ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Carlos Pessoa Rosa


Poemas    

PERCURSOS

desfolhada a árvore
galhos & fímbrias nuas a sugar o vento e o frio
ranhaduras avançam
coronárias sem miocárdio — o tum-tá ausente
partitura Cage
a neve solta a encarar sibilante sopro
em paliçada
árvores dialogam instantes a perder de vista
ausentes
as folhas as flores as sombras e os seres
solidão
entre enfileirados na fé e em marcha
o destino incerto
queda a árvore
ser pedra rocha nuvens em viagem
náufragos
na direção de algum porto inexistente
do umbigo da terra
um filho resiste à neve e ao vento
há uma ruptura
uma fenda e um desejo abortado
há uma corrente
duas naves pétreas e algum ideograma
troncos em paliçada
na ânsia do horizonte areia e mar(e)moto
esquálido e cansado
o monstro avança em delicado delírio
a ponte a casa a neve o frio a sutileza da tarde
flutua o caracol... iceberg verde ou ilha pétrea?
navios sem asas singram  em nuvens a cavalgar o nada
: a rainha de pedra
e a coroa de fumaça a bruxulear vapores
e todas as árvores quedas!!!

 

 

 

 

 


EPIDERMES MAREANTES

um brinde aos moluscos!
que eros não é de pérolas em mitocôndrias
nem do arenoso dos desertos e das praias vulcânicas
eros é da suberina que reveste a exoderme e do muco vulvar
que imita o destino da lesma no lençol
um brinde aos moluscos!
que eros não é a raiz quadrada de uma oração
nem a quadratura de um losango ou horizonte lunares
eros é da secreção mucinosa de um apêndice e de um ovário
a imitar o caos celular de uma displasia celular
um brinde aos poetas!
que para eles bastam uma glande e um ponto G
para um viajar mareante em espumosas e dendríticas epidermes
o resto são circunvoluções barrocas em surto
recheadas de anfóricos sons vindos das cordas vocais de um buraco negro
na dimensão de um morrer
                                                                                  e ressuscitar...
: no silêncio do quarto
o lençol amarfanhado como se ondas paralisadas
em oceânica mudez...

 

 

 

 

 


OREMOS

a noite esvai-se
e um último tonel de vinho a secar
restará a manhã
e o sol a curtir as uvas no campo
não demora
para as ogivas subirem aos céus
e uma chuva de sangue
deixar todas as uvas vermelhas e prontas
para safra recheada de medo e dor
a noite esvai-se
com ela o último tonel de esperança
não há previsão
em tempos tão sombrios para um brinde!
então oremos
não para atrair as graças de algum Deus
mas para justificar o último vinho!

 

 

 

 

 


HITMAKER

não quero ser um poeta hitmaker
mas a poesia deve levar ao orgasmo
ser putx vadix e fistulizar no oco da hipocrisia
enraizar no couro cabeludo da urbe
ejacular onde o cheiro de urina mistura-se com o da cerveja
e um cão e um mendigo adormecidos
morrem girassóis nos campos vítimas de cacetetes
vítimas de trauma craniano e convulsões
enquanto hemácias ressequidas colorem o asfalto
: nas TVs hit-música hipnotiza...

 

 

 

 

 


MO(R)TE

pensar com sá-carneiro
janela aberta lua cheia estrelas
atirar o corpo ao encontro dela
sem sepultura, cremem o poeta!
nada de coroa de flores ou rezas
cinzas ao vento...
entrar na morte como em casa
fechar a porta e ouvir Mozart...

 

 

 

 

 


DISTÓCIA

há um engolidor
de facetas e muletas
nos vértices
das estrelas anãs
e você quer falar
do chão que pisamos
e da chuva que desaba na rua?

 

 

 

 

 


UTOPIA

sou fruto de particular utopia
meus dedos não polinizam chumbo
se usei foram rosas para atirar
se pudesse transplantar humanismo
o faria como lápides em cemitério
em cada olho dendrito unha e coração
para lembrar sempre que não somos eternos
muito menos moe(n)da de riso ou troca


 

 

 

 

 

OVO DE SERPENTE

nascidos de ovos surgidos pelos sibilos dos répteis
a flutuar contra o fluxo das águas
— louva-se quem tenha em posse tal ovum anguinum
pela proteção nos processos e acesso aos reis —
deles são os corpos juntados
pela espuma e gosma do próprio corpo a legislar e perseguir
aqueles que ousam furtar um ovo sequer
de casca cartilaginosa e numerosas cúpulas como os tentáculos de um polvo
mas logo digo que tal proteção pode ser falsa! — como ocorreu
em Vocona quando um foi executado pelo divino Cláudio, o imperador,
sem razão alguma ou talvez por roubar um quilo de trigo ou arroz
mesmo com o ovo junto ao peito —
sendo do livre arbítrio dos juízes através de discursos austeros
e suas togas negras anunciar a pena desses ovos
dois fósseis: um em Saint-Amand e outro em Barju
já as serpentes unidas
como irmãos siameses através de densa gosma
encontramos em cada canto do poder
onde seus ovos mais se parecem pela avareza e gula
com o do ouriço-cacheiro
a esconder-se no oco do planalto
a entesourar as riquezas para uso próprio
e de seus filhotes

 

 

Carlos Pessoa Rosa é escritor, editor do site e blog MeioTom. Publicou "A cor e a textura de uma folha de papel em branco", prêmio ficção nacional UBE-CEPE, 1998, "Mortalis: um ensaio sobre a morte", prêmio Xerox-Ed. Livro Aberto; "Não sei não",, "Sobre o nome dado" e "Nada poético", pelo coletivo Dulcinéia Catadora, "Destinos de vidro", Ed. Meiotom; "Una Casa Bien Abierta" pela Pequeño Editor, Buenos Aires, Argentina; "A visão bipolar de um ovo de avestruz" e "A cor e a textura de uma folha de papel em branco", prosa, "Mu Kambo", poesia, e o infanto-juvenil "Mistérios invisíveis que não brotam igual ao seio", todos pela Amazon.com. Participa de várias coletâneas nacionais e internacionais. Prêmio Literatura para Todos com "Sabenças", novela, em 2010. Tem trabalhos publicados na revista "Olhar" da UFSCar, D.O. Leitura, Instituto Piaget, Portugal, Revista Ser do Conselho Regional de Medicina, Revista Linguagem Viva, nos sites Germina e Blocos, entre outros.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2020


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Colaboradores de Setembro de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alejandra Correa ; Rolando Revagliatti, entrevista, Álvaro Alves de Faria, Antônio Torres, Bárbara Lia, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Carlos Eduardo Matos, Carlos Pessoa Rosa, Cecília Barreira, Clécio Branco, Danyel Guerra, Edna Bueno, Faysal Rouchdi, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Fiori Esaú Ferrari, Guilherme Preger, Henrique Dória, Jaime Munguambe, José Eduardo Degrazia, Lau Siqueira, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luís Correia Mendes, Mabanza Xavier Esteves Kambaca, Marinho Lopes, Miguel Ângelo, Milton Lourenço, Myrian Naves, Myrian Naves, org.; arrudA, Nilma Lacerda, Rafael Flores Montenegro, Rafael Rocca dos Santos, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, Ronaldo Werneck


Foto de capa:

HIERONYMUS BOSCH, 'Cutting the stone' (circa 1494)


Paginação:

Nuno Baptista


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