ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


Bob Dylan é um literato?    

O que acontece no reino das artes? Novos conceitos na pressa das mudanças? Ou apenas uma inovação passageira, incapaz de resistir à tradição arraigada do bem pensar e melhor fazer? Perguntas que me fiz em texto publicado em 2016, mas que não perdeu a validade. O intróito, aparentemente confuso, foi o mote após a escolha de Bob Dylan, batizado Robert Allen Zimmerman, como ganhador do Prêmio Nobel de Literatura naquele ano.

Se o tivessem diferenciado em especial categoria musical, nada a contestar; mas em literatura? A porta-voz da Academia Sueca, Sara Danius, na época, justificou a preferência destacando que Bob Dylan “criou novas expressões poéticas dentro da grande canção americana tradicional.” E o comparou aos gregos Homero e Safo, “que faziam poesia para ser ouvida e apresentada com instrumentos.”

 Jorge Fernando dos Santos, ex-aluno de Jornalismo (com quem mais aprendi do que ensinei), compositor e autor de 42 livros, publicou que “ por esse critério, o Nobel poderia ter sido dado ao próprio Chico Buarque, que além de escritor foi desde sempre um dos maiores  compositores do nosso tempo. Pela justificativa de Estocolmo, Jobim poderia ter merecido o Nobel quando vivo (eles não premiam os mortos) e no auge da carreira. Mais que Bob Dylan, ele inovou a canção universal como um dos pais da Bossa Nova, movimento que influenciou cantores e compositores em todo o mundo, principalmente nos EUA. Tom foi colocado no mesmo hall de Cole Porter e George Gershwin. Chegou a ser o segundo compositor estrangeiro mais tocado na América, atrás apenas dos Beatles.”

Alfred Nobel, o criador, pretendia destinar o prêmio aos que produzissem, através do campo literário, a mais significativa obra reunida em livros, na mentalidade, estilo, filosofia.

De nada valeu, mas soltei meu grito de protesto, como berrei ao nascer após o costumeiro tapa no bumbum dado pela parteira.

Bob Dylan merece louvores, mas desconfio até hoje que a sagração do seu nome pelos velhinhos acadêmicos foi uma jogada de marketing. Quem se lembra dos últimos escritores homenageados? Apenas os iniciados nas letras e mais ninguém.

Depois do peruano Mário Vargas Llosa, vencedor em 2010 e único nome de repercussão mundial, foi escolhido o sueco Tomas Transtömer (2011), Mo Yan (da China, em 2012), Alice Munro (Canadá, 2013), o francês Patrick Modiano (2014) e Svetlana Aleksiévitch (Bielorrússia, 2015), autora do interessante “A guerra não tem rosto de mulher”, que versa sobre a subestimada participação das mulheres russas na II Guerra Mundial.

O livro reúne os depoimentos dramáticos, gravados e transcritos pela jornalista. É uma grande reportagem, não obra de ficção. Merecedora do Prêmio Pulitzer sim, mas um Nobel?

De igual valor é “No Calor da Hora (A guerra de Canudos nos Jornais)”, onde Walnice Nogueira Galvão (essa sim, com doutorado em Letras) exibe extensa pesquisa sobre o que os vários jornais da época publicaram, em diferentes cidades, referentes à conflagração.

Foi após a cobertura que fez para o jornal O Estado de S. Paulo que Euclides da Cunha percebeu a dimensão da tragédia social e a usou como base para o importantíssimo “Os Sertões”.

 E “Os 10 Dias que Abalaram o Mundo”, livro de John Reed sobre a Revolução de 1917 na Rússia? Outra reportagem de intensa dramaticidade.

 Quem concorreu com Dylan? O japonês Haruki Murakami, o poeta sírio Adonis e o queniano Ngugi wa Thiong’o. Independente de valores, que repercussão causaria qualquer um deles se fosse o vencedor?

Sobre a concessão do prêmio, Antônio Luiz M. O. Costa, editor internacional da revista CartaCapital, ao analisar os impasses políticos e a crise de capitais na Europa, incluiu uma crítica. “Talvez até a esdrúxula escolha pela Academia Sueca de Bob Dylan para o Nobel de Literatura, desdenhada pelo próprio músico, deva ser lida como expressão de ansiedade das elites por não serem deixadas para trás.”

Em artigo publicado na mesma revista, o balofo amorfo Delfim Netto, o ex-pluriministro dos ditadores pós 1964, expressou sua desconfiança sobre os economistas honrados com o Nobel nos últimos quatro anos.

“Temos a impressão de que alguma coisa se move em Estocolmo. Infelizmente, a lista dos premiados de 1969 a 2016 não revela alguém que tenha, de fato, contribuído para melhorar o bem-estar da humanidade, como é o caso dos agraciados com o Nobel de Física, Química e Medicina. Estamos diante de um clamoroso fracasso da ciência “macroeconômica”, revelado não apenas na sua incapacidade de antecipar a maior crise econômica desde 1929, mas porque, pela teoria, ela não poderia ocorrer...”

E foi na crise de 1929, na quebradeira geral dos Estados Unidos, que surgiu e se agigantou um menestrel desabusado, inspirador de uma nova geração de música folk e de quem Bob Dylan foi discípulo.

Woody Guthrie (1912-1967), registrado Thomas Woodrow Wilson, escreveu na guitarra a frase “esta máquina mata fascistas” e viajou em muitos trens com os migrantes de Oklahoma para a Califórnia, eldorado de plantações infindas e fome para todos. Era a Grande Depressão, retratada com perfeição no livro de John Steinbeck, “As Vinhas da Ira”, publicado em 1939.

Woody Guthrie foi perseguido e boicotado; Dylan, com inegável mérito, sempre teve visibilidade na mídia. A voz “inconfundivelmente anasalada geme os males da humanidade, como fizeram os mais pungentes intérpretes do blues e do folk. A aura de gênio solitário em eterna busca de explicações para o inexplicável mundo que o cerca está impressa em clássicos renovados a cada interpretação, sendo “Blowing’in the Wind”, “Ballad Of a Thin Man”, “Like a Rolling Stone” e “Hurricane” apenas alguns sucessos entre suas cerca de 450 composições”, destaca um crítico que não assinou o texto na revista.

Também anasalada – bem menos - era a voz de Woody Guthrie, que dispunha de maior alcance vocal. Bob gravou nos melhores estúdios, foi visto e ouvido por milhões de pessoas em shows magníficos, com ampla cobertura da mídia. Woody usava, quase sempre, apenas a guitarra. E nas emissoras de rádio de pouco alcance era boicotado e punido pelos empresários que nem queriam saber de denúncias contra a exploração dos miseráveis.

Dylan seguiu os passos do beatnik Jack Kerouac e de Allen Ginsberg, poeta e guru da geração beat e harmonizou cantos denunciando o racismo, a guerra fria, a do Vietnam, injustiça social.

Inspiração poética é uma coisa, seja beat ou beatnik, cujo sumo é similar, mas muito diferente de quem convive com a violência, intolerância e fome, como foi o caso de Woody Guthrie, um simpatizante comunista a cantar nos vagões de carga e campos de colheita para desempregados e esfomeados bóias frias.

Todos se lembram que a escolha de Bob Dylan causou estranhamento e até ele talvez tenha ficado constrangido. Tanto que inicialmente se negou a receber o prêmio, só o fazendo depois.

E as escolhas seguintes? Após o escândalo com a denúncia de abuso sexual e de vazamento de nomes de vários ganhadores do prêmio envolvendo o dramaturgo Jean-Claude Arnault, marido de uma das integrantes da Academia Sueca, o Nobel de Literatura foi cancelado. Arnault, mesmo jurando inocência, foi condenado por estupro.

Para recuperar o prestígio abalado, a Academia decidiu premiar dois escritores em 2019: a polonesa Olga Tokarczuc e o austríaco Peter Handke, ela de esquerda e ele admirador do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic, acusado de genocídio e crimes de guerra.

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda - Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

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