ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

João Almino


Entre facas, algodão, sétimo e mais recente romance de João Almino (Fragmento)    

 

[Capa: Entre facas, algodão, João Almino, editora Record]

 

Entre facas, algodão, sétimo e mais recente romance de João Almino

      (Fragmento)*

 

 

  João Almino

 

                                                                               Abril, Páscoa

Pensei em tanta coisa antes de ligar... Em perguntar se ela se lembra de tal ou qual momento, como se sente vivendo sozinha numa fazenda, se alguma vez pensou em mim... Meus sentimentos ficaram embotados. Mas foi possível perceber emoção na sua voz. Sobretudo registrei bem o que disse:

Que bom que você está voltando.

Escavando sob meus pés, encontro muitas lembranças dela. Os sonhos têm memória. A Clarice do futuro — acho que existe, apesar de tudo — tem muito da Clarice do passado.

Se não me engano, foi em 58, plena seca, quando pela primeira vez senti por ela algo parecido com o amor. Não quero falar demais, porque não tenho certeza e não me lembro direito. Era muito pequeno. Podia ser naquele ano ou em qualquer outro que o rame-rame era o mesmo, morcegos voando de madrugada, árvores peladas, o verde só nas folhagens dos juazeiros, nos xiquexiques e mandacarus, carcaças de animais pelos caminhos de terra poeirenta exalando bafo quente, o sol queimando e secando o mundo, dentro de mim tudo seco. Em poucas palavras, o de sempre, agora cruzado por algum caminhão-pipa e à espera da transposição do Rio São Francisco.

Ou talvez tenha sido inverno, pois me lembro do açude com água, o verde das árvores espinhentas e baixas, verde-claro e brilhoso, a roça atrás do açude também verde, e eu acordava cedo para ir ao curral ordenhar as vacas. Não sei direito, me desculpe quem vier a ler isto. Ou, ora bolas, não me desculpo, pois não devo me desculpar de minhas contradições se são as meras contradições do sertão, seco ou molhado, contradições que hoje ainda existem. Quando seco, a paisagem cinza, realçada por pedras e caveiras, digo sem nenhum exagero. Quando molhado, molhado demais, assustando a gente e causando desastres.

 

                                                                                 21 de abril

Feriado, fiquei em casa. Achei que Patrícia ia querer me perturbar. Me ignorou, pelo menos até agora. Fico tranquilo para continuar estas anotações sobre meus tempos do Riacho Negro, de Várzea Pacífica, aquela época em que Clarice foi tão importante pra mim. Um dia, quem sabe, mostro estas páginas a ela.

Pode ser até que não me lembre propriamente. Que a realidade daquele passado esteja só na minha imaginação. Devo estar misturando várias secas e várias enchentes. Então, sim, por essa confusão devo me desculpar com quem vier a ler estas anotações, feitas assim rapidamente sem preocupação com estilo ou vocabulário.

Olho meu passado não com orgulho, mas com resignação. Muitas das turbulências que me atormentavam se apaziguaram. O que me despertava paixão agora está arquivado na memória como fotos num álbum de páginas amareladas pelo tempo. Algumas dessas fotos, cobertas de fungo. Outras, tão coladas entre si que, quando a gente tenta despregá-las, se rasgam deixando brancos.

Clarice é exceção. Minha lembrança dela é nítida como a fotografia bem guardada no fundo de uma de minhas gavetas em que ela olha pra mim com olhar que sinto ser apaixonado e até hoje transmite vibrações por meu corpo.

Recupero pedaços de mim para criar esta história contraditória e verdadeira, que me atormenta. Por isso tenho que pôr pra fora. Como contraditórios e verdadeiros, além do sertão, eram mamãe, que me punia e me protegia, e meu padrinho, pai de Clarice, severo e carinhoso. Eu aceitava as mudanças de humor deles como aceitava mudanças de humor da natureza. Achava normais minhas alegrias e tristezas.

No inverno a chuva cobria o campo verde, o chão ficava marcado com o barro das botas, as conversas e risos se prolongavam no alpendre da casa-grande de meus padrinhos, os aboios se animavam no campo, as muriçocas me picavam na nossa casa de tijolo aparente e vermelho, eu me enrolava na rede e envolvia o rosto com o lençol, deixando só o nariz de fora e ouvindo os pingos bater nas telhas.

Já na seca, o sol impiedoso castigava a fazenda do Riacho Negro e me cegava a vista. A poeira açoitava os campos cinzentos, de árvores despojadas, o açude minguado, as cacimbas sem água, as pessoas zonzas cozinhando irritação no calor, e o curral vazio, o gado tangido para o Piauí.

Nisso pode ser que de novo misture tempos, me desculpem, a seca de um ano com o verão prolongado de outro. Mas não invento nada, no máximo é a memória que me trai aqui e ali, coisa da idade, aos setenta anos a memória falha. O que é certo é que as paisagens da secura traziam sempre as mesmas árvores calcinadas, a mesma ruína cinzenta e a mesma irritação. Acho que são sobretudo elas, as paisagens da secura, que marcam os sertanejos feito eu.

...

                                                                               7 de maio

Quando penso na viagem em breve ao Riacho Negro, o passado assume tonalidades acinzentadas, vago e fora de foco. Aqui e ali surgem luzes que iluminam, rasgões no escuro e sem continuidade, a cara encarquilhada de minha avó, os vestidos de chita de mamãe, o paletó de linho branco e botas lustrosas de meu padrinho, pai de Clarice, os chocalhos balançando nos pescoços das vacas leiteiras quando saíam de manhã cedo para pastar e voltavam de tarde para o curral, o pião que eu jogava na calçada alta de cimento da casa-grande, os papagaios a voar quando o nordeste chegava quente soprando galhos secos, o meu carneirinho branco no qual eu montava antes de levá-lo ao chiqueiro no final da tarde, o gibão, perneiras, peitoral e chapéu de couro de Seu Rodolfo, pai de meu amigo Arnaldo e marido da bela Vitória.

Vitória... Devo falar também dela? Me lembro que, na janela pobre, exibia um sorriso misterioso para mim em dentes perfeitamente alinhados, vestido leve e decotado mostrando o vinco entre os peitos. Não, não vou falar dela. É só uma imagem de passagem, um sorriso na janela, um desejo de menino.

Olhando nas cinzas do passado, vejo mãos calejadas no cabo da enxada e outras, delicadas, de Clarice, acariciando as bolhas de minha catapora, que ela queria pegar. Vejo os campos de algodão, branquinhos, muito branquinhos, subindo e descendo morros a perder de vista, e Arnaldo chamando-me para acompanhá-lo em algum trabalho, sempre em lombo de burro. E depois ouço suas gargalhadas cúmplices pelo caminho, vozes ásperas me dando ordens, outras me acalentando.

De repente surge minha irmã Zuleide, que hoje mora em Recife, dois anos mais velha do que eu, arengando comigo por causa de uma brincadeira que eu não entendia e continuo não entendendo. Pedaços do passado que chegam me assustando ou me convidando a um reencontro. É o que vejo; o que ouço. O resto imagino, e devo descrever?

Fecho os olhos. Lá no fundo aparece a paisagem do açude, de brilho pontuado por marrecos e mergulhões. Ainda estão lá? Às vezes descia com Arnaldo, tangendo o jumento Cinzento até a vazante para colher capim, melancia ou jerimum. As melancias se espalhavam feito erva daninha, um tapete verde pelo meio das plantações de milho. Enchíamos os caçuás, e Cinzento penava subindo a ladeira empedrada para que depositássemos a carga nos tonéis dos armazéns ao lado da casa-grande.

                                                                                 21 de maio

Papai não aparece por esses rasgões de luz que vejo nas cortinas embotadas do passado. Minto. Ele aparece, e muito, quando vejo, assombrado, o que não vi: a faca dilacerando sua barriga, o sangue escoando feito rio pelo chão, o cadáver encostado na porta de um beco de Várzea Pacífica, a cidadezinha perto da fazenda do Riacho Negro onde morávamos...

E então talvez quando o que vi com apenas dois anos, não tenho certeza, as imagens estão fora de foco: uma cova funda, um montículo de terra com flores e uma cruz... Ele é uma história terrível que me angustia sempre. Ou então é uma fotografia junto com mamãe, fotografia retocada a cores, na qual o rosto preto de mamãe está rosado e seus lábios trazem um batom de um vermelho que nunca vi ao vivo. Uma fotografia emoldurada e pendurada na parede da sala de nossa casa pobre, de tijolo vermelho.

O assassinato de papai cozinha alguma coisa dentro de mim, uma coisa que vai explodir, tenho certeza. Vingança? Quando eu chegar ao Riacho Negro e sobretudo quando visitar Várzea Pacífica, ainda vou me deparar com esse fato do passado que não para de me atormentar. Enfrentar necessariamente o assassino.

...

2. Voo Brasília-Fortaleza

                                                                                           1.º de junho

Olhando as chapadas pela janela do avião — será a Mantiqueira? —, deixo aparecer outro ser que vivia dentro de mim, outro de mim contra quem sempre lutei. Ser triste, de tristeza terna e contente, que se relaxa na sua própria natureza. Que talvez queira encontrar futuro no passado, tenho de admitir. A gente não tem controle sobre o que se lembra. E o que se lembra pode insistir em nunca ir embora, até acorda a gente de madrugada. Pode estar pra cá ou pra lá do que aconteceu.

Às vezes fica difícil traçar a fronteira entre lembrança e imaginação. Às vezes a realidade se impõe às duas. Às vezes a fazenda que pertencia a meu padrinho me traz más lembranças. A fazenda ficava a três léguas de Várzea Pacífica, que, quando eu era criança, nem várzea nem pacífica era. Assassinatos a todo tempo. Terríveis assassinatos! A mais terrível de todas as lembranças me chega por tabela, lembrança de lembranças. Papai assassinado a peixeiradas. Ainda vejo o sangue saindo de sua barriga, esguichado, desparramando-se pelo chão.

Lembranças mesmo, quando tenho, são vagas, de gritos, portas batendo, eu correndo por um descampado sem fim. Eu seguia caminhos sinuosos e esburacados ouvindo choros fortes de mulher, acho que de mamãe, de vovó. Finalmente chegamos ao lugar de chão ondulado e marcado por cruzes, onde, ao lado de um buraco sem fim, foi depositado o caixão que não sei se vi ou imaginei, em madeira lisa e pintada de preto. O montículo de terra ali ao lado me parecia uma montanha também infindável, montanha que eu não conseguia escalar. Lágrimas ainda caem de meus olhos pelo que não vi, me desculpo uma vez mais com quem tem paciência de continuar me lendo.

Como posso me lembrar direito? Tinha só dois anos. Sei da violência do assassinato de papai pelos relatos que ouvi anos depois. Mais de vinte peixeiradas, sangue escorrendo pela calçada. Sangue, muito sangue, um vermelho que mancha todas as minhas lembranças.

 

* Este romance sairá em inglês em janeiro pela Dalkey Archive Press com o título de  The last twist of the knife.

 

Link vinculado à InComunidade, ed. 96:

Antônio Torres, Entre facas, algodão. (O 7º. romance de João Almino tem ao fundo um país no qual os crimes mudaram apenas de armas). http://www.incomunidade.com/v96/art.php?art=343

[João Almino. Autoria, Bia Wouk]

 

João Almino, um dos nomes mais importantes da literatura brasileira,  tem sido aclamado pela crítica por seus romances Ideias para onde passar o fim do mundo (indicado ao prêmio Jabuti e ganhador de prêmio do Instituto Nacional do Livro), Samba-enredo, As cinco estações do amor (Prêmio Casa de las Américas 2003), O livro das emoções (indicado ao 7o Prêmio Portugal Telecom 2009), Cidade livre (Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon 2011; finalista do Jabuti e do Portugal Telecom) e Enigmas da primavera (finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016; prêmio Jabuti, 2.o colocado, pela edição em inglês). 

Entre facas, algodão é seu mais recente romance. Alguns desses romances foram publicados na Argentina, Espanha,  EUA, França, Itália, México e em outros países. Seus escritos de história e filosofia política são referência para os estudiosos do autoritarismo e da democracia. Também autor de ensaios literários, doutorou-se em Paris, orientado pelo filósofo Claude Lefort. Ensinou na UNAM (México), UnB, Instituto Rio Branco, Berkeley, Stanford e Universidade de Chicago. Em 2017 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

www.joaoalmino.com

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Paginação:

Nuno Baptista


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