ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Em torno das capacidades humanas: por um direito à felicidade    

Deveria fazer parte da conduta humana todo um conjunto de capacidades que a filósofa norte americana Martha Nussbaum designa de Direitos Humanos.

Um deles, por exemplo, seria a relação não tóxica com um animal de companhia. A maioria das pessoas, sós ou em família, possuem um animal de companhia para arbitrariamente colmatarem a solidão ou os afetos.

Os cãos ou os gatos são tratados como se fossem almas humanas absolutamente fascinadas pelo dono/a, objeto de todo o estilo de obsessões.

Aliás, em relação aos sentimentos, ainda há a necessidade absoluta de posse. Posse de um amor único e exclusivo. Se não for possível com uma pessoa, então com um animal dito “doméstico”.
 
Mas a relação tóxica que temos com os animais de companhia estende-se também à relação com as plantas, com os animais não domesticáveis, com a natureza, com todo o mundo real à nossa volta.

O respeito pela natureza não tem sido o mais forte desde que a humanidade, ao longo do século XIX, por aí fora ,irrompeu em força com a revolução industrial e as inúmeras revoluções tecnológicas. O turismo de massa. O uso e abuso do plástico. O consumo frenético. Claro que as vozes que se fizeram ouvir após a Declaração dos Direitos do Homem e no ativismo de muitos filósofos, pensadores e políticos, apontam no sentido de controlarmos esta apetência de sermos proprietários exclusivos de animais e da natureza.

Ao mesmo tempo ainda recorremos a uma atitude de superioridade de uma raça branca em relação a outras raças. E claro que a violência irrompe.

E que dizer de África, esse continente onde os interesses económicos de pequenos núcleos familiares no poder político, se subordinam às multinacionais e às rotas do dinheiro? A miséria que se vive em África é fruto de divisões internas dentro das próprias tribos e na frágil tessitura social. Tribos com rituais que permanecem, vão perpetuando elites endinheiradas e com cursos superiores tirados nas escolas de elite da Europa ou dos EUA. Quem não gostaria de viver na Europa? Ou no Canadá? Ou nos EUA?

Os cidadãos de tantos países da Ásia, onde impera a arbitrariedade, a violência, a ausência de liberdade de expressão e os escassos recursos económicos de famílias inteiras, não gostariam de usufruir da nacionalidade europeia? Mas talvez não devesse ser esse o caminho. Talvez, sim, a luta para que regras democráticas sejam aceites em todo o mundo.

Democracia passa por votações credíveis e não pela manipulação desses mesmos votos. Democracia é poder emitir uma opinião e não se ser ofendido, maltratado ou preso por isso. Democracia é aceitar as diferenças. A tolerância é fundamental para a evolução emocional e psicológica de uma pessoa e de uma comunidade.

Mas voltemos ao animal doméstico. Para o nosso cão ou para o nosso gato despejamos angústias, o nosso poderio, afetos, emoções mal resolvidas.

Os animais têm de se submeter a uma trela? Têm de ser manipulados?

Como não discriminar um animal? Porque são frágeis, tratamo-los como escravos com quem fruímos uma relação de afeto.

Mais, hoje em dia, fala-se do direito ao lazer. Mas o lazer é só para alguns. Há os que nem têm tempo para pensar. Chegam a casa, após quase dez ou doze horas de trabalho, e são obrigados a confecionar as refeições para os filhos, de os lavar, de tratar da casa.

Quem não gosta de praticar um jogo, de estar no telemóvel nas redes sociais, a beber um café ou uma cerveja?

Quem não gosta de ter tempo para usufruir da companhia dos amigos? Se a pandemia torna mais difícil a presença física, os afortunados, os que detêm net, podem falar pelo Zoom ou pelo Google Meet.

Os animais, já referimos, são acorrentados em trelas. Vão dez minutos por dia à rua para fazerem necessidades à pressa. Como poderão ser felizes?

A felicidade é só para os humanos? A que título a felicidade é exclusiva do Homem? Em 2020, em setembro, e imersos nesta pandemia global, tem de haver um maior debate sobre direitos e capacidades das pessoas e dos animais.

Os afetos têm de ser respeitados. Mas, por vezes, o desejo de posse é tão obsessivo que se tenta travar a liberdade de quem muito gostamos. Para já não falar de ciúmes doentios. A natureza, revolta, continua a deparar-se com a emergência de vírus galopantes. E outros virão. Há que ter uma sociedade mais identitária. Uma sociedade que preze os direitos. Os dos humanos, dos animais. Da própria natureza, tão desbastada pelo ritmo humano.

Fica aqui também um convite à leitura das obras de Mary Hussbaum. Filósofa lutadora de grandes causas.

 

Cecília Barreira é actualmente professora de Cultura Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Pertence ao CHAM, onde é investigadora de periódicos. Pertence aos grupos de pesquisa AMONET e IRENNE, sobre questões de género. Licenciada em História, com Doutoramento e Agregação em Estudos Portugueses, interessa-se particularmente pela História das Mentalidades. Publicou diversos ensaios e livros de poesia e neste domínio, estreou-se em 1984 com Lua Lenta. Seguiram-se A Sul da Memória (1987), Memórias de uma Deusa do Mar (1995), 15 anos de Alguma Poesia (1999), 7&10 (2003) e Cartas BD (2005), As Opções Ideológicas e o Fenómeno Feminista em Portugal (2009), Do Diário de Lisboa à Revista Maria (2016), Quirino de Jesus e Outros Estudos (2017) e Voando sobre um Ninho Fêmeo (2019).

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