ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Do Primeiro ao Último    

 

[A RODA DA FORTUNA, acrylic on canvas 42"x 42"
acrílico sobre tela 82cm x 82 cm, Do Primeiro ao Último]

 

Dizem que da primeira vez a gente não esquece: o primeiro beijo, a primeira viagem, a primeira mudança de casa, a primeira novela, a primeira decepção, o primeiro tudo. Recordamos sinestesicamente o gosto de um carinho especial quando ouvimos uma música ou comemos determinada marca de bombom. E, na busca da "emoção eterna" perdida, tem mulher que guarda o primeiro maço de cigarro que fumou na vida ou a caixa de fósforo do primeiro motel, mesmo que, logo depois, o namorado tenha se mostrado um tremendo crápula, engravidando-a e fugindo com a sua melhor amiga. Não importa. Em nome dos "bons tempos", ela continua guardando, suspirosa, estas relíquias afetivas (na maior parte, quinquilharias), como se conservassem o sabor da primeira tragada (que lhe deu tosse) ou da primeira noite de sexo (que lhe deu dor).

O primeiro sempre parece ser o melhor. O único. Lembro-me do primeiro episódio (e único) pitoresco que tive em todos os meus anos de advocacia. Na época em que eu acreditava muito nas letras da lei, fui defender certa vez uma operária (eu era advogada trabalhista voltada para os empregados) que não tinha recebido seus direitos ao sair da firma, mas que havia assinado um recibo em branco. Falei-lhe que se tratava de uma causa perdida. Ela, porém, estava tão sinceramente revoltada, que eu não precisava ser nenhuma especialista da série Lie to Me para acreditar na veracidade da versão da moça. – “Você não achou que um recibo em branco podia prejudicar você?” – perguntei. – “Eu sabia do risco, doutora, mas faria qualquer coisa na hora porque eu precisava muito daquele emprego: sou mãe solteira com uma filha pequena, eu estava em desespero, era pegar ou largar...”. Não era a primeira vez que eu via um caso como este, para falar a verdade meu escritório estava repleto deles. Acabei aceitando, mas avisei: "– Só ganharemos se seu patrão faltar à audiência". No dia fatídico, gelei quando ela disse que o patrão havia chegado. Só que, de repente, na data prevista, vejo minha cliente mudando de atitude e falando em tom bem alto: "Mas olha lá, Drª, ele está diferente, está de peruca... o cara é totalmente careca, olha como ele está gozado...". Não contendo o riso, começou a apontar para o homem, que perdeu de imediato a pose arrogante. Os demais empregados que superlotavam o corredor da Justiça do Trabalho naquela tarde devido a um dissídio coletivo, como que em uma espécie programada de vingança solidária de injustiçados, começaram a alvejá-lo com piadinhas. Alvo da zombaria de muitos, sentindo-se ameaçado e pressionado pela reação totalmente inesperada, o empregador escapou o mais rápido possível daquele suplício, sumindo pelas escadas que escalara antes, sem nem tentar chegar perto do elevador; e minha cliente ganhou o processo à revelia (nem recorrer o empregador quis...). Talvez tenha sido a primeira peruca que o homem colocou em público, e provavelmente a última, porque há situações preconceituosas que machucam bastante.

O começo é sempre o novo, mesmo que se trate de um recomeço. Porém há um certo bloqueio ostensivo, uma sólida barreira contra o último – talvez porque inconscientemente haja uma analogia latente com perdas doídas e tristes, o último pedido, o último olhar, o último suspiro. São raros os "últimos" que se tornaram famosos: O Último dos Moicanos e Os Últimos Dias de Pompéia – aliás duas tragédias. Sucesso dos últimos só através dos computadores de última geração, da última moda ou dos modelos de carros “últimos-tipos”, para os que querem adquiri-los. Tirando estas exceções isoladas, a tendência é esquecermos sempre dos últimos, mesmo quando eles são responsáveis por perdas benéficas, como a última vez que se roeu unha, ou quando alguém deu o basta em um relacionamento abusivo.

Há ainda o “quem ri por último ri melhor”, provérbio que me aflige, mesmo em se tratando de boas gargalhadas de consolo ou de vingança. Dizem, também, que “os últimos serão os primeiros”. Porém na prática é raro a constatação desse fenômeno, a não ser na fila do ônibus, quando as últimas pessoas a entrar esperam para ir sentadas, tornando-se assim as primeiras do próximo veículo (ocasião especial em que nos lembramos de dois ditos populares: "quem espera sempre alcança" e "espere sentado, se não você se cansa", que acaba virando: espere em pé para ir sentado, se não você se cansa mais ainda).

Devíamos prestar mais atenção aos últimos, em vez de os bloquearmos em nossas vidas. Exemplo: você se lembra do pior colega da sua sala, do último da turma? Dificilmente; mas, do primeiro, certamente, até porque seus pais deviam falar tanto dele, que, mesmo querendo, você não poderia esquecê-lo. Somos treinados a ficar indiferentes aos últimos, quase sempre os desprezamos; mas várias vezes, nas corridas e maratonas de rua, o esforço do último competidor que chega tantas vezes machucado, em frangalhos, mas sem desistir é heroico, por ter sido o maratonista o último a abandonar o barco, no caso a pista, sem desistir do seu propósito. Os primeiros são novidade, os últimos, experiência e também vitória, dependendo das circunstâncias. Proponho então nos descondicionarmos dessa espécie de "trauma dos últimos". Nem sempre os finais são maus (ainda há finais felizes), nem sempre os começos são bons (principalmente quando repetimos antigos erros) ...

Mas... esperem: deletem esta minha proposta, por favor, acabo de mudar de ideia. Esse tal de “recordar é viver” nos prende ao passado, nos faz escapar do presente, que – este sim – deve ficar em primeiro plano, e não em último. Afinal, até que ponto este ressuscitar nostálgico é construtivo, se neste review estamos é nutrindo de passado o nosso presente, que nunca acontece porque quase nunca estamos nele? Adiamos sempre o agora para o futuro (“fiado só amanhã”), indefinidamente. No Tarô Mitológico, a Roda da Fortuna é representada por três irmãs – temidas até pelos deuses –, as Moiras, que estão sempre tecendo incessante e ininterruptamente a vida, e que nos ensinam a ficar atentos a todos os momentos, quaisquer que sejam eles, inclusive aos fins de cada ciclo, pois são eles que propiciam o início dos próximos. Obedecendo os ditames das Moiras, parto para novos começos. Ultimo então esta crônica, retirando-me dela primeiro e pedindo ao último a sair que apague a luz.

(Em tempo: não precisa fechar a porta).

 

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

Pedro Lázaro: Artista plástico brasileiro, vivendo nos Estados Unidos. Pintor, desenhista, professor, fotógrafo, escultor e ilustrador. Realizou várias exposições individuais e coletivas, tendo recebido diversas premiações. Algumas de suas obras podem ser vistas em: http://www.pedrolazaro.com e no Facebook. Na foto, o quadro que se chama Passeata pela Paz e que está no consulado brasileiro, em Miami. A pintura contém a palavra Paz escrita em mais de 50 idiomas, inclusive esperanto e braile.
pedrolazaro110@gmail.com

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