ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Maria de Lurdes da Fonseca Marques


Os monges de Cister e o 1º mosteiro da Ordem, em S. Joâo de Tarouca, distrito de Viseu    

 

Dormitório dos Monges Professos

A Ordem de Cister é uma ordem monástica que tem origem na Abadia de Cister, na Borgonha. A ordem foi fundada por Roberto de Champanhe, abade de Molesme, que com outros companheiros abandonaram a congregação monástica de Cluny. A ordem de Cister irá procurar seguir, literalmente, a Regra de S. Bento - viver do seu trabalho e não acumular riquezas. Em 1112, Bernardo de Claraval recolhe-se em Cister e em 1115 funda a Abadia de Claraval. A Ordem de Cister é pois, uma ordem religiosa monástica católica beneditina reformada.

Os monges e monjas de Cister eram religiosos de clausura, também conhecidos por monges brancos devido à cor do seu hábito.

Esta Ordem vai ter uma influência decisiva em toda a História da Europa do séc. XII, pois implementa-se em praticamente todo o Ocidente. De onde se destaca a colonização de toda a região do Leste do Elba e, consequente expansão do cristianismo.

Acresce que esta Ordem elege o trabalho como valor fundamental. De resto é no, e pelo trabalho que a Ordem floresce e tem o seu impacto em todo o Ocidente. Há que recordar que o termo trabalho surge do vocábulo latino “Tripallium”. O Tripallium era um instrumento de tortura. Trabalhar era, de certo modo sinónimo de torturar. Assim sendo, durante bastante tempo, o trabalho foi mesmo considerado algo penoso ou um castigo. Os homens livres, que se dedicavam ao lazer, à contemplação, à reflexão e ao ócio, eram naquele tempo considerados homens pouco dignos de praticar este “castigo”. Acontece que com a ideologia cisterciense o trabalho passará a ser visto como fonte de libertação, como forma de ação de graças, com fonte de realização pessoal.

A Ordem de Cister estabeleceu-se em Portugal, em S. João de Tarouca. por volta de 1140. Terá então, sido colossal o esforço na construção de todo o complexo do seu primeiro Mosteiro que vai ser edificado no sopé da Serra da Nave (utilizo a denominação de Aquilino Ribeiro e aquela que por este nome sempre conheci esta Serra) hoje conhecida por Serra de Leomil. O Mosteiro foi edificado junto ao rio Varosa que desagua no Douro, pois uma condição «sine quo non» da Ordem de Cister era que os mosteiros fossem edificados junto aos longos cursos de água. O Mosteiro de São João de Tarouca situa-se mais precisamente, no vale do rio Varosa (afluente da margem esquerda do rio Douro). No seu espaço de implantação correm as ribeiras do Corgo da Cerca (ou da Aveleira) e do Corgo do Pinheiro (ou da Fraga ou da Frágua). Estas duas linhas de água entrecruzam-se, já, no interior do espaço monástico. É aí que então formam uma só ribeira a que as populações locais chamam, simplesmente: Corgo, que vai desaguar no rio Varosa.

A construção do Mosteiro foi relativamente célere, pois estava concluído em 1154. Tal facto, deve-se, segundo alguns historiadores, a generosas doações concentradas em pouco tempo, paralelamente a uma eficiente gestão das propriedades doadas, bem como a unidades de produção agrícola, especificas dos monges de Cister, ouseja as Granjas cistercienses.

A edificação do Mosteiro e a instalação da ordem de Cister caminham a par com a génese do reinado de D. Afonso Henriques, mais precisamente após vitória na batalha de Trancoso. No entanto, os frades cistercienses apoiaram desde logo as pretensões ao trono de D. Afonso Henriques.

Todas as posteriores doações feitas ao Mosteiro de Tarouca, sendo a primeira efectuada por D. Afonso Henriques, a par de uma gestão totalmente profissionalizada, fizeram do Mosteiro um dos mais prósperos, dos séculos XII e XIII. Tal facto deve-se ao seu vastíssimo património que se alargava por todo o norte e centro do país. Este Mosteiro era então, considerado o filho dileto da Abadia francesa de Claraval.

Do ponto de vista arquitectónico, o Mosteiro apresenta- se com diferentes estilos artísticos. As escavações recentes têm evidenciado que os cistercienses estavam atentos às inovações de diferentes épocas. Primavam por ter uma vida bastante confortável, embora regrada, Nas escavações foram encontradas fianças de elevada qualidade e vestígios de uma dieta rica que excluía a doçaria.

Ao serem extintas as ordens religiosas, na sequência do decreto promulgado por Joaquim António de Aguiar, ministro dos negócios eclesiásticos e da justiça do governo da regência de D. Pedro, Duque de Bragança”, o mosteiro foi vendido a particulares. E toda a área foi explorada como pedreira. A Igreja, como aconteceu à grande maioria das igrejas conventuais públicas, passou a constituir-se como Igreja paroquial.
Atualmente, a Antiga casa da Ordem de Cister no Vale do Varosa está a ser redescoberta, e parcialmente reconstituída por arqueólogos, desde 1998.

Para todos aqueles que se interessam pela nossa História e pela nossa Cultura, será certamente um local a visitar. A Igreja é sumptuosa e tudo aquilo que resta do antigo Mosteiro Cisterciense convida-nos a um momento de contemplação e reflexão. O facto de ter sido explorado como pedreira, revela-se como autêntica selvajaria levada a efeito no século XIX em nome de, nem se sabe bem de que. Não sabemos também, como foi possível arrasar este grandioso espaço que conta a génese da Nação portuguesa, traz uma luz intensa sobre o que fomos e o que somos. No que respeita aos trabalhos de valorização das ruinas do Mosteiros, há que destacar que assentam num trabalho profícuo e altamente profissionalizado. Estes trabalhos baseiam-se em sólidos estudos científicos, numa tentativa incansável de salvaguarda e recuperação deste magnifico espaço que faz parte integrante da nossa Região (sub região do Douro, da nossa cultura e da nossa memória colectiva.

Texto de Mª de Lurdes da Fonseca Marques: Mestre em Filosofia e Cultura Portuguesa.

Bibliografia

Arqueologia Medieval. Porto: Edições Afrontamento. n.o 10. 2008, pp. 145-158.

BARROCA, Mário; SEBASTIAN, Luís; CASTRO, Ana Sampaio e - A sacralização dos espaços no séc. XII-XIII no mosteiro cisterciense de S. João de Tarouca - a deposição votiva de um anel de oração e uma panela. In Arte, poder e religião nos tempos medievais:  A Identidade de Portugal em construção. Viseu: Câmara Municipal. 2009, pp. 208-219.

Tarouca. In Arte, poder e religião nos tempos medievais: a identidade de Portugal em construção. Viseu: Câmara Municipal. 2009, pp. 228-237.

BAUDIN, Arnaud; DOHRMANN, Nicolas; VEYSSIÈRE, Laurent - Clairvaux. L’ aventure cisterciense. Paris: Somogy editions d’art/Con-seil general de l’Aube/Thierry Renard pour l’ensemble des cartes. 2015.

João de Tarouca. In Cister no Vale do Douro. Santa Maria da Feira: GEHVID-Grupo de Estudos de História da Viticultura Duriense e do Vinho do Porto/Edições Afrontamento. 1999, pp. 222-225.

CASTRO, Ana Sampaio e; SEBASTIAN, Luís - A intervenção arqueológica no Mosteiro de S. João de Tarouca: 1998-2001. Estudos/ João de Tarouca. Revista Portuguesa de Arqueologia. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia. Vol. 6. n.o 2. 2003, pp. 545-560.

 

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