ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Textos


Meire Viana    

*

 

encaramujei meu poema e de dentro da concha escrevo palavras invisíveis sem fim miúdas moídas doídas confinadas com fim em nada saídas encalacradas de baús empoeirados que não mais vociferam nem regurgitam nem bradam palavras-moluscos que se arrastam  sem pressa silenciosas pelos cantos da casa e pousam inertes nas janelas de olhos atentos ao movimento das gentes tomadas de medo e mistério do mundo doente e nas ruas despidas de gentes meu poema encaramujado confinado na concha imagina palavras não ditas infindas contidas amiúde com fim em nada saídas encalacradas de baús empoeirados que não mais vociferam nem regurgitam nem bradam palavras-moluscos que se arrastam sem pressa silenciosas pelos cantos da casa e pousam inertes nas janelas e olhos atentos ao movimento das gentes tomadas de medo e mistério do mundo doente e nas ruas de calçadas descalças meu encaramujante poema enfurnado na concha dialoga palavras indisponíveis com leitores imaginários palavras que observam da janela as ruas despidas de gentes tomadas de medo e mistério do mundo doente.

 

 

 

 

 

 

*

 

na surdina
meu ouvido
de tímpanos perfurados
ardescuta
aos borbulhões
gritos de ordem
do barulho do mundo

são palavras -vórtices
que ecoam
na minha caverna náufraga
de boias à revelia

são vibrações externas
timbres nervosos
que ferem
proferem
palavrásperas
perdidas
em labirintos
emaranhadas
em fios de fibras
microbósticas

que nada calam
nada falam.

O estampido
do silêncio
grita
e estala no interior
de minha gruta.

 

 

 

 

 

 

*

desconfio do espelho
com cores formas fendas traços fachos contornos molduras sombras sobras réstias restos reflexos convexos
do que não sou.

Prefiro a luz
que arde os estilhaços do meu corpo são.

 

 

 

 

 

 

 

*

desejo mesmo
antropofartamente
é comer a palavra
mastigar e deglutir a matéria viva da palavra.
praticar manifesto solitário no estômago vazio
e sair bradando como um bardo andarilho pelas ruas-vias-becos de meu corpo saciado
depois eructar o verbo pro alto: balão ganhando os céus
em profusão e confusão de expressamentos.

 

 

Meire Viana: brasileira, professora na rede pública de ensino, tem doutorado em Letras (Universidade de Murcia, Espanha). Poeta experimental e, agora, aprendiz de teatro. Gosta de sonoridades e estéticas visuais. Atualmente tem experimentado, também, o uso das vocalidades poéticas, em vídeos espalhados pelas redes sociais.

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Outubo de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Adriano B. Espíndola Santos, Adrian’dos Delima, Álvaro Alves de Faria, Álvaro José Silva, Ana Mafalda Leite, Angela Maria Zanirato Salomão, Antônio Roberto Gerin, Antônio Torres, Caio Junqueira Maciel, Carlos Barbarito, Carlos M. Luis, Carlos Eduardo Matos, Cecília Barreira, Cláudio B. Carlos, Cruzeiro Seixas, Eurico Gonçalves ; Dalila d’Alte, org., Dalila d’Alte, Danyel Guerra, Dario Silva, Dennis Ávila Vargas, Deusa d’África, Elisa Scarpa, Fernando Andrade, Francisco Aurelio Ribeiro, Hang Ferrero, Hermínio Prates, João Almino, Lahissane, Lalau Simões, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Lino Mukurruza, Marco Antonio, Maria de Lurdes da Fonseca Marques, Marinho Lopes, Moisés Cárdneas, NILMA LACERDA, Osvaldo Spoltore; Rolando Revagliatti, entrevista, Otildo Justino Guido, Ricardo Ramos Filho, Robson Deon, Sebastián Rivero, Textos, Tiago Rabelo, Tony Marcelo Gomes de Oliveira, Vítor Burity da Silva, Waldo Contreras López, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Perto do leito da morte (febre)', 1915.


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR