ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Edna Bueno


Contos    

Arpejos de um choro

Aquela música ela não dançava com ninguém mais. Por que estava ali, então, se não para dançar? – parecia ser a pergunta do homem. Olhava admirado, rei na barriga? Os homens deveriam chegar com a mão estendida, o convite na ponta dos dedos, e não insistir. Aquele olhava fixo, demorado, passando do ponto, até que virou de costas e cruzou o salão. Por que cedeu e dançou a próxima com ele? Foi mais que ceder, insinuou-se.

Vinha para lembrar e para esquecer. Lembrar do desgraçado que a deixou sem aviso e sem notícia. Lembrar de como se sentia viva com ele. Desperta. E esquecer, apagar. Lugar bonito, chamassem do que fosse. Luz de penumbra, construção antiga de pé direito alto. Garçons com gravata, mesas com toalha. Ambiente fino.

Cada janela, uma sacada e a vista da praça. Arabescos de ferro batido. Viu o infeliz acenar um adeus e sumir. Esperou aparecer de novo, uma noite qualquer. Chamava-se Abel, como o da música. Falava no ouvido dela, num sussurro, mordendo leve e lento:
– Chorando baixinho. Música do meu xará Abel. Abel Ferreira.

A voz grossa:
– Regina, minha rainha.

Nesse ponto, imediatamente depois, a clarineta anunciava uma subida. Ele pesava a mão na cintura dela, puxava para perto, os dois rodavam e levantavam voo. Ela sabia que passo esperar. O começo devagar, pisando em nuvens, arrastados pela melodia, dando voltas, umas mais ousadas, outras menos, as pernas se misturando. Passeavam por entre os outros pares. E voavam, a saia rodada dela levantava e enchia o espaço. Depois o ritmo da música voltava a uma calma quase estável entre rodopios e deslizes. Que orquestra. Regina se deixava levar, entregue, o corpo dele colado ao dela, rainha.

Abel não apareceu mais. E o som da clarineta não deixava esquecer, nem querer esquecer.

Quando a deixou em casa pela primeira vez, não entrou. Ficaram nas mordidas na orelha, os beijos no pescoço, descendo. Abel não podia ficar. Ela não disse nada, um tumulto a engolia. Pele, poros. Girou a chave na fechadura, os passos dele no corredor.

Abel entrou aos poucos, até escancarar a porta.

Queria Abel, ele, todas as danças com ele. O cheiro, o jeito de pegar, a fome. A voz. Mais nada queria. Mundo, promessa, nada.

O som da clarineta, uma melancolia estúpida de bonita.

Nunca ouviu a voz do clarinetista. Bebia quieto, não rendia palavra.

Regina gostava de pedir a bebida no balcão do bar. Arriscava conversa e companhia, insuportável o silêncio de casa.

A clarineta entoou um agudo mais alto. A orquestra se aproximava do fim de Chorando Baixinho. Viriam notas recuperando o chão, baixando das alturas, alguma mínima alegria. Dirigiu-se ao bar – um martini, por favor –, e, num desequilíbrio forçado, esbarrou no tal a quem acabara de negar a dança.

– Ah, me desculpe.

Forte a pegada dele, segurou-a por um dos braços e pela cintura.

Distinto. Como pedia o ambiente. Ela, sorrindo:
– A próxima eu danço.

Vulgar?

A clarineta solava quando os dois ganharam a pista.

 

 

 

 

 

 

Unicórnio

 

Cavalo se reconhece pelo passo, pelo trotar. Tudo se sabe: se firme, se de mansidão ou arisco. O cavaleiro, pelo jeito de segurar a rédea. Sei quando é ele quem vem lá, pelo trote ritmado. Devagar, um casco, o outro, marcando o chão de terra. Sei desde cedo, que nem fosse aviso: volto rasteiro da escola e não largo da beira de casa. De tardinha, surgem ele e cavalo ladeira acima.

Primeiro fala com mãe. Vejo os dois trocando cumprimento, ouço mãe repetir cada vez:
– Por Deus, homem, sei nunca quando vem. Coisa desgracenta.

Ele tão bom pra ela, mãe acaba em ternura. Aí chega minha vez.

O pai adivinha sonhos. Aparece com panela, moringa, tudo coisa de necessidade que a mãe sonha. Traz ferramenta pra plantar, semente de milho e tomate, alface, aipim, muita coisa. Traz vestido e enfeite pra alegria da mãe.

Diz pra ela, o olhar se espichando por baixo da aba do chapéu:
– É só você e o menino, só vocês nessa minha vida.

Sou eu o menino. O que já ganhou bota, chapéu que nem o dele, bola de gude, e um monte de sonho adivinhado. O pai faz brinquedo. Fez uma tal de catapulta com pedaços de madeira pra jogar milho pras galinhas. Espalhamos milho pelo quintal todo, as galinhas chegaram a endoidar. Mãe briga, mas ri. Bonito foi o tal de caleidoseiláque que ele trouxe: um tubo de papelão com um furo pra colar o olho, a gente vai revirando o tubo e vendo monte de estrelas que aparecem lá dentro. Brinco com cuidado pro tal negócio não se acabar, vou revirando bem devagar.

Gosto de ver estrelas com o pai, ele mostra elas no céu, os desenhos que elas fazem. Também gosto de ver nuvens com ele, só a gente entende os recados delas. Por isso eu sonho, sonho muito, que sei que o pai vai trazer o sonho pra mim. Sonho por causa dele.

Da última vez, trouxe um livro. Disse que fazia gosto me ver lendo e escrevendo. Eu não tinha sonhado com um livro, nunca. Mas quando meti os olhos nas páginas coloridas, nas figuras, na história, entendi. Talvez alguns cavalos não se reconheçam assim tão fácil, tão aparente. Alguns cavaleiros são especiais. O livro era um recado do pai, nuvem não dava conta. E quando ele foi, me enfiei atrás da janela do quarto e abri bem os olhos.

Antes, não queria ver, ficava com o barulho abafado dos cascos no chão de terra dando notícias da distância. Abri os olhos e confirmei o que logo se fez suspeita: já chegando na porteira, vi sair uma luz da testa do cavalo do pai. Certeza, eu vi: uma luz. Não consegui ver o chifre, o pai sumia lá longe com o cavalo.

Na porta de casa, mãe fala miúdo. Toda vez:
– Deus lhe ajude a voltar. Deus abençoe.

Parece que chora.

Mas eu sei, desde esse dia: ele volta. Vai voltar sempre.

 

 

 

 

 

 

Pequeno ensaio sobre a palavra fim

Os passos do tio escada acima ecoavam. O barulho da sola dos sapatos nos degraus, estalando, fazia a casa inchar, crescer até arrebentar. Tapei os ouvidos, sabia o que vinha me dizer. Sentia uma água empedrada desde o estômago, guardada para chorar em silêncio, em paz.

Era domingo. Se não era domingo, um dia de céu  e vento, carros na rua, horas passando. De manhã, na visita no hospital, vi que se soltavam as amarras. A respiração roncava. Quando vem a calmaria, espera-se. Um bom velejador espera. Que o vento volte, que aponte no mar encrespando sua superfície. Sabe-se que ele vem, não a hora.

Quando meu pai me levava no barco à vela, eu prestava uma atenção descuidada aos movimentos. Nas manobras, a vela saía da linha do vento e ficava panejando até se alinhar novamente. Manobras mais lentas, maior o tempo do panejar.

Éramos pequenos, eu e o irmão do meio. O pai amarrava uma corda na popa e nos puxava pelas águas da baía. O barco se arrastava com nosso peso e alegria. Porque era muito movimento, braços, pernas, mergulhar a cabeça, risadas. Um modo da alegria de se colocar no caminho, diminuindo a velocidade, querendo se demorar. Fomos pequenos um dia, eu, o irmão do meio e o caçula nos braços da mãe.

Meu tio despontou na porta do quarto:
         – Seu pai…

         Já não era pequena. E me afligia com o escuro que levava pessoa tão amada, o rosto, as mãos:
– Vou precisar de você.

Por que? Sempre eu a precisar dele.

O vazio era de se pegar, apalpar. Eu aprendia a palavra fim.


        
***


        
         Sábado, com certeza um sábado. Sol e vento, calçadão da Praia do Leme, o bebê de um mês no carrinho. Uma alegria cuidadosa, de gestos pequenos, de pegar o bebê e deixar no colo do pai. Então sigo em direção ao mar, ainda me viro para ver os dois e guardar a imagem daquela manhã. Quero molhar os pés, sentir a areia.

         Uma separação breve, meu filho sob cuidados paternos. Ele conheceria o avô pelas histórias, um dia aprenderia que o mar nunca acaba, que vai andando e empurrando o horizonte adiante. Que viver é algo desarrazoado e pulsa.

         A palavra fim me paralisa. Pressinto que serão separações e encontros, no nascimento corta-se o cordão. Pela vida, muitas vezes mais o cordão será cortado. Morte do pai e nascimento do filho se traduzem em sentimento semelhante, o mesmo vazio espesso, de se pegar. Fim e começo. O bebê chegou por meio de uma cirurgia, faca que corta pele e carne. Da sala de parto para o quarto sem ele. Rodeada de pessoas felizes e notícias do berçário. Tudo rodando. Vazio. Não se separa assim duas pessoas tão uma da outra. E por que se quer tanto um filho se a vida comporta a dor? Minhas mãos têm o formato das de meu pai.

         Penso outras palavras: porto, âncora, deriva. Os barcos nunca deixam de singrar as águas, velas brancas na linha do horizonte. Meu pai dizia que, quando se entra em um barco à vela, não se vai a lugar algum: já se chegou. Olho para trás, para meu rastro, para a frente. O fim não decifro. Um bom velejador espera, sereno na deriva da vida. Tem o controle do barco, o vento desenha os caminhos.

         O filho pela primeira vez à beira do mar. Um passeio banal, em família. As velas brancas no horizonte, a palavra fim mergulhada nas águas, ondas, vento, as calmarias.

  Volto para o calçadão. No inverno, as manhãs de sol são especialmente bonitas.

 

 

 

 

 

 

Herança

Apenas uma porta, abrindo para a área, o dito quartinho de empregada. Janela alguma. A luz no teto não funciona, é preciso enroscar uma lâmpada em bocal colado ao umbral da porta. Mal dá para se mexer tantas as caixas e coisas, quadros, sacolas, papéis. O pequeno armário entulhado.

A mulher sentada num banco em meio ao caos é a filha, emaranhada ao novo e ao velho. A mãe viera guardando seus tesouros por anos, ali, no espaço exíguo. A mulher pensa na obstinação da mãe em suas arrumações, passeando por lembranças e, depois, delicadamente, sugerindo cuidados. Talvez pudesse ter ajudado, ou tê-la tirado dali, mas a mãe insistia, insistiu até perder a força.

Ela, a filha, achara pratos antigos com figuras de pássaros, bordas douradas, muitos dourados. Talheres. Binóculo, um que gostava tanto. Já tinha se demorado pela caixa com fotos, algumas desconhecidas, e por uma coleção de cartões postais. Agora, no colo, a caixa com cartas. Pega a mais de cima: do avô para sua mãe quando jovem. E, com ternura, vai rasgando uma a uma, sem ler, vida, fio, vento…

 

 

 

 

 

 

Na marca do pênalti

 

Coloca o pé sobre a bola. Na marca. Exata. O fundo do campo, a linha do horizonte. Concentração. Cruza o olhar com o do goleiro. Tinha saído da lateral esquerda, veio crescendo pelo campo, trocando a bola com os parceiros, driblando o adversário e… a falta na pequena área. A favor do time dele. Olho no gol, pé na bola, músculos tensos, todos os poros.

Ele mesmo ia bater.

Tá na marca fatal!

Jogador pronto pra cobrança do pênalti.

Vamos lá, meu garoto!

De novo ele cruza o olhar com o do goleiro.

O goleiro busca a melhor posição.

A bola vai entrar ou não e o jogo seguir. O jogo sempre segue. Um menino, a vida toda cabendo em um instante.

Tudo pronto para a cobrança.

O juiz apita.

Todo menino tem um céu por dentro.

 

 

 

 

 

 

OS DOIS

Caminham à beira-mar, onde as ondas chegam e se vão.
Ela inaugura. Ele anda sozinho faz tempo.
Pássaros em fios de alta tensão desenham partituras.
Preparam o voo, flechas para o infinito.
Poucas árvores. Vegetação rasteira.
O caminho que margeia a praia é repleto de postes de iluminação.
Enfeiam.
Olham para o mar.
Ela ainda se espanta. Mostra sonhos que guarda no bolso.
– Cansa essa areia, difícil caminhar na beira d’água.
Mas sonhos pedem asas, ele sabe:
– Dá a mão, ajudo.
As ondas se desfazem em renda. Levam o rastro de um, do outro.
A cada passo, arriscam palavra nova.

 

 

Edna Bueno é brasileira, nasceu e mora no Rio de Janeiro. Formada em Engenharia Química pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), trabalhou na área por muitos anos. A partir de 1999, finalmente, passou a se dedicar com exclusividade à Literatura. Tem livros publicados na área infantil e juvenil e participação em antologia de contos e livros teóricos. Página em http://aeilij.org.br/associados/detalhe/204  

TOP ∧

Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2020


FICHA TÉCNICA


Edição e propriedade: 515 - Cooperativa Cultural, ISSN 2182-7486


Rua Júlio Dinis número 947, 6º Dto. 4050-327 Porto – Portugal


Redacção: Rua Júlio Dinis, 947 – 6º Dto. 4050-327 Porto - Portugal

Email: geral@incomunidade.com


Director: Henrique Dória       Director-adjunto: Jorge Vicente


Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Setembro de 2020:

Henrique Dória, Adelto Gonçalves, Alejandra Correa ; Rolando Revagliatti, entrevista, Álvaro Alves de Faria, Antônio Torres, Bárbara Lia, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Carlos Eduardo Matos, Carlos Pessoa Rosa, Cecília Barreira, Clécio Branco, Danyel Guerra, Edna Bueno, Faysal Rouchdi, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Fiori Esaú Ferrari, Guilherme Preger, Henrique Dória, Jaime Munguambe, José Eduardo Degrazia, Lau Siqueira, Leila Míccolis, Leonardo Almeida Filho, Luís Correia Mendes, Mabanza Xavier Esteves Kambaca, Marinho Lopes, Miguel Ângelo, Milton Lourenço, Myrian Naves, Myrian Naves, org.; arrudA, Nilma Lacerda, Rafael Flores Montenegro, Rafael Rocca dos Santos, Ricardo Ramos Filho, Ronaldo Cagiano, Ronaldo Werneck


Foto de capa:

HIERONYMUS BOSCH, 'Cutting the stone' (circa 1494)


Paginação:

Nuno Baptista


Os artigos de opinião e correio de leitor assinados e difundidos neste órgão de comunicação social são da inteira responsabilidade dos seus autores,

não cabendo qualquer tipo de responsabilidade à direcção e à administração desta publicação.

2014 INCOMUNIDADE | LOGO BY ANXO PASTOR