ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Beatriz Aquino


Poemas    

Não há nada que eu te diga que possa te convencer.
E nem sei mais do que quero te convencer.
Mas quero.

Hoje não explico nada.
Faço valer a minha liberdade de fêmea.
-e nem era isso que eu queria dizer-
Tampouco quero ser barroca.
Ou etérea .
Dois estados nos quais me insisto.
Hoje quero apenas o sopro do mundo,
seco e realístico, sem traduzir nada.

Essa manhã busquei o sol pois o vento estava frio.
A brisa do Atlântico começa a refrescar Lisboa e sinto promessas de um belo outono.
Bem ao gosto dos poetas.
Mas ainda quero mais do sol.
E sei que dias insuportavelmente quentes ainda virão.
Ia dizer que isso se dá porque a natureza não presta contas de seus atos.
Mas estou tão farta de explicar as coisas.
Justifico-me dizendo que estou impaciente assim porque sofro.
Mas não sofro.
Nem me exalto em alegria.
Estou normal.
O que é terrivelmente preocupante.

Mas eu contava que buscava o sol e foi bom o jeito que ele de mansinho aqueceu a minha pele.
Como um amante cuidadoso.
Tão bom sentir um cuidado quente.

Mas é isso.
Hoje não estou pictórica.
Invoco os deuses romanos, chamo por Adélia, por Nélida ou Hilda.
Mas nada.
Sou comum e pequena.
Só mais um alguém investigando atentamente as prateleiras frias do supermercado.
Só uma mulher que quer escrever sobre o sol e não consegue.

xxx

 

 

 

 

 

 

Não posso fazer menos do que sentir assim,
desse modo rude e brusco.
O qual transformo em doçura.

Há homens que são de éter.
Cabe a mim dar-lhes a forma justa para que existam.
Já que a maioria se esconde na sombra de suas sombras.
Eu vi e sei.

É uma simbiose animalesca que busco.
Àquela da alma.
A mais cruel de todas.

Não há quem possa abarcar a vastidão que mora em meus olhos.
Por eles vazam todo o cosmos.
O infinito em mim é pequeno.
O engulo em sôfregos
e ainda me sobra espaços para três estrelas.

Não há laço que dome a supernova que carrego no peito.
Quero e exijo o amor mais contundente.

Minha boca não silaba artifícios.
É de anjos e bárbaros que falo.
De escalpos e inquisidoras fogueiras.

Da ponta dos meus pés à curva dos meus lábios
é a verdade que mora e ordena.
O Olimpo ou nada.
Ou nada.

xxx

 

 

 

 

 

 

Esse também é um livro de quem não sabe escrever.
Quero te tocar a alma enquanto junto essas sílabas.
Eu que nunca sou adequada.
Mas queria redesenhar aquele momento em nós que foi o momento mais justo e mais íntimo.
Pois que sem dúvida eu o perdi enquanto o vivíamos.
Tu também o perdeste.
Essas coisas são feitas de éter, coisas que tentamos não assimilar pelo medo de perdermo-nos no outro.
Vazar para além da forma e descobrir que só se vibra dentro de outro corpo.
Tudo isso dói.
E por isso mesmo é o que tento traduzir.
Mas as sílabas não chegam.
Ou não se harmonizam.
Seremos mais uma vez Mais-um- clássico-caso-de amor-não-compreendido.
E eu detesto os clássicos.
Pois gosto de inventar palavras e também de reerguer civilizações extintas.

Veja que o nocivo hábito me obriga a direcionar essas linhas para um final tocante.
Mas me recuso a ser óbvia e rala.
E é melhor que eu morra como as carpas nos lagos artificiais em um dia quente de sol.
A pele agonizante, a boca aberta e sem nenhuma compreensão.
Prefiro isso a me entregar ao óbvio que traz uma dor mais latente que a dúvida.
A conveniência jamais entenderá a inquietação dos rebeldes ou o número de cortes na boca dos pedintes.
Mas termino-me tentando resgatar aquele nosso eterno instante.
Em que eu era algo de todo incompreensível e em que tu também o era em igual proporção.
É bonito o medo humano quando envolto pela túnica morna da esperança.
Mas a janela estava aberta.
E sempre foram amplas as tuas janelas.

Volto-me agora para a trivialidade. Escrevo-te sobre borboletas e caramujos.
Disserto longamente sobre a gaveta emperrada
ou sobre a torneira da pia que continua vazando.
É o meu modo tosco e rouco de dizer,
eu te amo...

 

 

Beatriz Aquino é formada em Publicidade e Propaganda e é atriz de teatro. Tem publicados os livros:  Apneia (romance), A Savana e Eu (crônicas), Anne B.  - Sobre a Delicadeza da forma (romance) e Caligrafia Selvagem, lançado em Julho deste ano.. Vive atualmente em Portugal.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2020


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Paginação:

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