ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Dennis Ávila Vargas


Poemas    

Os sete poemas seguintes pertencem ao livro "Excesos milenares", traduzido para o português pelo escritor Leonam Cunha e publicado no CEIAN (Centro de Estudos Ibéricos e Americanos de Salamanca), gerido pela organização do Prêmio Internacional de Poesia "Pilar Fernández Labrador".

 

PREFÁCIO DAS OFENSIVAS

 

Nada começa aqui, tudo é antigo;
o fogo – deidade matriz –
convida ao seu calor, e também ao seu incêndio.

O grito é a semente do eco,
um caracol exalta as margens da lentidão.

A claridade acorda pelas fendas:
golpeia a mesa como um silêncio de chaves.

O frio roçará os meniscos do acidente;
os hospitais misturarão feridas
         e esta é a eternidade.

Os instantes são abelhas: notas
do hino de gravidade que mantém o planeta.

Já não pergunto sobre o final desse túnel:
estremece lá um tambor de água.

 

 

 

 

 

 

OS DILÚVIOS

 

Não há arca nem Noé. É só um conto
de animais perdidos no meio do oceano.

Lenda iluminada: sinfonia
de árvore sideral, compasso com águas-vivas boreais.

A evolução é parte do esforço;
caleidoscópio para ignorar o desastre.

Espera infinita, óxido do medo
no aço concebido para a tensão.

O dilúvio estia, mas o céu é um casulo.

Somos uma âncora à deriva, pelas margens deste abismo,
remos que levantam a voz num protesto de barcos.

 

 

 

 

 

 

SISTEMA SOLAR

 

O sol é uma coordenada mestra.

Vibra em sua meditação
como um baú de fogo no frio cósmico.

Presente em casa excesso milenar,
doem sua ausência e sua queimadura.

Pureza e esplendor: em forma de pólen
ou chuva solar, sustenta a vida.

Ciência e espiritualidade coincidem:
a sua voz transcende a matéria.

Estrela central, magma do Grande Mistério,
todos os caminhos vêm do sol.

 

 

 

 

 

 

CÍRCULO

 

Levanto a vista. Assomam-se as presenças,
         entre elas, a solidão.

Pedem que eu permaneça perto do meu professor:
uma árvore sábia como um cajado de silêncio.

Os espíritos observam.
A selva devora a selva.

Soa o tambor da montanha.
A erva mantém o sereno,
o medo levita sobre a audiência.

Rodeia o ar sua transparência sólida.
A claridade desce para o efêmero.

Minha sombra perde cor.

Respeito as raízes em que tropeço;
não quero violar seus espinhos.

Meu corpo tem que estar exposto para ver
a estrela que prometeu a música.

Aparece a lentidão: nove passos
são um dia neste círculo sagrado.

 

 

 

 

 

 

ESCOLA

 

Meu avô é a árvore à qual me semearam
a fim de que eu ficasse lá na montanha.

No primeiro dia, não soube falar com ela;
a noite foi longa como um cinzel
que eu não tinha em mãos.

No segundo dia, dormi ao pé de sua respiração
e, quando era noite, deitou-se ao lado meu.

No terceiro dia, continuava o martelar da sede.
Levantei-me e abracei a casca da árvore.
Com os olhos lhe pedi que chovesse.

O bosque nebuloso me falou, no quarto dia:
“A noite é dos grilos e a manhã, dos passarinhos”.

Um ano depois, voltei.
Reconheci nas suas raízes o soco de um relâmpago.
A metade que sobrava, quando caiu, atravessou minha montanha.

 

 

 

 

 

 

RESPEITO

 

Uma mulher pinta um beija-flor.
Seu coração é uma tela inacabada;
o futuro, uma galeria de ausências.

Exceto a caixa de cores
que palpita em seus braços:
com isso se ilumina o nada.

No ateliê que liga seu peito
e a forma que tem sua respiração.
nasce um arrecife de penas.

Nos olhares que contemplam seus traços
e o esquecimento que resiste em desaparecer,
o ar pensa que passa.

Suas mãos são pincéis:
flechas no arco da vontade.

Existem coisas mais importantes,
mas agora uma mulher está pintando um beija-flor.

 

 

 

 

 

 

HUMILDADE

 

Terra para calar nossa mente
diante da mais simples contemplação.

Humildade para irradiar a paz
         povoada de ausência.

Terra para embalar a sede e respeitar a água.

Humildade para acalmar os pensamentos
e sua cor existencial.

Terra para escutar
o país de perguntas onde habitam as crianças.

Humildade para reconhecer
         que não somos iguais,
mas merecemos o mesmo.

Terra para nos olharmos no olho
e construir uma ponte.

Humildade para aceitar que somos a doença
         e também a cura.

Terra para segurar as raízes celestiais
que veem os colibris na chuva.

Humildade para ganharmos o respeito
das gerações vindouras.

Terra para semear um barquinho de papel
em cada trago de humildade.

Assim, trezentas e sessenta e cinco vezes, até tocar o silêncio e cair adormecidos.

 

 

Dennis Ávila Vargas (Honduras, 1981). Uma seleção dos seus primeiros livros se encontra na antologia “Geometria elementar” (Casa de Poesía, Costa Rica, 2014). Em 2016, publica-se por Ediciones Perro Azul (Costa Rica) o livro “A infância é um filme cult”, reeditado pela Editora La Chifurnia (El Salvador), por Ediciones Trábalis (Puerto Rico) e por Amargord (Espanha). Em 2017, pela editora Amargord, publica-se “Roupa Americana”, reeditado por Puertabierta Editores (México, 2018) e traduzido ao árabe pelo poeta Fakhry Ratrout (Al’aan Ediciones, Jordânia, 2019). Em 2019, também por Amargord, publica-se “História da sede”. Sua antologia poética, “Escola de pássaros”, faz parte da Coleção Ibero-americana Primavera Poética, publicada por Lima Lee (Peru, 2020). Seu livro, “Excessos milenares”, ganhou o Prêmio Internacional de Poesia "Pilar Fernández Labrador" (2020), com sede em Salamanca, Espanha. Desde o ano de 2017 possui, também, a nacionalidade costarriquense, país onde reside atualmente.

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Foto de capa:

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Paginação:

Nuno Baptista


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