ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Fernando Andrade


Entrevista com o escritor Luiz Biajoni    

 

1-) Como foi pensar Algum amor dentro de uma prática de ontologia (vivemos um dia de cada vez) na ficção também? que resvala entre vida e morte, alteridade e negação, polos que se atraem \ repelem como toda boa estética narrativa. Fale disso.

Meu interesse maior é contar histórias com personagens interessantes. Quando penso em um enredo, logo o deixo em segundo plano para pensar os personagens. Para mim, são bons personagens que desenvolvem uma boa história – e não o contrário. As grandes histórias, salvo exceções que confirmam a regra, são sobre personagens. Inicialmente, Algum Amor contava o relacionamento entre duas pessoas, a vivida e madura Stella, que não sabe o que é amor, e Aquino, jovem, que descobre o amor através dela. Comecei a escrever antes da pandemia e Stella já era uma mulher de 60 anos que vivia isolada, em seu apartamento climatizado, tentando minimizar as dores da fibromialgia e da existência – bebendo, lendo livros e ouvindo discos. Meio que esperando a morte chegar, por assim dizer. Aquino ainda não tem 50 anos, está produzindo, criando, escrevendo livros. Veio a pandemia, com a necessidade de isolamento de todos – e a ideia de que, no fundo, estamos todos sozinhos. O romance que eu escrevia teria o mesmo tom do meu livro anterior, Quatro Velhos, mas a linguagem se modificou com a pandemia: não era mais apenas Stella que esperava a morte iminente. Aí, então, deixei as ideias correrem mais frouxas, abandonando o cronograma inicial, para que a urgência do momento tomasse os personagens. Acabou sendo meu livro mais fragmentado, urgente, e eu mesmo fiquei um pouco espantado com o resultado. Não era um romance que eu escreveria naturalmente.

2-) Há uma certa curiosidade autoral pelos personagens, como um levantar o véu, revelando uma estética de gosto, suas ranhuras, cicatrizes, pegadas. Esta sensação quase teatral por sentir as camadas de cada um dos seus personagens, Stella, Otávio, Luiz Aquino. Como foi esta criação deles?

Bem, eu queria uma personagem que tivesse feito tudo o que queria até os trinta anos: tinha vivido o amor livre, teve filhas (não por acaso, os nomes das filhas são Anita e Olga), participou da contracultura, usou drogas, montou seu negócio e se estabilizou. Nesse momento, casada com um cara legal e um pouco careta (que só podia se chamar Otávio), e sem saber o que, de fato, é o amor, ela conhece um garoto de dezenove anos que vive uma vida besta no interior. Ele não queria estar ali, claro, por isso ele se chama Aquino. Stella vai ser um sol para ele, vai abrir sua percepção para outros sons, outras batidas, outras pulsações. Stella é uma estrela clara, Stella Chiara. Então, sim, você está certo: os personagens são colocados nessa trama como num palco teatral com funções específicas – mas para além da trama, que é muito simples. Há um trecho do livro dentro do livro, escrito por Aquino, que é um exercício sinestésico – queria que Algum Amor funcionasse dessa maneira: como uma experiência sensorial.

3-  A representação da leitura, no papel da crítica-resenha é colocada por você até de forma mordaz, um pouco, revelando que certa autoria mexe muito mais com estética e formas do que certa noção de conteúdo que os resenhistas preferem se ater para não entrar num território muito íntimo do autor. Mas esquecemos que um livro é um processo altamente intimista e estético. Fale um pouco disso.

Críticos são um pouco previsíveis. Essa cena não estava na versão final do livro, mas enviei o livro para alguns leitores beta, que não são críticos, mas sempre comentam com bastante honestidade sobre o que escrevo. Essa é a função do leitor beta. Aí algumas coisas que eles apontaram, decidi colocar no livro, meio que antecipando o que podem dizer sobre ele. Como os livros de Aquino, na história, de certa forma também são antecipações da realidade, achei que podia ser interessante. Curiosamente, pensei no romance Biofobia, do Santiago Nazarian, que eu adoro, mas tem uma cena que não gosto, na qual o personagem principal queima páginas da revista Granta para se aquecer – é uma crítica do autor a Granta. Achei que essa cena da antecipação dos críticos podia destoar, mas também pensei: foda-se. J

4-) Miles Davis parece ter uma função destacada na história, principalmente, com o álbum citado. Porquê?

Precisaria de várias laudas para teorizar sobre isso, mas, basicamente, pelo nome do disco, Miles in the Sky, pelos nomes e sonoridade das músicas, pela arte da capa, por ser o disco preferido de Stella, por ser o disco que é mencionado no capítulo sinestésico no livro de Aquino dentro do livro, por ter 51 minutos, que é o tempo médio que alguém precisa para ler o livro todo, por ser um marco psicodélico na discografia de Miles, por combinar com o clima geral do romance, enfim, por várias questões, mas, talvez, para que o leitor se questione sobre isso.

 

 

Fernando Andrade, 50 anos, é jornalista e poeta. Faz parte do Coletivo de Arte Caneta Lente e Pincel e do coletivo Clube de leitura onde tem dois conto Quadris na coletânea  “volume 3” e Canteiro no “volume 4” do Clube da leitura. Colaborador no Portal Ambrosia com entrevistas com escritores e resenhas de livros.  Tem dois livros de poesia pela editora Oito e meio.  “Lacan Por Câmeras Cinematográficas” e “Poemoemetria”, “Enclave” ( poemas) pela Editora Patuá e “A perpetuação da espécie” pela Editora Penalux.

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Revista InComunidade, Edição de Setembro de 2020


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