ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Vítor Burity da Silva


Até sempre, camaradas!    

(carta de um doente de depressão profunda)


Acordei cedíssimo nos escombros de uma noite infinita e à porta de saída do sono um verme de gravata. Lábios sombrios e escamas na face, bem perto dos olhos um cheiro de geringonça numa gaiola sem pássaros, apenas a ilusão de poder haver um refresco para desiludir o resto que acabara de chegar.


Querendo ainda assumir uns passos breves no silêncio parecido com o de tantas outras madrugadas assim passadas, uma raiva lúgubre, ter de não incomodar as almofadas do paraíso, um destino deixado à sombra das portas daqueles corredores tanto enormes como pequenos, uma brisa sei lá, a janela fechada ainda e as cortinas distribuídas de par em par, a escurecerem pensamentos vadios na cabeça de alguém que se esqueceu sem saber como, de sorrir.


Alguém assim cede às cruzes de muros brancos e lá dentro os finados, esses, quem sabe se um dia felizes ou eternamente inebriados pelas chuvas suaves e breves dos quintais de partidas e destinos com galinhas e porcos que giram de espaço em espaço, inquietarem-se, percebendo eles que serás um dia o mesmo que outros dentro daquele muro branco sem evasões e muito menos de ilusões.


Mármores imensos por ali, sei lá porquê, que adiantam lágrimas após esse dia que a todos pertencerá um dia para o lugar onde todos de uma só vez pertencerem à mesma loucura, mesmo que nunca o tenham sido, igualmente fechados numa jaula de pedra com cravos e rosas e mensagens solenes, “nas mãos de Deus agora pai, amo-te!”, quando já nem sequer de insónias nos lembramos, pois, aí a vida é já eterna como o azul do céu sobre as trevas da felicidade.


Sentidos que se tornam daltónicos, deixar de conseguir comparar a felicidade da saudade, um ser estranho nos movimentos das calçadas mais antigas deste silêncio prematuro todos os dias como um gelo a secar a pele dos que ainda pensam conseguir superar o inferno, dos que hilariantemente riem num som irónico a dor que a cabeça não distingue entre viver ou morrer, calar para sempre a voz contra a barra de um cais alojado na alma que se desfaz como a areia submersa num mar de tantos destinos e ali ficar, não importa já se deitado ou outra coisa, mas apenas a sensação de que a vida começa por sinalizar num cronómetro egípcio as álgebras nunca decifradas por quem não percebe nem perceberá nunca o quanto dói não se conseguir ser feliz de outra forma.


Esse será talvez o caminho para um renascimento mesmo que de escuro permanente se aloje num excomungado mártir de si mesmo, o arrojo de cobardias para tantos como dizem os panfletários das suas glórias voláteis num cálice de vómitos e de ausência quando afinal a vida em si só, se resuma a banquetes de infelicidade ou de realidades fragmentadas nas legendas de um filme que acabará dentro de algumas horas, mas já passou, nada mais faz sentido nem o significado de palavras escritas nas legendas estimulam a sensação de nada se conseguir sentir e partir no fim, sim, o fim é o presente mais verdadeiro de todas as existências.


E então, fim, o filme termina e fica apenas a mensagem: Até sempre, Camaradas!

 

 

Vítor Burity da Silva, natural do Huambo, Angola, a 28 de Dezembro de 1961.
Professor Honorário;
Doutor Honorário em Literatura;
Ph.D em Filosofia das Ciências.

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Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


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