ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Leila Míccolis


Crônica: Sovando a massa    

 


Aquarela, Mônica Banderas

  

Esse negócio de se dizer que a arte é o alimento da alma me tira o apetite; só me lembro deste sentido figurado quando me sinto como se tivesse tido uma bruta indigestão depois de certas leituras; utilizando uma comparação similar, também quando alguém se embriaga com um livro penso que o elogio pode surtir efeito oposto: o de dizer, nas entrelinhas, que a obra foi um porre... Pior é que esses jargões gastronômicos não são meras metáforas literárias, como a primeira vista pode parecer. No início da civilização a expressão artística teve realmente uma função muito precisa e preciosa: a de possibilitar os seres de se tornarem humanos (não é mesmo, Ernest Fischer?), aproximando-os e fornecendo, através dos signos, dos desenhos, da linguagem, do gestual, condições para o surgimento da cultura, facilitando também a comunicação coletiva. Porém, distanciada destes objetivos no contexto da luta pela sobrevivência, ela passou a ser considerada sem serventia. A esse respeito, assisti um vídeo da Zélia Duncan em que ela respondia com uma bela poesia de sua autoria a alguém que declarou em uma postagem: “a gente não precisa de vocês artistas pra nada; a gente precisa é de médicos, advogados, arquitetos...”.  A poesia de Zélia chama-se “Vida em branco”, e é dirigida “Aos Vivos!” (vale a pena ir até lá). Talvez pela grande maioria das pessoas aplaudir esta lógica formal, este racionalismo cartesiano, é que escritor no Brasil ainda não é profissão legalizada.

Leminski insurgia-se contra a escravidão da ideologia utilitarista, opondo e propondo o in-útil – para além da funcionalidade taxada por convenções. O Ready made ou Objet trouvé de Duchamp também se assume como uma proposta cultural radicalmente provocativa: ao mudar a finalidade específica de um objeto (um penico, por exemplo), ele adquire aura de obra de arte, por romper com a produção industrial em série, em massa...  Porém sem incentivos governamentais, sem estímulos através de marketing inteligente, sem qualquer campanha de conscientização da importância das artes no dia a dia, o “pão do espírito” continuará inacessível, etéreo, abstrato, um empanzinamento demagógico para a massa (aqui me refiro ao sentido de massa humana, de povo), porque para a maior parte da população a única preocupação continua sendo com o ganha-pão, o pão nosso de cada dia, o pão na mesa (a pão e água), o pão duro, o pão da véspera, o pão dormido, o pão amanhecido, o Pão de Açúcar (em cartões postais), o pão que o Diabo amassou, e o pão e circo diários. Não dá para se falar em nutrição com quem mal tem como alimentar o corpo. Por outro lado, aos que podem com afã se empanturrar à vontade, cito o provérbio português: “antes de morder, vê com atenção se é pedra ou pão”.

Sobre pães, prefiro a expressão: “gostoso como pão”, porque as manifestações artísticas existem não só para melhorar a qualidade de vida de todos, mas principalmente para dar prazer a quem as cria, as assiste, ou de algum modo participa delas; hoje, o conceito de arte expandiu-se, abrangendo diversas áreas antes não aceitas como tal: esportes, quadrinhos, jogos, fotografia, gastronomia... Em nosso país, a publicação do primeiro livro de receitas data de 1840, O Cozinheiro Imperial, que em sua 5ª edição de 1866 já incluía “muitos e saborosíssimos quitutes brasileiros como feijões, vatapás, carurus, angús, carís, moquecas ou moquencas de peixes,...", todos de influência africana. O dado curioso vem agora: o autor não se identificou, preferiu conservar-se no anonimato, apenas tendo colocado suas iniciais R.C.M., porque não era bem visto um homem aventurar-se pelo mundo da cozinha e das panelas naquela época (o fenômeno da desigualdade de gênero social também atinge os homens); dele sabe-se apenas que era um cozinheiro da corte portuguesa. Com o passar do tempo, o livro de receitas extrapolou sua utilidade prática de manual de cozinha, e de repente a arte culinária começou a flertar com a literatura. No final da década de 1970, em Recife, conheci a Livro 7, que depois de 28 anos de atividade, fechou suas portas em 1998, época de grande recessão. Lancei lá dois livros de poesia, inclusive o Maus Antecedentes, publicado pelas Edições Pirata, parceira da Livro 7. Era um lugar fabuloso onde os livros não competiam com a gastronomia, ambos tinham suas “praças de alimentação” próprias. Porém quando os bares do eixo Rio-SP-MG-Brasília descobriram o filão do couvert artístico, as apresentações de música e poesia passaram a ter como público-alvo pessoas distraídas, indiferentes, entretidas em suas conversas, muitas até reclamando de que o som estava atrapalhando, clientes que ao final da noite, totalmente bêbados, discutiam e brigavam na hora de pagar a conta por causa do valor extra, do gasto maior do que o consumo praticamente restrito a chopes e uísques nacionais.   

Finalmente, com o despencar das vendas do mercado livreiro, os espaços das estantes foram diminuindo para ceder lugar a elegantes bistrôs, com pratos e tira-gostos requintados, deliciosos – quem sabe assim também incentivassem os frequentadores a adquirir pelo menos livros das receitas que aprovaram? Mas já vi gente indo a noites de autógrafos, “alimentando sua alma” por osmose e seu estômago em tempo real... Ou comprando qualquer livro sem ver o título, só pelo status de desfilar com uma sacola de livraria. Por isso ou por aquilo, esses saborosíssimos aperitivos salgados e doces fazem sucesso, e só de ler os cardápios já ficamos com água na boca, pois há petiscos e aperitivos para todos os gostos: do vegano ao selvagemente carnívoro, passando pelo vegetariano moderado: saladas, empadinhas, empanadas para se comer com as mãos (é preciso treinar a habilidade motora para não sujar as páginas dos livros ou não derrubar estabanadamente a bebida dentro da sacola), coxinhas de frango com catupiry, quibes, quiches, pastéis com recheios criativos, salgadinhos, requintada tábua de queijos, pizzas, waffles, wrappers, sorvetes, sanduíches gourmet, folhados, brioches, tortinhas, crepes, e muitos sonhos... (além de pratos de massas com molhos inimagináveis). Tudo comida com direito autoral, copyright © e ®, nada de anonimatos... Tudo regado a vinhos, a cervejas (algumas artesanais), a licores, a cafés com ampla variedade de sabores destilados ou frutados. É inegável que quem aprecia literatura e sabores gustativos sente-se muito confortável em um ambiente assim (até quem não é chegado à leitura passa a frequentar livrarias...). Então... sabe aquele ditado antigo: “em terra de sapos, de cócoras com eles...”?  Se não há nenhuma previsão pelo menos por enquanto da economia tardia desacelerar, eu gostaria que assim como a livraria já abre as portas para a chamada “comida afetiva”, que os restaurantes também adotassem essa permuta e começassem a vender “livros  reconfortantes” a seus clientes...  De qualquer modo, enquanto as artes não forem gênero de primeiríssima necessidade, como parecem ser atualmente os carros, televisões, celulares, eletrodomésticos, e compras nos shoppings, nossas almas e espíritos continuarão subnutridos, jejuando muito mais do que aplacando suas fomes.

 

Leila Míccolis

 

Mônica

 

Leila Míccolis, escritora brasileira de livros (poesia e prosa), televisão, teatro, cinema, pesquisadora, com Mestrado, Doutorado e Pós-doutorado em Teoria Literária (UFRJ).

Mônica Banderas – Carioca, atualmente residente em  Cândido Mota/SP,  artista plástica autodidata, com participação em diversas  exposições, destacando-se a do Ateliê UM, no hall do Paes Mendonça de Vila Isabel (1994), desenhista, capista (Ed. Blocos), ilustradora, escultora. Artista multimídia: em literatura tem dois livros publicados (esgotados): "It" e "Papiloscopia, digitais de borboleta" (ambos pela Blocos), além de poemas visuais avulsos. Designer, blogger — responsável pelo blog de Blocos: http://blocoson.blogspot.com —, web jornalista, web editora, organizadora de conteúdos, e ouvidora do Post Blog junto com Urhacy Faustino. Estuda Letras na UNESP de Assis/SP.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2020


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