ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Robson Deon


Narlan Matos, um canto poético de beleza e esperança no meio do caos    

 

Narlan Matos é um poeta brasileiro natural de Itaquara, uma pequena cidade interiorana da Bahia. Atualmente – mesclando o interiorismo e o cosmopolitismo biográfico que repercute em sua obra – Narlan reside nos Estados Unidos da América, onde segue carreira acadêmica como professor universitário.

Algo intrigante a se observar desde já é o de o poeta, depois de ter alcançado relevante patamar de reconhecimento internacional, ainda não ter sido devidamente reconhecido no Brasil: a sua poesia alcança maior representatividade no exterior do que propriamente em sua terra natal, fato esse constatado pelos seus livros, que foram vertidos para várias línguas, tais como alemão, espanhol, italiano, incluindo até o vietnamês, chinês, hindu, entre outras. Em torno da figura do poeta Narlan Matos, avoluma-se um crescente interesse pela sua escrita em várias partes do mundo, incluindo uma série de países da Europa e inclusive nações do oriente. (Tais constatações já são o suficiente para denotar a tamanha falta de atenção e negligência em relação à obra do autor aqui no Brasil).

Em relação às publicações do escritor, se destacam relevantes publicações: seu livro de estreia foi em 1997, Senhoras e senhores: o amanhecer! Algo que no livro inicial já pode denunciar a alvorecer de um poeta grandioso é o comentário do saudoso mestre, Ferreira Gullar: é o poeta maranhense que tece elogios ao autor de primeira viagem nas orelhas dessa obra. A seguir, surge No acampamento das sombras (2001), e é Elegia ao Novo Mundo, publicado em 2012, que projeta o poeta brasileiro no cenário internacional. Em 2017, publicou Um alaúde, a península e teus olhos negros que é seguido de Canto aos homens de boa vontade (2018), a obra em relação a qual teceremos breves comentários a partir de agora.

Quanto às formas poéticas trabalhadas neste livro, Narlan surge com grande versatilidade, transitando entre versos metrificados e livres, até chegar à prosa poética e formas breves, todas convivendo em pacífica harmonia. Tal aspecto de feitura dos poemas revela um autor libertário, pós-contemporâneo, que é aquele artista desvencilhado de cartilhas e determinações de escolas literárias que encasulam os autores em determinadas receitas e moldes artísticos prescritos.

Nessa obra, o poeta se desenrola em versos longos, não poupando palavras; contudo, nunca abandona o esmero e o primor da arte da escrita. Essa liberdade formal exuberante faz dele o autor de uma poesia que respira o mundo e que alça voos impressionantes, visto que a sua escritura nunca está presa a qualquer camisa de força ou a determinações formalistas sufocantes. Outra marca dessa liberdade manifesta-se pelo uso de pontuação, em especial, as poucas vírgulas, o que torna a leitura menos truncada e muito mais fluída; o fato de começar os poemas com letras minúsculas também se afigura como um traço característico da marca estilística do autor.

No plano temático, pode-se arriscar a dizer que um fio luminoso de esperança atravessa todo o livro, e que talvez esta seja a palavra que mais vezes esteja presente nos poemas.

Às vezes, uma esperança estranha alimenta o poeta, como em “Acalanto para os homens” (p. 25): no meio da noite e do silêncio, quando os homens do mundo estão dormindo, “uma estranha esperança me faz companhia”. Essa esperança é alimentada diante da imagem dos homens que “(...) dormem profundamente”, eles estão vivos ali, e dormindo “(...) são deuses perfeitos”, existe a possibilidade da paz, “há comunhão em suas almas adormecidas”. Pena estarem dormindo, mas assim tão serenos alimentam uma esperança ao eu lírico do poema, que, no fundo, acredita na humanidade, embora com ressalvas, embora sabendo que, quando acordados, o cenário é outro, ou mesmo inverso, “porque os homens são muito mais possíveis/ e reais quando estão sonhando”.

A esperança é um sentimento pujante no poeta, o tomando, por exemplo, na Costa Rica, em “Esperança verde” (p. 26): “é que uma esperança verde pousou em meu ombro”; esse fato o faz irmanar-se “com homens e mulheres na peleja árida e feliz pela luz/ pelas ruas da Costa Rica (...)”. Ao fim, é essa esperança verde que pousou no ombro que faz o poeta dizer: “creio piamente que minhas mãos são/ irmãs das tuas meu irmão/ e podemos lavrar como campesinos os/ solos exaustos da existência”. Impressionante metáfora surge ao final, em que os “solos exaustos da existência” remetem aos grandes fracassos da humanidade fustigada por tantas coisas alarmantes, como guerras, catástrofes naturais e pestes.

A essa proclamação em nome da bandeira da esperança, junta-se também a evocação da necessidade da poesia entre os homens:

Em “Mercadores” (p. 49), descreve-se o homem contemporâneo na sua saga capitalista que cega os indivíduos; nesse mundo voraz, “não há mercado para a poesia”, o “cidadão” anda “ocupado demais”; e os “(...) anúncios em transe” gritam que não há “mercado”, não há “espaço” e não há “demanda” para a poesia “nas prateleiras e na alma vazia”. O eu lírico indaga: como pode haver poesia num mundo em que “(...) se vendem a pele e a alma do homem?”; aparentemente, chega a concordar que, nessa realidade mercadológica atual, “não há necessidade de poesia alguma”. Porém, ao final do poema, na última estrofe, surge com força a proclamação da necessidade da poesia na vida humana, necessidade que o homem contemporâneo - afundado na lógica mundana e monetária – suprimiu, mas que, em algum momento (inclusive nos piores) aflora como a solução derradeira e também verdadeira: “todavia, quando o monstro incontrolável/ bate à nossa porta – a vida, louca, varrida, sem poesia/ suplicamos por um belo luar/ por um belo lago azul/ por um pássaro angelical/ que carregue a dor – e a loucura –/ sangrando para longe de nós”. Aqui, o belo luar, o lago azul, o pássaro angelical são os elementos evocadores da poesia, que aparece como a redentora do tédio e da desilusão do mundo “prático”.

Em “o assassínio” (p. 52) também se denuncia a falta da beleza na vida moderna, e as consequências inevitáveis desse mal. Assassinaram a beleza, “a beleza que é maior que todos os deuses”, e são esses assassinos que agora tocam “como ninguém/ a harpa decaída dos desventurados/ o violino esquizofrênico do nada”. Ademais, esses que combatem a beleza e a poesia na vida dos homens têm um plano maquiavélico: “eles sabem do que está escrito/ no cardápio do banquete dos répteis:/ morre o homem com a morte da beleza”.

A partir desses poemas, e também de outros que compõem o livro, é possível sentir uma contínua evocação da poesia e da beleza como forças vivificantes da existência. Esse louvor da beleza faz ecoar em sua poética aquela célebre máxima do escritor russo, Fiodor Dostoiewski, “A beleza salvará o mundo”.  É nisso que o poeta parece acreditar e querer transmitir em muitos de seus versos espalhados dentro do livro.

Também, flertando com a prosa poética, Narlan surpreende com sua desenvoltura em termos de formas poéticas, e “esta civilização” (p.54-55) é um exemplo de poema configurado em prosa. Nele, Narlan desfere uma aguda crítica à civilização, questionando a validade da suposta evolução tecnológica, científica, econômica etc. do mundo. A civilização, “(...) com pés de silício e seu desconhecido coração movido a vapor a gasolina a gente”, é uma “Prisioneira de códigos, senhas, cifras”. É uma civilização onde a inversão maquiavélica ganha poder, “(...) civilização de homens concebidos pelas máquinas”. A absurdidade ganha dimensões surpreendentes: “Os cães civilizados levam seus donos para caminhar e, eventualmente, ao psiquiatra”. A esse ponto, “Esta civilização profanou o Paraíso das maçãs puras (...)” e vive na “(...) esquizofrênica busca pelo novo (...)”, que afinal assoma sem sentido. Ao fim, chega à triste constatação de uma suposta evolução que resultou inútil e vã: “Devorando areia e cimento e vomitando arranha-céus, estacionamentos. E o que faremos com essas toneladas de concreto-armado apontando para o nada?”.

O homem se depara diante do vazio. Se vemos ressoar a máxima do escritor russo em vários de seus poemas que entoam um canto à beleza, também me parece aqui ressoar Freud, fazendo lembrar o mal-estar dos indivíduos na ordem do dia da civilização moderna. O que nos faz refletir o quanto o suposto avanço da humanidade implicou na própria infelicidade humana, o mal-estar do homem diante de sua própria criação que, afinal, acabou o sufocando e o subjugando. O processo civilizatório como a raiz do mal e da desgraça, o homem sacrificado e esmagado pelo seu próprio habitat, a sociedade.

Portanto, se por um viés nos aparece com pujança um poeta otimista, que ainda acredita nos homens, na humanidade, e que o faz elevar um canto de novo humanismo, também, doutro lado, transparece por vezes a faceta de um poeta um tanto negativista e ácido, que desferre uma crítica do homem, do humano, do mundo moderno, de suas obsessões doentias e mazelas.

Claro que o livro é alimentado na fonte da esperança, o que fica nítido já pelo título do volume, Canto aos homens de boa vontade. Mas é importante salientar que essa afirmação positiva (os “homens de boa vontade”) implica o seu oposto, que são os homens de má vontade, que são como espectros que também aparecem em determinados poemas, aqueles que buscam assassinar a beleza e a poesia do mundo e das pessoas.

Embora um fio nítido de esperança atravesse a obra, Narlan não é hipócrita diante do precário do mundo, e por isso compõe poemas de contundente crítica social em que denuncia situações dramáticas e chocantes do mundo atual: como exemplos, citam-se: “cântico aos desaventurados do mundo” (p. 19), dedicado aos órfãos, aos velhos abandonados em asilos, aos soldados desgarrados e distantes de suas amadas, aos condenados à morte, aos encarcerados e aos pobres; “infantes da palestina” (p. 31), um poema que narra a expectação angustiosa da morte injusta e cruel de crianças palestinas; o poema “retirantes” expõe a seca no sertão e o drama dos retirantes nordestinos; por sua vez, “refugiados” (p. 82) revela-nos aquela multidão de desamparados que vagam pelo mundo sem pátria e sem descanso.

De modo geral, e para finalizar essa breve exposição do poeta baiano, sinto neste livro um otimismo em relação ao humano, mas sem o risco de cair no utópico, na mistificação, no engodo. É um olhar fraterno e irmanado que insiste em resistir, mostrando seu brilho mesmo em meio às ruínas e desgraças constatáveis e nítidas; a desumanidade, a feiura, as mazelas e as atrocidades sociais não intimidam o poeta, nem o isolam em nenhuma torre de marfim da linguagem. Ele ousa entoar um canto de esperança aos homens no meio do caos. A acidez dos acontecimentos não amarga o tom de sua poesia, a constatação da maldade humana não contamina de negativismo os seus versos, fios de luz de esperança aos desiludidos.

 

 

Robson Deon: Mestre (2020) pelo Programa de Pós-graduação em Letras (PPGL) da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Pato Branco, com Dissertação voltada à Poesia modernista brasileira, mais especificamente, à Poética de João Cabral de Melo Neto. Em 2017, graduou-se no curso de Letras (Português-Inglês) dessa mesma Instituição. No meio acadêmico, seu interesse centra-se no estudo da poesia, em especial, a poesia brasileira do Modernismo até autores da contemporaneidade. Além disso, tem publicações de artigos científicos publicados em revistas, os quais, em sua maioria, versam sobre poesia, tratando de nomes consagrados como Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, além do próprio João Cabral.

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