer o magistério em Vitória, onde fundou aqueles dois últimos órgãos e publicou os seguintes trabalhos: Folhas Avulsas, Beatriz ou A Cruz do Juramento, Jorge ou Perdição de Mulher (Novelas). Folhas Dispersas, Humorismos e Homens e Coisas (Contos). Na Lua de Mel, O Tio Mendes, Virou-se o feitiço e o Compasso Musical (Comédias). Conforme, ainda, Afonso Claudio, “Em 1894 publicou as Noções Abreviadas de Geografia e História do Estado do Espírito Santo, livro que está na quarta edição e foi adotado pela Diretoria de Instrução Pública local. Em 1897, os Traços Biográficos (1ª série). Além dos escritos apontados, é autor dos seguintes, que se conservam inéditos: Lícia, Sentimentos de educação (Romances), Noemia, Beatriz e Deomar (Dramas), Quem muito escolhe..., O Penedo, O Engrossa, Coió e Engrossa (Comédias e revistas), Traços Biográficos (2ª série). (Op. cit. p. 381-2). Apesar da imprecisão de alguns títulos ou gêneros, Afonso Claudio cita duas dezenas de obras publicadas ou a publicar do Prof. Amâncio Pereira, o que o tornava o maior escritor à época em que publicou sua História da Literatura Espírito-santense, em 1912. Todavia, é impiedoso o julgamento do principal historiador da literatura espírito-santense, ao dizer: “Vivendo em um meio refratário à cultura do espírito, é um estudioso modesto cujos trabalhos excitam simpatia, já porque são produtos de uma inteligência não disciplinada por superior preparo, já pelo louvável intuito que os recomenda: - não deixar em olvido os homens e coisas assinaláveis da região espírito-santense. A essas circunstâncias ponderosas, acrescente-se a de tratar-se de um homem paupérrimo, onerado de família, sem encontrar emprego à atividade que lhe resta das folgas do seu sacerdócio e compreender-se-á a benevolência com que devem ser julgadas as suas produções”. (Op.cit. p. 379). Afonso Claudio, o líder abolicionista e republicano capixaba, foi governador e desembargador. Homem da elite, herdeiro de fazendas de escravos, foi colega de Amâncio Pereira no Ateneu Provincial. Sabia de sua cultura e inteligência, mas pede “benevolência” ao julgamento da produção de Amâncio Pereira, por ser ele “paupérrimo”, viver em “um meio refratário à cultura do espírito” e ter uma “inteligência não disciplinada por superior preparo”. Com isso, demonstra o mesmo preconceito e arrogância intelectual que teve Sílvio Romero, seu professor na Faculdade de Direito do Recife, ao julgar a obra de Machado de Assis, em 1896. Amâncio Pereira tem tanta importância para a cultura capixaba quanto o sempre incensado Afonso Claudio, se não for maior, pela diversidade de sua obra. Não tivesse ele a origem pobre, ser descendente de negro e de ter sobrevivido como professor e artista, Amâncio Pereira seria, hoje, muito mais lembrado pelos capixabas e sua obra não teria caído no esquecimento como está.

   Sobre a produção literária do Professor Amâncio Pereira, sabe-se que é vasta e multifacetada. Embora tenha iniciado a carreira literária na poesia, no teatro e na prosa, foi a publicação das Noções Abreviadas de Geografia e História do Espírito Santo, a partir de 1894, dos Traços Biográficos, 1897, e do Almanak do Estado Espírito Santo, em 1899, que lhe trouxeram alguma renda, conforme anúncio publicado no Almanak de 1899. Seus livros eram vendidos a 2 mil réis o exemplar. Sabe-se que o salário do professor primário, formado, na época,  equivalia a 3.300 réis mensais. Por aí se pode avaliar o quanto eram caros os livros e baixos os salários do magistério, situação que ainda perdura. Elpídio Pimentel (1894-1971), em Prefácio a “Quando o Penedo falava”, em 1927, cita o pioneirismo de Amâncio Pereira na produção de livros didáticos capixabas como uma exceção: “No Espírito Santo é evidente a carência de manuais didáticos para a mocidade estudiosa. O exemplo modesto, mas pertinaz, de Amâncio Pereira não frutificou. Da cartilha alfabética aos livros do curso secundário, tudo nos vem de fora... De São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. E quase sempre, essa importação é indesejável... Entendo que, antes do conhecimento integral da História do Brasil, a infância espírito-santense tem necessidade de conhecer os feitos de seus heróis conterrâneos e os acontecimentos tradicionais do seu torrão natal” (PIMENTEL, 1927, p. 6).

 

   A partir da década de 1890, com a vinda definitiva para Vitória, o Prof. Amâncio Pereira pôde participar ativamente da vida cultural da cidade, dando suas aulas em suas residências, na ladeira Prof. Balthasar e, mais tarde, na rua José Marcelino, todas no centro histórico de Vitória, bem próximas ao teatro Melpômene, inaugurado em 1896. Artista, tocava piano e rabeca, promovia saraus e sua casa era o ponto de convergência da intelectualidade e dos artistas da época, sobretudo a mocidade de quem era muito querido. Amante do teatro, da música e da literatura, escrevia peças de teatro, ensaiava-as e dirigia os espetáculos. Numa época em que não havia outra forma de lazer, antes do cinema e da televisão, era o teatro a principal atração da sociedade e o Professor Amâncio Pereira foi, na passagem do século XIX para o XX, o principal criador e produtor de espetáculos em Vitória, apresentados no Grêmio “Sete de Setembro” conforme relato de Areobaldo Léllis Horta: “Fui, pela primeira vez, assistir às representações do “Sete de Setembro”, quando os seus espetáculos se realizavam no salão da “Fênix”, à rua do Rosário. Levavam, naquela noite, a “Lua de Mel”, original de Amâncio Pereira, comédia de costumes, apanhando fatos da vida real, em uma sequencia de quadros críticos e, ao mesmo tempo, cômicos, em cujo fundo psicológico se surpreendiam bons ensinamentos de ordem teatral e social. [...] Nas representações, os papéis femininos cabiam aos rapazes, travestidos. Na primeira noite, o espetáculo era dado aos associados, que remetiam para a plateia as cadeiras que deviam ocupar. Amâncio Pereira e Aristides Freire foram dois inconfundíveis animadores da nossa arte teatral, tanto pelo que produziam no gênero, como pelo entusiasmo que sabiam acender na alma daquela juventude, tocada de bons propósitos”. (In: A Vitória do meu tempo. 2007. p. 92-3).

   O século XX se inicia e, no governo Jerônimo Monteiro (1908-1912), a cidade se transforma, com o projeto desenvolvimentista do governador cachoeirense. A carreira do Professor Amâncio Pereira se consolida com sua nomeação para regente de escola masculina na “Escola Modelo”, anexa à Escola Normal, criada em 1908. Em 1905, tinha sido homenageado por seus alunos, ao completar 23 anos de magistério, mas só se aposentaria em 1917, aos 35 anos de magistério, por insistência dos filhos. Seus livros de “Geografia e História” e “Homens e Cousas do Espírito Santo” tinham grande aceitação, mas era o teatro sua maior alegria e onde punha sua maior inspiração. Ao final da vida, resolveu se dedicar ao trabalho hercúleo de organizar o “Almanack do Espírito Santo”, retomando experiência bemsucedida de 1899. Conseguiu organizar o do primeiro ano, mas deixou incluso o do segundo, com a sua morte, de colapso cardíaco, em 13 de agosto de 1918. Toda a cidade parou para reverenciar um de seus mais ilustres cidadãos, o professor, escritor, jornalista, artista, historiador, geógrafo e folclorista capixaba. Viveu 56 anos e deixou uma dezena de obras publicadas, em diferentes áreas do conhecimento, e outra dezena de inéditos, a maioria perdida no esquecimento da pobre memória humana, sobretudo a de pessoas humildes como era o Prof. Amâncio Pereira, o “Pestalozzi Capixaba”. (J.H. Pestalozzi foi um educador suíço, 1746-1827, criado pela mãe, sem o pai, na maior pobreza. Conheceu de perto o preconceito social e teve de lutar muito para ser reconhecido numa sociedade dividida entre ricos e pobres, nobres e plebeus. Após a leitura de “Emílio”, de Rousseau, tornou-se um revolucionário, influenciado pelo movimento naturalista. Fez de sua casa, na fazenda que cultivava com a mulher, a sua escola, onde formou uma geração de seguidores. Sua obra-prima foi o conto moralista “Leonardo e Gertrudes”, publicado em 1781, que o imortalizou. Em 1801, expõe a sua didática pedagógica, o “Método Pestalozzi”, a partir do mais fácil e simples para o mais difícil e complexo e, a partir daí, medindo, pintando, escrevendo e contando. Pestalozzi foi um dos pioneiros da pedagogia moderna, influenciando profundamente todas as correntes educacionais, e longe está de deixar de ser uma referência. Fundou escolas, cativava a todos para a causa de uma educação capaz de atingir o povo, num tempo em que o ensino era privilégio exclusivo. Informações  da Wikipédia).

Referências

ACADEMIA ESPÍRITO-SANTENSE DE LETRAS. PATRONOS & ACADÊMICOS. 4ed. Serra: Formar. 2014. Apoio da Prefeitura Municipal da Serra (Lei Chico Prego).

Almanak do Estado do Espírito Santo. Primeiro Ano. Red. Amâncio Pereira. 1899. Editor A. Moreira Dantas. Vitória-ES.

Almanak do Estado do Espírito Santo. Primeiro Ano. Red. Amâncio Pereira. 1918. Vitória-ES

Almanak do Estado do Espírito Santo. Segundo Ano. 1919. Red. Maria Leonídia Pereira e Heráclito Amâncio Pereira. Vitória-ES.

CARVALHO, José Augusto. “Panorama das Letras Capixabas”. Revista de Cultura-Ufes. Ano VII. N.21.1982.

CLAUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. 2ed. Rio de Janeiro: Xerox. 1981.

DANTAS, Colette. Org. Revivendo o Melpômene. Cinco atos da memória de um teatro de madeira. Vitória: Diálogo, Comunicação e Marketing. 2017.

ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: Edufes/PMV. 1999.

FERREIRA, Lea Carvalho. A Casa Paterna, Vitória. s/Ed.1979.

GAMA Fº. Oscar. Teatro Romântico Capixaba. DEC/INACEN. Vitória-Rio de Janeiro. 1987
_______. História do teatro Capixaba: 395 anos. FCAA/FCES. Vitória. 1981.

HORTA, Areobaldo Lellis. A Vitória do meu tempo. Vitória. AEL/PMV. 2007

LEAL, João Eurípedes F. História da Educação no Espírito Santo. In: http://www.estacaocapixaba.com.br/2016/01/historia-da-educacao-no-espirito-santo.htm.

NEVES, Guilherme S. “Amâncio Pereira e o Nosso Folclore”. Coletânea de Estudos e Registros do Folclore Capixaba. 1944-1982. Vol. 2. Vitória: Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo.2008. Org. Reinaldo Santos Neves.

NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. s/d. Vitória. FCES.
__________. A Mulher na História do Espírito Santo (História e Folclore). Vitória: Edufes/IHGES/PMV. 1999.

PEREIRA, Amâncio P. Homens e Cousas Espírito-santenses. Vitória: Artes Gráficas. 1914.

REVISTA DO IHGES. Ano I. N.1. 1917. Edição história comemorativa. 1917.

 

Francisco Aurelio Ribeiro: é doutor em Letras, professor e escritor.

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Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Outubo de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Adrian’dos Delima, Álvaro Alves de Faria, Álvaro José Silva, Ana Mafalda Leite, Angela Maria Zanirato Salomão, Antônio Roberto Gerin, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Carlos M. Luis, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Cruzeiro Seixas, Eurico Gonçalves ; Dalila d’Alte, org., Dalila d’Alte, Danyel Guerra, Dario Silva, Dennis Ávila Vargas, Deusa d’África, Elisa Scarpa, Fernando Andrade, Francisco Aurelio Ribeiro, Hang Ferrero, Hermínio Prates, João Almino, Lahissane, Lalau Simões, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Lino Mukurruza, Marco Antonio, Maria de Lurdes da Fonseca Marques, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, NILMA LACERDA, Osvaldo Spoltore; Rolando Revagliatti, entrevista, Otildo Justino Guido, Ricardo Ramos Filho, Robson Deon, Sebastián Rivero, Textos, Tiago Rabelo, Tony Marcelo Gomes de Oliveira, Vítor Burity da Silva, Waldo Contreras López, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Perto do leito da morte (febre)', 1915.


Paginação:

Nuno Baptista


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