ANO 9 Edição 96 - Setembro 2020 INÍCIO contactos

Guilherme Preger


O grande cancelamento    

Recebi a notificação em minha interface de película, coloquei minha máscara de íons e meu face-shield e saí para a rua para encontrar MX@1988.  Eu não tinha mais medo de pegar o retrovírus, nem medo de ser cancelado, mas fazia muitos dias que eu não ia para a rua. Por quê? Eu sei que ficar confinado é perigoso para o aparelho neural, mas andar nas ruas naquelas condições era ainda mais triste e me deixava melancólico. No entanto, eu queria muito rever  MX@1988. Mesmo que fosse através da máscara de íons e da película sintética. Rever  MX@1988 era talvez minha única razão de viver.

         Atravessei as ruas do antigo bairro da Glória, hoje conhecido como G#2009. Tudo estava desolado. Quando passei em frente ao Grégora$98, meu coração estremeceu. Estava fechado e dificilmente iria abrir novamente. Que lástima. A Grande Pandemia havia destroçado o melhor e o pior dos comércios cibernéticos.

         Nas ruas, as únicas luzes vinham dos aeromóveis dos tecnomilicianos. Eles tomavam conta para que o lockdown fosse completo. Meu pseudo-salvo-conduto digital ainda estava válido e  bastaria eu mostrar minhas impressões de resina orgânica. Diziam que as tecnomilícias haviam aprimorado o sistema de rastreio das falsas impressões, mas eu confiava nas minhas porque eu as havia testado antes de sair de casa. Elas estavam funcionais.

          MX@1988 me esperava no fim da ladeira. Não nos beijamos nem nos abraçamos. Mas senti que atrás da sua máscara de íons ela abrira um sorriso, o mesmo que me encantava em tempos passados. Mas agora tudo estava mudado. Nós só estávamos juntos em nome da Missão. Todo relacionamento era perigoso e deveria ser realizado unicamente dentro do programado. As luzes de ultra-LED dos aeromóveis cortavam o céu da noite e por um momento eu as achei belas como fachos de São Tomé.

         “Tudo parece tão ciberpunk”, foi o que ela me disse. Mas eu a corrigi: “Nós não dizemos SAI-BER-NÉ-TI-CA, então não é SAI-BER-PUNK, mas ciberpunque”. “Você sempre tentando me corrigir como se fosse meu pai. Mas agora já estou crescidinha. Aliás, muito bem crescidinha”.

         Realmente, eu tinha idade para ser o pai dela. Mas “pai” era uma realidade muito antiga. Ninguém mais era ou queria ser pai. Essa palavra tivera que ser cancelada.  MX@1988 também tinha o salvo-conduto, mas não era comum nestes tempos que dois avatares caminhem conversando pelas ruas noturnas, depois do toque de recolher. Por isso, mantemos certa distância. O certo, no entanto, era andar com aparência despreocupada para não levantar suspeitas para as câmeras de algoritmo. É certo que nosso salvo-conduto dizia que nós pertencíamos à Facção Ema Selvagem, e ninguém mexia com a Facção. Ninguém era louco de mexer com a Facção Ema. Nem mesmo as tecnomilícias.

         Além disso, o medo do retrovírus era apavorante para a quase totalidade das pessoas. Havia outras pessoas nas ruas, todas elas de Facções, mas só aqueles imunizados realmente enfrentavam os aerossóis livres.  Entramos na TA#2009_3 (antiga rua Taylor). Ainda havia muitos lumpenários por ali. Eles deixavam suas gambiarras espalhadas pelo chão e permaneciam no interior de suas couraças ionizadas.  Nós sabíamos que certas ruas do G#2009 não tinham câmeras algoritmizadas pois os lumpenários as haviam desativado. E ninguém mexia com os lumpen, porque além de loucos eles eram transmissores de todos os tipos de vírus. Eles haviam convertido os vírus em armas de defesa.

         Numa das plataformas verticalizadas, o portão se abriu à nossa aproximação e entramos por ele. Subimos a escadaria que se estendia por muitos e muitos degraus,  em espirais vertiginosas. Havia luzes de neon em algumas das voltas para orientar. Quando chegamos no pátio superior, em forma de um grande platô neonizado, já em S#1971 (a antiga Santa Teresa), vimos dezenas de missionários como nós dois, com seus face-shields de LED piscantes. “Está parecendo uma festa”, disse  MX@1988, com seu mau humor tradicional. Reconheci o cronotopo como o antigo Mosteiro de Carmelitas que havia recebido cultos religiosos até recentemente, mas depois fora ocupado supostamente pelos lupenários, mas não era verdade. Os lupen eram na virtualidade avatares de missionários transpessoais.  MX@1988 logo reconheceu su@ antiga amig@ transpessoal e foi saudá-l@.  Fiquei pensando em quantas experiências  MX@1988 havia vivido sem a minha presença e confesso que senti ciúme, embora não possa assumir esse afeto, pois fora cancelado dentro de nossa Missão.

         Recebemos os captafones sem fio que tocavam a psicossonorização singularizante e todos podíamos então dançar. Mas não pude me concatenar com MX@1988 pois sua sonorização era diferente da minha. Cada sonorização singulaizante correspondia-se com os impulsos neurais individuantes que os captafones registravam e produziam a partir deles uma espécie de sincronização mental centrifugante. E assim foi por pelo menos uma hora de dança contínua. Serviram em intervalos as pastilhas hiperdélicas (líquidos eram proibidos) que simulavam H2O irradiante, o que nos fazia dançar de maneiras cinemáticas. Foi quando a psicossonorização foi interrompida e a Voz do Mestre começou a emitir a sua sentença no voicoder

         Camaradas, Salve o Magno Conatus! Estamos aqui para assistir o ritual do Grande Cancelamento. Será um dia de apogeu para nossa Missão. Sua primeira fase estará completada dentro de poucos minutos. Desde que nossos equivocantes quânticos quebraram o código do jogo do MegaB$$$, nós conseguimos invadir o Aparelho Hegemônico a partir de um portal heterárquico e acessar o programa-fonte. Deciframos o código hermético e replicamos a sua chave de neutrinos. E agora é o dia de apertar o ícone sutil e transversalizar nosso provírus. O provírus, os Camaradas já sabem, é uma equivocação do retrovírus megaB$$$ista. Agora basta só um toque no ícone sutil para o MegaB$$$ ser cancelado e o planeta terá se livrado de mais um Falso Messias.

         A psicossonorização voltou a tocar e todos novamente começamos a agitar nossos corpos frágeis, machucados por anos de retrovírus, de pânico, ansiedade e desespero. Muitos de nós haviam morrido. Outros haviam sido torturados. Sim, era um momento de perseverança. Demos glória ao Magno Conatus!, dizia recursivamente a Voz do Mestre no voicoder. Eu procurei com os olhos  MX@1988 e não a via. Mas percebi dois transpessoais se beijando num dos cantos do galpão neonizado. Naquele momento, o beijo era permitido apenas entre os transpessoais. E foi aí que entendi que minha querida  MX@1988 havia se tornado também uma transpessoa. E foi no momento melancólico dessa minha descoberta que ouvi a Voz do Mestre decretar:

         Camaradas, dancemos! Aumentem a psicossonorização! Sigamos o Magno Conatus: O MegaB$$$ não é Presidente mais!

 

 

Guilherme Preger é engenheiro e escritor, residente no Rio de Janeiro. É autor dos livros Capoeiragem (7Letras/2003) e Extrema Lírica (Ed. Oito e Meio/2014). É organizador do coletivo de prosa literária Clube da Leitura (http://clubedaleiturarj.blogspot.com/), e participou de diversas coletâneas de contos e histórias ficcionais. É crítico de cinema pela revista Diversos Afins (http://diversosafins.com.br/). Participa do coletivo de arte e escrita  Caneta, Lente e Pincel ((sem título)). É Mestre em Literatura Brasileira e Doutor em Teoria Literária, ambos pela Universidade estadual do Rio de Janeiro. Atualmente dedica-se à pesquisa sobre as relações entre o discurso científico e o discurso literário. 

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Paginação:

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