ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Fiori Esaú Ferrari


Poemas    

Chapada Grande

A eguinha puxando a carroça.
A estrela no alto da sua cabeça
e o sol no alto do céu.

Os dois meninos aprendendo o balanço.
Assimilando o ritmo.
Antônio tocando a eguinha
da estrela na frente.
Chapada Grande.
Grande que nem o mato.

O chapéu na cabeça, que cai que não cai.

O vento sabe tocar flauta doce
ambulando no capim gordura,
a barriga do taquaral
tem sempre um passarinho vermelho,
sangue-de-boi.

A gente fica susto eterno
se vê um desses
tão frágil e tão vermelho.
Um coraçãozinho cheio de penas.

A gente se fia no fio da estradinha que some.

Um cão sozinho segue,
apareceu por ali
como companhia
que escolhe ficar,
um cão sem nome
que guarda a gente
e os meninos
ficam querendo saber
qual gigante é o dono dele.

Antônio ri
mas é do fumo
picado que traga.

Antônio aprendeu a rir para dentro.
Tem toda uma plantação que sonha,
espigas e canas,
mandiocas e batatas,
tudo sonha dentro dele.

Ele ri que é para confirmar a tristeza.

Na Chapada Grande,
um copo de cachaça no balcão
permanece assimétrico,
alimento de um quadro de Picasso
nunca pintado.

Tem um tempo que a gente aprende
que não vai escapar nunca mais.

Que a Chapada é grande, infinita,
e mora dentro da gente.

Que o esquisito das porteiras
é sempre estarem fechadas
querendo abrir.
E tudo passa
e só os animais grandes,
que não pensam,
esperam diante delas
como a coroa de cristo.

O peito de um sangue-de-boi
tem as mesmas rubras flores
de uma cora de cristo.

Antônio cuida dos dois meninos
sem que eles percebam.
Não tem ternura maior.

Desce, amarra os arreios, entra na venda.

Alguém saúda os meninos e fala da estrela da eguinha.
Antônio olha a Chapada Grande toda
preparando a chuva lá no final.

De novo sorri só para o seu coração.


 

 

 

 

 

O lenço

A algaravia dos pássaros.
Mas dançavam e lenços assim,
suaves sedas verdes,
azuis marítimos,
celestes cantos de cigarras,
minha tristeza
aqui
neste ponto.

Decalco as silhuetas do dia.
Um dia bravo,
como nunca,
seco na garganta,
a morte devia ser azul.

Sou muitos silêncios,
desse jeito,
as pessoas
mal me conhecem.

Aqui, ponho os pássaros,
ali, seu movimento árabe,
no fundo,
arrisco as cores
do mar alto
ou do céu mais profundo.

Minha mãe amarrava um lenço na cabeça.

Havia uma estrada na chácara
que dava no fim para ver o gado triste.

Quando minha mãe amarrava o lenço
na cabeça,
eu me assustava da beleza,
o céu, o mar, os pássaros,
tudo virava um tecido muito puro,
tudo ficava o gado,
minha tristeza
aqui
neste ponto.

A primeira vez que vi o mar
me pareceu o lenço na cabeça de minha mãe.

A primeira vez que vi o mar
não foi a primeira vez.

Há uma terra que a gente conhece
quando se espanta.

E ela nunca mais vai embora.
Por isso criei continentes.

Quando a gente se espanta,
a gente fica eterno.


 

 

 

 

 

Desistência

Um dia o pai contou uma história.
Há uma coisa tardia em existir.
Uma coisa tardia em envelhecer.

Grandes gigantes e frutas tão doces
no depois dos olhos
para além do muro.

O pai tinha um gosto muito europeu
em falar da neve.

Brancos na retina,
a velocidade do pássaro que escapou.
Brancos,
cadeiras em cima das nuvens.
A neve era a nostalgia do trigo.

Há uma coisa tardia em encanecer os cabelos,
isso de retorno
das histórias contadas,
o sol tão branco povoando
o campo das narrativas,
seja lá o que for,
o gigante só esperando o sumo
do fruto.

Um dia, Chico Buarque alterou o rumo
daquilo
a todo prazer
que o muro alto proibia.

O pai ouviu a música
puxando as contas do terço.

Achou a voz sem graça.

Nunca mais contou a história do gigante,
mas o pai parava, toda vez, para ouvir
a música do bosque
proibido pelo muro.

Há uma coisa tardia em existir,
uma medida no envelhecimento,
um atrito no outono,
uma fagulha no outono.

O sol é a manta que se derrama
sobre os corpos.

A procissão dos fracassos
desfila
lentamente.

A desistência é o único ato de bom senso.

Colocar a cadeira à porta,
como é um costume tão brasileiro,
e consultar as cores da tarde
e esmaecer.

Há um espaço da festa
no próximo quarteirão.

Até de madrugada,
haverá alguém
que apoiará a mão
no queixo,
as costas no muro
à espera de uma história.

E surdamente as estrelas vão passar.

E o sujeito estará mais velho,
a pele mais velha,
e voltará para casa
como quem conheceu o mar
e voltou sem peixe.


 

 

 

 

 

Pela cidade

Ando sozinho
e ouço Tuyo,
ando pela cidade,
pela cidade,
ouvindo Tuyo,
e as esquinas,
outra e depois outra,
as esquinas vazias,
o vento-vindo-indo,
a solidão das folhas
e podas de grandes
árvores me chamam
lágrima.

Qual a estética da pandemia de abril?
Qual a estética da pandemia de maio?
Qual a estética da pandemia deste junho,
que mês de torres e desertos,
cuidado com o vão?

Ando pela metrópole,
as ruas,
antes assíduas,
tomadas por pássaros
e há um corredor até o coração
que pulsa dentro do quarto
daquele apartamento,
e pulsa e pulsa,
parece que chove
mas é aquela prestes
ao desabamento,
aquela que se deixou vencer
e agora
espera o tempo fazer
o que é preciso para vingar,
aquela que não quer mais olhar
a janela,
olhar embaixo,
não notar meu vulto que vê
duas crianças no gramado,
duas crianças brincam numa réstia de sol
que se deixou escapar.

Ando pela cidade ouvindo Tuyo,
como lançar o abraço proibido
até a janela de uma suicida,
de alguém que não precisa,
a morte do desejo é o fim da precisão,
como supor estrelas,
eu ando-vento-vindo-indo,
e vagam cães comigo
e estou comovido,
um homem arfa sem máscara
e seu peso
me é afável,
passa como uma escolha,
algo que decidiu fazer,
um homem que me foi dado,
e viver livre e de mãos atadas
à morte,
ao prazo,
ao vencimento das coisas,
eu ando sem escrever,
nestes dias,
meus passos são minha escrita,
minha linha,
meu poema,
ando tão triste,
me ajeito nos caminhos,
poucos carros cruzam
vagarosamente,
ando ouvindo Tuyo,
qual a estética da pandemia de abril,
qual a estética da pandemia de maio,
qual a estética da pandemia de um junho absoluto,
qual coração apertado,
qual quarto,
qual vontade de abraçar,
a réstia do sol
levou-me as crianças,
no meio da grama verde,
eu volto só ouvindo Tuyo,
tô triste
e existe um campo suave
diante dos meus olhos
onde o dente-de-leão
cede ao vento.


 

 

 

 

 

O comentário do poema

Meu pai, eu tirei
da algibeira
as pequenas letras soletradas.

Três vezes semeei a terra.

As sementes não vingaram
mas os pássaros gostam
da anunciação da árvore
e brincam perto das covas
e tudo se foi.

Envelheço.
Retiro um livro muito antigo
da estante,
reparo numa anotação que fiz na juventude,
eu busco algum liame de significação.

Não encontro nada nem ninguém.

Resmungo qualquer coisa,
me centro
à língua estranha do comentário do poema
e sinto sua enorme presença,
as mãos na enxada ou na máquina de solda,
eu tentando explicar versos.

Fecho o livro comigo dentro.
Vou ver a tarde passar,
o cachorro vai deitar ao lado
e os pássaros,
meu pai,
vão voar
quando perceberem que eu adormeci.


 

 

 

 

 

advertência

devastado
embora consumas
os detalhes
de cada estilhaço
da flor abúlica
do berro do boi
tão lindo e tão só
um boi berrando
e a explosão latente do país

vi um ato de amor hoje

alguém guardou uma frase
nos escombros
e guardou com desvelo tanto
que na umidade
da madrugada
a frase parecia
o começo de um seio
o início de uma casa
a corda de pular
esquecida no alpendre
a terra porosa da promessa

quebras o jarro

transportas a água
com a mão

quando nada mais adianta
é bom parar
sentir o sol
verificar a pulsação
a respiração
buscar o lírio e o lítio

onde nada mais adianta
nada mais adianta

faze como a andorinha
que é finita
no voo que faz no pátio
porque se cansa
e tudo é um círculo
que não se acaba

fenece
em medida apropriada
fenece
como esta língua
este poema
este fio de água

vê a população
a incúria
o movimento desistido

vê o espaço não cumprido
diante do tempo que passa

esta mágoa
este perfume
esta pétala
nas tuas mãos
quem depositou
em oferta
fui eu

nada tens do presente dado
o verde da campina
a estrela que aboia
o teu medo de ter medo à noite

o poço construído por teu pai
parece um cesto
e está no vento
e está no azul
e todos sabem
que ali
faz anos
que ninguém
senta ao lado
e tem sede
e descansa
como um jesus triste

há uma coisa

há um recurso
estratagema matemático
uma engenharia dos desvios

e se chama linguagem
se chama sema transido de dor
e se diz verso
então diante de um longo poema
desiste

o sol seria mais belo
se o sol desistisse
a lua seria mais bela
se a lua desistisse
a atitude mais bela
é dos pássaros
que pousaram
porque não viram sentido algum

diante do longo poema
a única advertência possível é:

 

 

Fiori Esaú Ferrari é professor na Uneafro-Brasil (União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora) e na Prefeitura de São Paulo. Publicou livros pela Editora Penalux. Variações do Exílio é o último deles.

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Foto de capa:

HIERONYMUS BOSCH, 'Cutting the stone' (circa 1494)


Paginação:

Nuno Baptista


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