ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Cecília Barreira


Habitar o caos e os diálogos com o divino (João Rasteiro e a obra Uma Casa difícil de Habitar)    

Em primeiro lugar uma constatação: 20 anos de Obra Literária de João Rasteiro.

O livro Uma Casa Difícil de Habitar pertence à obra LEVEDURA, que é uma trilogia. Publicada em 2019 pelas Edições Sem Nome. João Rasteiro é um poeta consolidado. Escreve há vinte anos, como referenciei. Não só poesia, mas ensaio e ficção. As influências de grandes poetas do mundo inteiro são aí assinaladas. Sigo a poesia de João Rasteiro seguramente há mais de dez anos. Tenho estado atenta a tudo o que publica.

Muito representado e bem em antologias do universo ibero-americano, no Brasil e em uma multiplicidade de países pelo mundo fora. Curiosamente também tem sido musicado por pessoas do Fado e da Canção de Coimbra. Um poeta completo. Destaco a notabilidade do Prémio Literário Manuel António Pina em 2010. Logo, Pina, um dos maiores da Poesia desde sempre. Uma obra à qual aderi com entusiasmo foi Salamanca ou a Memória do Minotauro de 2014 ou ainda Poemas em Ponto de Osso de 2017.

Aliás na sua página pessoal no Facebook, João Rasteiro brinda-nos quase todos os dias com poesia de uma beleza surpreendente. Vive em Coimbra, cidade toda ela poética por excelência.

Mas detenhamo-nos em Uma Casa Difícil de Habitar. Logo de início perdemos o fôlego:

“Nada de novo - o poema enlouquece.
Eu golpeio, ou golpeio-me
implícito à minha própria condição,
e sobretudo, seco, seco, seco – o corpo,
o sangue, o coração, os olhos,
sobretudo, esses tristes baldios sitiados
no geométrico centro do silêncio “

Ficamos paralisados. O fôlego, a verve de um grande poeta. Para além de influências. E o livro é todo ele uma caixinha de surpresas. Note-se, por exemplo, um excerto poético amoroso

“Nas violentas vagas da tua ausência
é cada vez mais difícil ser a casa,
o cativeiro que ontem abraçava o fogo”

Mais à frente:

“Nunca se diga aos dias que a luz cedeu
ao uivo, ao teu puro e audaz desdém,
à levedura que a tua língua não aquiesce “

Notável o pungente apelo de um sujeito poético na virulência de um adeus amoroso. Não será toda a Poesia desde as Cantigas de Amigo, desde Camões, desde sempre até aos nomes maiores do hoje uma dor imensa pela perda do Amor? Não será a Poesia o estertor de um Amor que não é possível? Estamos a falar do patamar dos lirismos.

Não estamos a falar de uma poesia que está muito na moda onde se inscreve o quotidiano mais banal e se inserem palavrões ou pragas para expressar raiva ou ironia. E que também aprecio muito. Regressemos a João Rasteiro. Note-se este excerto

“E não possuo outros manuais para entoar
dentro do sangue este rumor dos peixe-pregos
no aquário níveo do teu cintilante poema”

Sublime. A finíssima camada de lirismo inicial do Poeta é uma emergência de um outro lugar. Diz por exemplo, “assim como de ti escrava é a minha busca, / assim como do amor escravo é a carne “. Fragâncias do desejo. Realidades estranhamente surdidas, mas que eclodem na nossa literatura. No nosso País existem muitos poetas líricos. Mas nem todos, nem quase nenhuns, possuem a apoteose do sublime. João Rasteiro tem esse dom.

O universo do Vazio. O universo afinal filosófico sobre o condicionamento humano. Nós não somos só sangue e carne. Dentro de nós há uma flâmula. Algo de intransponível. João Rasteiro dá voz a uma interioridade de jactâncias, de instintualidades que nos residem e nos habitam. O amor e a Paixão, a Carne, a Dor, o Espírito, o Sangue, as mãos. Tudo. Somos solitários sim. Diz o poeta. Digo eu. A solidão traça-nos a alma. O Poeta é sempre um solitário na inconcretude. Na violência da Palavra. No sonho que capta. O Poeta é urgência.

Mas há uma outra vertente aqui por focar: os universos do silêncio e do vazio, a esparsa questão do estar e do não estar. Ainda a relação deus/divindade. Diálogos intransponíveis. Diálogos de fôlego sobre as essências.

“Ó palavra divina porque me
coadjuvaste
terrificamente ao completo
Repúdio da crença?

Ou então:

Agora, sou apenas um dos
filhos e Saul,
embaciado sobre a rotineira
secura das cinzas,
longe da levedura rósea das
nascentes “.

Não é por acaso que o livro se encerra com um belíssimo poema de Tolentino de Mendonça, “serás ainda /o único pastor /do meu silêncio”.

A levedura da crença, da descrença, do intangível, da margem do tangível. O divino e a ligação e/ou religação ao profano.

A Poesia não é para todos. A Poesia é a linguagem da grande Arte. A poesia é caldo de uma peleja maior. João Rasteiro é Poeta por inteiro. A ler viciadamente.

Lisboa, 27 de abril de 2020

 

Cecília Barreira é actualmente professora de Cultura Contemporânea na Universidade Nova de Lisboa. Pertence ao CHAM, onde é investigadora de periódicos. Pertence aos grupos de pesquisa AMONET e IRENNE, sobre questões de género. Licenciada em História, com Doutoramento e Agregação em Estudos Portugueses, interessa-se particularmente pela História das Mentalidades. Publicou diversos ensaios e livros de poesia e neste domínio, estreou-se em 1984 com Lua Lenta. Seguiram-se A Sul da Memória (1987), Memórias de uma Deusa do Mar (1995), 15 anos de Alguma Poesia (1999), 7&10 (2003) e Cartas BD (2005), As Opções Ideológicas e o Fenómeno Feminista em Portugal (2009), Do Diário de Lisboa à Revista Maria (2016), Quirino de Jesus e Outros Estudos (2017) e Voando sobre um Ninho Fêmeo (2019).

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Paginação:

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