ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Tiago Rabelo


Um sopro no olho do vento    

O rio transcreve memórias,
enquanto peixes percorrem o infinito.

[e]feito d’O odor do <coração> dos homens

viu-se sujeira na rua
[uma imensa pedra na rua]

viu-se não,
muitos cerraram os olhos

e o destino é um salto no escuro.
justamente por isso,
as borboletas correm para os campos.
justamente por isso,
deus mora
numa encruzilhada
numa estrada de pedra-sol
de uma volta sem caminho
- local onde as flores semeiam o vento.

o senhor do tempo
ainda canta seus tortuosos cantos
mas não há mais
a ociosa espera dos dias de ano.
a esperança é enfeite,
é o doce do alimento dos loucos.

deus, assim,
nos assiste
do alto de sua morada.

[todos os homens já foram mortos

na imagem
daquela Estreita Porta,
indo em direção à rua,
deus ainda canta.
urge como o sopro do lobo
que rompe o escuro]

todo corpo é derivado de outro corpo.
todos os corpos ocupam o mesmo espaço.
todo cimento é fabricação humana,
feito da rudeza volátil
do coração dos homens,

tudo

em algum lugar,
em algum vale,
bem perto do onde
ou na rabeira de uma estreita ilha
[barulha uma fratura
n'] as nervuras
[que] afluem o firmamento, o sangue
- e a água confecciona o rio,
e o rio inventa a água.

 

 

 

 

 

 

um sopro no olho do vento

subo no convés do tempo.                      
vejo de lá uma morada
no fundo do fundo uma fresta
e dentro de mim um menino
por dentro das minhas horas.
 
tenho teto sob o que não tenho.
sonho com o que já foi,                                                                              
fico a espreitar ventanias,
relampejos de dias pretéritos.

singra em mim o mar.
enfada-me o gemido das águas
enquanto um sopro
encarna o olho do vento.

 

 

 

 

 

 

breves anotações para um dia de chuva ao som de milton nascimento

toda palavra
cabe dentro de um suspiro |
toda língua pode ser evitada |
toda linguagem é
um desfecho trágico |
toda palavra é
um abismo, um vale e um matagal |
uma língua é uma cor, um código |
toda linguagem é espaçosa
           como um grito |
toda língua é breve como um gemido |
toda palavra é líquida |
toda linguagem é
               um aceno, um gesto |
toda palavra, toda linguagem, toda língua:
tudo e nada |

toda linguagem é
um mapa, uma geografia desabrigada |
toda língua é arame
          - [farpado] | e cada palavra, uma
   des.   espera.   nça;
uma forma de omitir |
uma palavra dura mais de mil anos |
uma língua dura a fração de um instante |
uma linguagem não dura nada |

toda palavra é linguagem |
a língua é um caso à parte: |
uma língua é uma árvore cercada |
toda linguagem é incendiária:
álcool, gás, isqueiro; luva, vapor, fumaça |
e cada palavra, um chuvisco |
e uma gota para cada língua |

- toda palavra é vanguarda.

 

 

 

 

 

 

o verbo i

aquilo que não queremos calar
- em nós –
é o que nos cala.
inabilidade dada
aos dias,
às horas.
ecos e suas ressonâncias,
suspiro, transbordamento,
distanciamento consanguíneo
rente ao orifício
[tudo passa pelo crivo que
silencia].
verbo que vemos
ao nos vermos.
reflexo do espelho que somos
- do lado de fora –,
não do que sentimos.
representações
[apenas representações] só
existe palavra:
a palavra que existe
quando a palavra ainda não existe.

 

 

 

 

 

 

o verbo ii

as luzes acesas
- não pra’sempre,
mas por’enquanto – 

refletem a voz, o dorso,
teu nome desenhado
sobre a pedra.

[a imagem de dias febre:
fluido que move o corpo
quando a província adormece]

refletem o mar fleumático
de ondas agitadas.

[difícil é planar sobre a língua
do fogo, ilhar o vento,
esticar os olhos,
não lembrar]

refletem o mar
de ondas enterradas
pelo espírito noctâmbulo.

[esperar pelo tempo
que descasca os pés e o sonho]

refletem
o interior do mar-esquecido. 

tua voz opala o brilho
e o avesso do corpo berra

- as luzes esculpidas pelo teu rosto
permanecem acesas.

 

 

 

 

 

 

o verbo iii

*
o mar é que precede
nas margens dos porquês
- um mar intransferível,
rente.
**
nossos pés tocando aquele infinito.
***
em vista, abraçamo-nos!
****
nossos domicílios serão postos
no fogo, no fundo escuro da noite
quando
***
uma voz de repouso cantar na pedra:
seja para mim morada,
um sol por baixo do sepulcro!
**
e o coração cair no buraco
de dentro do peito embaraçado
*
depositarei teus pés na rocha
que é claridade. debaixo do sepulcro
de teu rosto brotará uma haste
**
e teu rosto será abrigo,
a memória será nossa paisagem.
***
a cisterna das nossas esmolas virá
do sangue do meu engenho
no rastro de uma estrela
cadente
**
[berra o marinheiro:
o mar está aberto!]
*
pouco a pouco vamos cortejar labores, esperas.
fios de medo rasgam a pele do mar.

 

 

Tiago Rabelo (Teresina-PI), jovem escritor brasileiro, graduado em História pela UESPI, professor e autor d’As Vozes desse Rio (Editora Multifoco, 2018). Tem poemas e textos publicados em diversos sites, blogs, jornais e revistas literárias da internet. Colabora, na medida do (im)possível, com a agitação da cena cultural local. Um corpo que ocupa a cidade.

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Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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