ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Leonardo Almeida Filho


Poemas II    

Viagem através do espelho

 

Depois que deito fora
a máscara,
qualquer uma delas,
tudo que sobra sou eu,
o andrajo de mim,
esse que se esconde
e que escancara
a precariedade de ser
aquele que a cidade afaga,
que a verdade apaga,
a vida afoga,
e toda falsidade lambe.

De que servem tantos
sinais
se o Pare impera
e a realidade é um cartaz
com uma enfermeira cobrando silêncio?


 

 

 

 

 

Os mesmos

 

Podia tanta coisa
(os desvios)
não fossem os trilhos
Talvez o mundo
(sem fronteiras)
não fossem as amarras
Ou os sete mares
(sem calmarias)
não fossem as âncoras

Podia outros caminhos
(mesmo íngremes)
não fossem as pedras
Outras cidades, países
(planetas)
não fossem as correntes
Talvez outros amores
(desejos)
não fossem os medos

Podia ser outro e melhor
(distinto)
não fossem as culpas
Quem sabe outros modos
(jeitos, maneiras)
não fossem os outros
Mas nada parece romper
os trilhos, as amarras, as âncoras, as pedras, as correntes, os medos, as culpas, os outros
e seguimos
os mesmos.


 

 

 

 

 

Uma viagem

Parte do que sou vem
do que são os outros
Ninguém é
sem alguém
Seguimos assim – plenos de incompletude
buscando uma perfeição inexistente

Cézzane não seria sem Tintoreto
que não seria sem Giotto.
O que seria de Joyce sem Cervantes
e, desse, sem Homero?

O homem é um animal de patas
quádruplas
cérebros duplos
e alma infinita.
Por isso sou parte
do que és.

Que seria de meus versos
sem Drummond e sem Bandeira?
O que seria do meu amor
do meu desejo
(da minha vontade de viver)
sem você?

O homem é esse animal
que acredita
sinceramente
na eternidade.


 

 

 

 

 

Atrás da porta

 

Quando abrir a porta
certifique-se de estar seguro
há sempre um murro à espreita
uma adaga em tocaia
garras e dentes em vigília

Quando fechar a porta
assegure-se de
que todo mal fique lá fora.
Regue as orquídeas
limpe a casa
forre a cama para seu amor

A vida deveria ser
a casa limpa, a flor viçosa
e o amor na cama
mas, atrás da porta,
os demônios uivam
e devoram almas incultas
incautas
que se comprazem com a tragédia
e pisam flores,
derrubam casas
e exterminam os amores.


 

 

 

 

 

Disiecta membra

Heinse me diz, em seu Ardinghello,
que a vida vinha aos pedaços
olhos, focinhos, narizes
numa mistura de orelhas e bocas
em cada traço guiado por mãos severas
e era impossível saber de onde era o osso
que a sanguínea e o carvão
registravam no papel.

É algo assim como um poeta
que falando do umbigo e pelo umbigo
não sabe ou sente o coração que pulsa
na ante-sala do vazio
e tudo acaba sendo, quando muito,
meramente um belo verso
que não abraça a imensidão, nem o delirio.

Poemas aos pedaços são como ossos
de um cavalo não sabido
e nunca desenhado
perdendo-se a possibilidade de um galope
e do voo de algum pégaso imaginado.


 

 

 

 

A fossa 

      
        Aos meus amigos poetas

Não se atreva a salvar um poeta
é no afogamento que eles respiram
vivem no mergulho mais profundo
onde a poesia encandeia
seus olhos frios
de peixes acostumados às fossas.

Não toque neles
retirá-los, à força, da água,
por melhor que sejam seus motivos,
é determinar a sua morte
e o fim da poesia.

Um poeta em conforto
é criatura inerme
porco-espinho nu
serpente sem presas
tigre sem garras.

Deixai, portanto que eles se afoguem
a cada braçada em direção ao abismo
num lugar que nunca apreenderemos
e tragam a luz de seus versos para nossa escuridão.

Só os poetas percebem
a lenta agonia
que sofremos
sem nos darmos conta
que morremos
como peixes sobre a terra

 

 

Leonardo Almeida Filho, paraibano de nascimento (Campina Grande, 1960), candango de criação, professor universitário, escritor, ensaísta, reside em Brasília desde 1962. Mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília (2002), com dissertação sobre a obra de Graciliano Ramos (publicada pela Editora da UnB em 2008 sob o título “Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito”).  Alguns trabalhos publicados: “O livro de Loraine” (romance, 1998), “logomaquia: um manefasto” (híbrido, 2008); contos em coletâneas organizadas pelo escritor Ronaldo Cagiano “Antologia do Conto Brasiliense” (2004) e  “Todas as gerações” (2007) e pelo Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); poesias em coletâneas organizadas pelo escritor Joanyr de Oliveira Poemas para Brasília (2004) e pelo Prêmio SESC de poesias Carlos Drummond de Andrade (2011). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro “Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem”, que aborda o cenário político-cultural do Brasil em fins de 1942, no cinqüentenário do escritor Graciliano Ramos. Publicou em 2014, pela editora e-galaxia, o volume de contos “Nebulosa fauna & outras histórias perversas”. Publicou em 2018 o volume de poesias “Babelical”, pela Editora Patuá, em 2019 o romance “Grande Mar Oceano”, pela Gato Bravo e em 2020 o seu novo livro de poemas, “Tutano”, editado pela Patuá. Email: leo.almeidafilho@gmail.com

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Paginação:

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