ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Lahissane


Poemas    

Lágrimas

Tenho uma lágrima
no canto direito do meu olhar desalentado.

Uma lágrima que encharca o meu rosto
que apaga o meu plácido riso
mas que não apaga a chama que tortura
a terra dos santos Macondes
a terra que já não dança mapiko
a terra que já não ouve o som afável de likuti
de chinganga, o nosso tambor.

Eu tenho uma lágrima
no canto direito do meu olhar triste
ela cai como um rio correndo sem rumo
molhando o meu peito humilde
o peito que carrega Mocímboa da Praia
a terra que nos viu nascer
a terra que bebeu o nosso sangue
para brotar a árvore da liberdade
hoje não dorme mais, desde que as balas atravessaram
o seu ventre inocente.

Tenho uma lágrima
no fundo do meu âmago 
uma lágrima que cheira a sangue do povo
uma lágrima tão triste, que não consegue apagar a chama que consome
a minha terra
a terra dos Macondes, o povo de corpo tatuado de vitórias
que hoje, não consegue levantar a sua mão para libertar-se.

Tenho uma lágrima no canto direito do meu olhar
Uma lágrima que canta: Libertem, libertem, libertem
a terra que me viu nascer, a nossa história, o nosso Cabo Delgado.  

 

 

 

 

 

 

Pela manhã,
alteio as mãos nuas
e palpo o sol grácil e no solo
da minha língua planto as árvores
de flores brancas e amarelas
nos seus grandiosos ramos deixo os pássaros
alçarem os ninhos para que residam dentro de mim
e com os seus belos e poéticos cânticos serenarem-me a alma. 

 

 

 

 

 

 

Eu odeio

Odeio a fragrância agreste
que as pétalas dos teus lábios desabrocham.

Odeio o céu branco e galante
que há em teus olhos
pois nunca deixa-me resfolegar de amá-lo.

Odeio esse teu riso fleumático
que borbota encantos.
Encantos, que nunca deixam-me sonhar
outros luares e outros risos.

Odeio essa tua pele leve e suave
como a plumagem de pintos
odeio-a veementemente, pois em nenhuma noite
se ausenta de mim o almejo de tacteá-la.

Odeio Maria.
Odeio esse belo canto
que geras quando soltas a língua.

Odeio as chamas entoadas
pelo mar que há em ti, nas noites do inverno
quando toco-te.

Apesar de seres o barco
que leva-me as nuvens da vida e do gáudio
eu odeio-te Maria.

 

 

Lahissane é norme artistico de Lucas Silvestre Maxlhaieie, nasceu em Maputo, Capital de Moçambique, a 04 de Maio de 1987, vive na Província de Gaza. Licenciado em direito, pela Escola Superior de Economia e Gestão-ESEG, é jurista e professor primário na Vila de Caniçado Guijá. Co-autor das Antologias Internacionais “Numa Linguagem e Numa Sinfonia” Galiza-Moçambique de género poético e “Coletânea Inspiração” de poesias, contos e crónicas com participação de vários países, editada pela Editora Gaya do Brasil. Em 2017, recebeu prémio de Destaque literário no 27ᵒ Concurso Internacional de poesia ALPAS 21, Brasil. Autor de duas coletâneas de poesia “Os Pores-do-Sol” e “As Borboletas que Sopram Os Balões” ainda não editadas. Publica nas revistas nacionais e internacionais como: Mahungo, Soletras, Xitende, Jornal Correio da Palavra e, Incomunidade. É membro da Associação Cultural Xitende, Académico Correspondente da ALPAS 21 cadeira 23 e, promotor de festivais de poesia entre as escolas secundárias da Província de Gaza.

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Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


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Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Perto do leito da morte (febre)', 1915.


Paginação:

Nuno Baptista


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