ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Antônio Torres


Entre facas, algodão    

(O 7º. romance de João Almino tem ao fundo um país no qual os crimes mudaram apenas de armas).

 

 
Definido pelo próprio autor como “um romance de secura e esperança teimosa”, Entre facas, algodão foi saudado pela crítica literária brasileira como continuador da prosa realista, enxuta e metonímica de Graciliano Ramos, do mundo de casas repartidas dos meninos de engenho de José Lins do Rego, e até da poesia descarnada de João Cabral de Melo Neto. O que não é pouco. 

Aclamado “o romancista de Brasília”, por torná-la uma metáfora do mundo modernoem seus romances anteriores – Ideias onde passar o fim do mundo, Samba enredo, As cinco estações do amor, O livro das emoções, Cidade livre -, em Entre facas, algodão João Almino faz do Distrito Federal o ponto de partida para uma incursão a novos cenários, numa viagem de volta às suas origens nordestinas.

Escrito em forma de diário, este seu sétimo romancetem como protagonista um advogado em fim de carreira que deixa Taguatinga, no Planalto Central do Brasil, e parte em busca das trilhas da sua infância, determinado a fazer um acerto de contas com o passado e vingar-se da morte do pai, esperando também reviver uma história de amor simbolizada pelo fio de cabelo da amada guardado numa caixa de fósforos.

Numa bem urdida trama, João Almino leva o leitor a se confrontar com a realidade de um país cada vez mais desigual, violento, desastrado, no qual os crimes mudaram apenas de armas. Enfim, um país que entrou para a modernidade sem vencer o atraso, pois vai das velhas carências ao Facebook sem que o avanço dos meios de comunicação tenha eliminado o analfabetismo.

Desse quadro perverso sobressai-se a tão aplaudida fatura literária de João Almino, há muito reconhecido como um dos nossos melhores ficcionistas, em cujas páginas “verdadeiramente antológicas”, no dizer do saudoso Moacyr Scliar, “o Brasil está resumido”. E que de romance a romance reafirma a sua técnica rigorosa, domínio de linguagem e estilo, texto atraente, tudo a merecer os louvores de alguns dos nossos mais respeitáveis críticos em atividade – Walnice Nogueira Galvão, João César de Castro Rocha, Heloisa Buarque de Holanda, José Castello, Beatriz Resende -, e de escritores consumados como Silviano Santiago, Ignácio de Loyola Brandão, Cristóvão Tezza - que definiu Entre facas, algodão como uma história clássica de amor e família, de sentimentos fraturados, que nos prende da primeira à ultima página pela sua marca estilística, de intensa leveza narrativa.

O Autor

Nascido em Mossoró, no estado do Rio Grande do Norte, em 1950, João Almino é diplomata, sendo hoje o Embaixador do Brasil no Equador. Sua obra, que abrange do romance ao ensaio literário e deste aos escritos de história e filosofia política, tem sido premiada dentro e fora do Brasil (Prêmio Casa de las Américas, de Cuba). Tem livros traduzidos em vários idiomas, e está publicado em Portugal (As cinco estações do amor, de 2001).

Em 2017 João Almino foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a Cadeira 22, na sucessão a Ivo Pitanguy, tendo sido recebido na Casa de Machado de Assis pela sua ex-presidente, a grande escritora Ana Maria Machado.  

 

 

 [Capa: “Entre facas, algodão”, João Almino]

Título: “Entre facas, algodão”
autor: João Almino
Editora Record
páginas: 192
edição: 2017

http://www.joaoalmino.com/

 

 

O escritor brasileiro Antônio Torres (Bahia, 1940) é romancista, contista e cronista, autor de 17 livros, entre os quais se destaca a trilogia formada por Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, publicada em Portugal pela Editora Teodolito. Sua obra tem conquistado inúmeros prêmios no Brasil e traduções em vários países. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira fundada por Machado de Assis, Antônio Torres é também sócio correspondente lusófono da Academia de Ciências de Lisboa.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2020


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Paginação:

Nuno Baptista


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